quinta-feira, 29 de novembro de 2007

PESSOAS DESCONHECIDAS QUE FAZEM PARTE DA MINHA VIDA...

Moro neste bairro de Belo Horizonte há 10 anos. Quando vim para cá estava terminando o terceiro ano científico que já mudou de nome e não sei mais como se chama, e me preparando para o vestibular.

Existem aqui quatro pessoas que de certa forma "convivo" nesses 10 anos. Nunca conversei com eles, sequer cheguei perto deles, mas são presenças tão constantes e únicas que não podia deixar de mencioná-los.

O primeiro é o Senhor Peixeiro. Ele passa às sextas feiras com sua caixa de isopor carregada nos ombros. É careca, baixinho, barrigudo (sabem aquela barriga de pai) , usa sempre uma camisa xadrez aberta até quase o umbigo, calças jeans surradas e botas velhas, um ar muito simpático e uma voz aguda que sempre profere as mesmas palavras:

"Ó o peixeiro aeeeeeeeee! Piaba, sardinha aeeeeeeee! Camarão fresquinho aeeeeeeee!"

Outra figura é o Senhor Amolador. Deve ter seus trinta e poucos anos. Ele passa todos os dias, na parte da tarde, carregando uma espécie de maleta preta, bem velha já. Ele tem uma voz bem aguda também. Será é característica de ambulantes? Ele é um pouco careca, parece ser mais alto que o Sr. Peixeiro e grita sempre a mesma coisa, mas num tom diferente do Sr. Peixeiro.

"Ó o amolaaaaadooooor! É o amolador passando na sua rua. Amola faca, tesoura e alicate! Ó o amolaaaaadooooor!"

Depois tem o Cara da Pamonha. Esse eu nunca vi. Não sei falar nada sobre ele. Ele passa de vez em quando dentro de um carro com um auto falante. Só sei dizer que pelo auto falante a voz dele é bem grave, meio nasalada. Grossa e nasalada.

"Pamonha, pamonha, pamonha! É a pamonha quentinha! Pamonha, pamonha, pamonha. Mingau de milho verde! Aproveite a oferta de hoje!"

E por último, deixei por último de propósito, porque detesto ele! O chato, nojento, irritante, sem noção, do Mané Jornaleiro! É um cara de uns 25 anos mais ou menos. Já olhei pela janela uma vez para vê-lo.

Na verdade foi prá xingar mesmo. Mandá-lo calar a boca. Por que? Porque ele passa todo santo Domingo sete horas da manhã!!!!!!! Isso mesmo, SETE HORAS DA MANHÃ!!!! E agora com esse horário de verão, ele continua passando no mesmo horário... ou seja... na verdade SEIS HORAS DA MANHÃ DE DOMINGO!

E ele não se contenta em avisar que chegou e que está vendendo jornal. Ele fica mais de meia hora gritando com aquela voz horrível que entra na cabeça da gente, faz a curva e sai pelos ouvidos arrancando todos os miolos que temos dentro da cabeça:

"Óóóóó o Estaaaaaaaaaddoooooooooo! Óóóóóóóó o Estado de Miiiiiiiinaaaasssss!
Óóóóó o Estaaaaaaaaaddoooooooooo! Óóóóóóóó o Estado de Miiiiiiiinaaaasssss!"

E sai tocando o interfone dos apartamentos oferecendo o jornal. E o pior é que nesses 10 anos ninguém nunca desceu e nem atendeu o interfone numa boa prá comprar o jornal do cara!

Pior ainda quando vem um quinto cara, que é comparsa do Mané Jorrnaleiro e eles ficam disputando prá ver quem grita mais alto. Eu moro no primeiro andar de um prédio e meu quarto dá prá rua que eles gritam! E começa a competição:

Mané Jornaleiro 1: "Óóóóó o Estaaaaaaaaaddoooooooooo! Óóóóóóóó o Estado de Miiiiiiiinaaaasssss!
Óóóóó o Estaaaaaaaaaddoooooooooo! Óóóóóóóó o Estado de Miiiiiiiinaaaasssss!"

Mané Jornaleiro 2: "Óóóóóóóóóóó'o Estaaaaaaaadoooooo e a Foooooolha! Óóóóóóóóó'a Foooooolhaaaaa e o Estaaaado de Minas!"

Ninguém merece! E perto da sua casa? Tem algum desconhecido que faz parte da sua vida?


Carla escreveu este texto em 2003. Essas pessoas fizeram parte de sua vida e hoje só amolam sua mãe, porque Carla mora no paraíso onde só existe o carro da pizza que passa aos fins de semana anunciando “PIZZA DE MUSSARELA OU CALABREZA APENAS 10,00. É O CARRO DA PIZZA PASSANDO EM SUA RUA!!!!”


4 comentários:

Angel disse...

Oi Carla!
Tem uma figura que faz parte da minha vida há muito tempo. É o doceiro.

Moro no mesmo bairro há 31 anos. Ele passa na porta de casa há uns 20 anos ou mais. Ele é alto, negro, simpático. Não é mais um desconhecido. Já perguntei o nome dele algumas vezes e me esqueci todas elas. Ele entra nas casas para vender seus doces (deliciosos). Hoje já está idoso, já deve ter passado dos 60, mas continua lá, vendendo seus doces e chamando todo mundo de "doce":
ÔÔÔÔ Menina doce! ÔÔÔÔÔ Cachorro doce (é o cachorro lá de casa que sempre compete com ele no volume).
Sou "Menina doce" desde bem novinha.

Espero que ele demore bastante para se cansar de trabalhar. Ele fará muita falta.

Beijos!

Mia disse...

Esse post (q adoreeei demaaaaais) me levou de volta à infância, quando li lááááá no colégio de freiras o paradidático "rua das rosas, rua dos meninos"... acho que é esse o nome =/ anyway, nossa vida está sempre cheinha dessas figuras que desconhecemos, mas que certamente dão mais vida ao cotidiano. Né?
=****

Paula disse...

Oi Carla!
Hoje em dia não tem nenhuma figura assim desconhecida, mas que faz parte da minha rotina...
No entanto, quando morava com minha mãe, tinha aquele carrinho que vendia produto de limpeza e também um senhorzinho que passava com uma buzina, vendendo algodão doce e sorvete. Este, eu adorava!!! E ele não precisa nem gritar rsrs!

Sisa disse...

Ahhh fala sério, lembrei daquele cara que teve o carro reformado no Caldeirão do Huck que fizeram um funk com a música que ele usava pra vender ovo hahahha...

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