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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Memória

“Eu tinha que esperar mais de 20 dias dentro do barco. Havia meses em que eu ansiava por chegar ao porto e desfrutar da primavera em terra. Houve uma epidemia. No Porto Abril nos proibiram de descer. Os primeiros dias foram duros. Me sentia como vocês. Logo comecei a confrontar aquelas imposições utilizando a lógica. Sabia que depois de 21 dias deste comportamento se cria um hábito, e em vez de me lamentar e criar hábitos desastrosos, comecei a comportar-me de maneira diferente de todos os demais. (...)Em vez de pensar em tudo que não podia fazer, pensava no que faria uma vez chegado à terra firme. Visualizava as cenas de cada dia, as vivia intensamente e gozava da espera. Tudo o que podemos obter em seguida não é interessante. Nunca. A espera serve para sublimar o desejo e torná-lo mais poderoso. (...)Naquele ano me privaram da primavera, e de muitas coisas mais, mas eu, mesmo assim, floresci, levei a primavera dentro de mim, e ninguém nunca mais pode tirá-la de mim.”(*)

Sou uma pessoa conhecida pela minha falta de memória com datas. Confundo-me com momentos; nunca sei ao certo onde e quando ocorreram. Mas guardo com cuidado, e em ricos detalhes, todos os sentimentos que tais momentos me proporcionaram.

O dia 18 de março de 2020 certamente será diferente. Estou certa de que guardarei esta data na memória como o dia em que perdi minha liberdade. Mais precisamente como o dia em que renunciei à minha liberdade, pensando em todos aqueles que não a possuem sequer para, momentaneamente, dela também renunciarem.

Somos gregários. E eu me sinto ainda mais gregária que muitos. Também sou conhecida por viver em festa, cercada de pessoas de todas as raças, credos e cores, conversas acaloradas ao redor da mesa, ao tilintar de copos que se esvaziam rapidamente, gargalhadas escandalosas e obscenas, braços dados e abraços apertados no meio da rua. Sofro. Já não sei se serei lembrada assim. Ou talvez o seja, porém com data para acabar: 18 de março de 2020. Passados nove meses e dez dias, confesso que nutro meu espírito, algumas vezes de decepção, outras de esperança. Não sabemos quando isso irá acabar, nem se irá acabar.

Em 18 de março de 2020 eu ainda tinha esperanças de comemorar meu aniversário, pouco mais de dois meses depois, com festa. Um grande encontro de amigos. Eu ainda não estava abatida, consegui comemorar remotamente e, confesso, naquele dia pareceu-me extremamente divertido. Mas não consigo mais viver um momento tão crítico alegremente. Não consigo mais deixar de sentir repulsa por quem nega a existência do perigo e relaxa com a vida alheia. São mais de 190 mil famílias chorando no país. Sem contar aqueles que choram em solidariedade, mesmo que (talvez, ainda) não tenham perdido um ente querido.

Tenho a impressão de que nem a proximidade da morte foi capaz de fazer com que grande parte das pessoas refletisse a respeito do que realmente importa. Incontáveis pessoas ao meu redor não foram capazes de renunciar ao direito de ir e vir em prol da vida, em prol do outro. As mesmas pessoas que enchem igrejas e templos, que pregam amor ao próximo. Venho tentando oferecer a outra face, mas está cada vez mais difícil.

Do meu recolhimento, ouço o alvoroço de crianças brincando, gargalhadas de adultos e penso que nunca imaginaria que sons outrora tão alegres e convidativos um dia me causariam um misto de vergonha, horror, náusea, decepção. E saudades, muitas saudades da época em que a preocupação com o outro me parecia mais etérea (embora não devesse jamais).

Às vezes penso que morri um pouco. Às vezes penso que há muita vida à minha volta e à minha frente. Às vezes penso que meus sonhos estão cada vez mais distantes da concretude. Outras, sinto que é apenas uma questão de tempo até eu voltar a alçar vôos cada vez mais distantes.

O desespero eu aguento. O que me apavora mais é a esperança. Não sei ao certo quem disse isto, dizem que o Millôr Fernandes. É exatamente o que sinto neste momento. Uma esperança apavorante. Porque em 2020 eu sinto que morri um pouco, mas em 2021 eu não vou morrer de novo.


Laeticia tem esperanças em um futuro melhor. Quando este dia chegar, vai botar seu bloco na rua.

Esta postagem possui trilha sonora!!

https://open.spotify.com/track/3jVuBBSKDbOproXHXZ9JLd

https://open.spotify.com/track/0ycD9nYYPV1fu4Qt6rD2mp

https://www.youtube.com/watch?v=Vxmrq0oF_HI&list=RDNOvdg5EGLA8&index=11

https://open.spotify.com/track/6b493rYJ4xkaNXDiVGHsK3

https://open.spotify.com/track/6v1go1ryuIswv45jo0erV8


 


(*) Gabriel García Marques em O Amor nos Tempos do Cólera.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

É preciso ter coragem

Foi por acaso que me deparei com um vídeo em que uma coach afirma categoricamente que as pessoas desistem pela falta de um propósito maior na vida. Inclusive esta coach deu um exemplo bastante infeliz que está gerando polêmica nas redes sociais. 

Não foi este exemplo triste que me chamou mais atenção no discurso da moça. O que mais me chamou a atenção foi a insistência e firmeza dela em dizer que a desistência explicita falta de perseverança em busca da concretização de um sonho, ou a falta de um propósito maior, nas palavras dela. 

O discurso me incomodou tanto que, passados cinco dias, ainda estou pensando no tal vídeo. Assisti novamente o vídeo do discurso, procurei o conteúdo na íntegra na internet, em uma vã esperança de encontrar algum contexto em que as palavras dela me soassem um pouco mais lúcidas. Não encontrei. 

O que encontrei foram inúmeros profissionais intitulados coach de carreira, coach profissional, até mesmo coach de vida (!) e todos, sem exceção, execravam aqueles que se atreviam a cogitar desistir de um projeto, um sonho, uma atividade. Imagino que estes profissionais sejam seres sobre humanos, perfeitos, ou não se atreveriam a questionar a difícil e sofrida decisão de desistir.

A palavra atrever é proposital. Como alguém que pretende ensinar uma fórmula mágica para ser feliz, ter sucesso, “chegar lá” se atreve a julgar aqueles que desistem? Como se houvesse uma receita de bolo para ser feliz, ter sucesso e chegar lá! Como se as prioridades de vida e as oportunidades fossem idênticas; como se as circunstâncias fossem sempre favoráveis, como se a vida não nos impusesse escolhas difíceis, extremamente difíceis; como se reconhecer seus limites fosse uma fraqueza, uma vergonha. Pior! Como se o “lá” de todos fosse o mesmo lugar.

Em uma sociedade que cobra tantos resultados das pessoas, até mesmo o direito de se cansar foi cassado! O direito de mudar de idéia então, coitado, não encontra espaço mesmo! As pessoas são estimuladas a insistir, perseverar, cair, mas levantar-se e continua no mesmo caminho. Não importa se o caminho está ou não em conformidade com o que a pessoa deseja para si. O caminho de cada um está traçado pela expectativa de terceiros. Isso é muito cruel.

É verdade que eu, sim, já desisti. E afirmo com a segurança de quem dá a cara para bater que desistir faz parte da vida. Meu ato de desistir foi precedido de muita perseverança, de muito preparo, de muito investimento financeiro e emocional. Mas, assim como o “sucesso”, desistir também não é para qualquer um. Desistir demanda autoconhecimento. Desistir demanda firmeza de valores.

Mas, sobretudo, desistir demanda muita, muita coragem. 

Você será julgado por absolutamente todo mundo: amigos, família, colegas de trabalho. Sorte sua se tiver um cachorro. Só ele não vai te julgar. Dentre todos os que te julgarem, pouquíssimos continuarão ao seu lado, com as mãos estendidas caso você precise de apoio. E ninguém, salvo raríssimas exceções, irá manifestar admiração por você ter ousado desistir, por ter ousado mudar. Mesmo aqueles que, bem no íntimo, também sonham em mudar de vida e não têm coragem sequer para assumir este desejo para si mesmos, nem estes darão o braço a torcer. 

Desistir demanda autoconfiança, firmeza de valores, coragem e, creiam-me, perseverança. A vida fará de tudo para que você se sinta tentado a voltar do novo caminho. A sociedade prefere um insistente deprimido do que aquele que desiste e mostra que, muitas vezes, largar o osso também é uma boa opção.

Aos que se sentem tentados a desistir, infelizmente não tenho uma receita pronta para lhes passar. Não me sinto preparada para ser coach de nada, muito menos “coach de desistência”. Apenas digo pela minha experiência que o meu processo foi muito difícil, sofrido, cheio de obstáculos, mas eu não estava feliz. E a certeza de que todo mundo nasce para ser feliz é que me dá forças para continuar em frente, sem medo de mudanças, sem medo de desistências. Ser feliz sim é o meu maior propósito de vida.

Laeticia não tem medo de desistir. Nem de mudar.

terça-feira, 13 de março de 2018

Eu nunca invejei o Highlander

Eu nunca invejei o Highlander. Pelo contrário, eu sentia uma certa pena dele. Não, minto; eu sempre senti muita pena dele. Imaginem que triste você viver para sempre enquanto seus amores se vão e você fica?! Esta perspectiva sempre me apavorou. 

Então foi com enorme surpresa que, aos quarenta anos de idade, me deparei com a consciência de que eu efetivamente não sou imortal! Creiam-me: inconscientemente eu sempre me senti e agi como se eu fosse imortal. E olha que eu sentia pena do Highlander!

Pior que a consciência de não ser imortal foi a certeza de que meus amores tampouco o são!

Vejam bem: até pouquíssimo tempo atrás eu nunca havia sentido medo de correr determinados riscos. Aliás, eu sequer concebia a existência de riscos. O único risco era não viver plenamente as oportunidades oferecidas pela vida. Voemos de asa delta! Saltemos de paraquedas! Pulemos de bungee jump! Não é a este tipo de risco que me refiro. Quem dera!

Minha irmã que malha todo dia e só come natureba; teve uma trombose aos 38 anos. Eu voltei a fazer ginástica somente há dois meses e mesmo assim para estimular meu marido a se exercitar. Fora que eu como tudo que me der vontade, da cenoura ralada a barriga de porco, com preferência, evidentemente, pelo porco.

Minha amiga descobriu um câncer de mama aos 35 anos, teve que fazer uma mastectomia; está incrivelmente bem, mas foi um baita susto. E eu fiquei enrolando até o ano passado para fazer uma mamografia e um ultrassom que minha ginecologista já havia pedido há dois anos.

Uma conhecida de 36 anos foi fazer uma cirurgia eletiva e morreu. E eu aqui planejando fazer uma plástica para levantar os peitos e ajeitar a lataria.

Outra, da época do primário, infartou aos 42 anos. Dizem que estava pegando pesado com drogas lícitas e ilícitas. Ok, eu nunca me droguei. Mas já bebi horrores a ponto de, nas palavras da minha vó, praticamente perder a dignidade e literalmente perder o rumo.

Uma terceira, de 40 anos, por quem eu nutria uma verdadeira antipatia, estava na estrada de moto e foi esmagada por uma árvore que caiu em cima dela! A mesma estrada pela qual passei duas vezes por dia, religiosamente todos os dias, durante pelo menos quinze anos da minha vida.

Agora acabo de receber a notícia de que o irmão de uma amiga, um cara praticamente atleta, em torno dos 40, infartou ontem, está no CTI e passa bem, graças a Deus. 

Eu realmente nunca havia pensado sob este prisma. Capaz que viver é perigoso! Riobaldo que era frouxo!

Não, Riobaldo, faço a mea culpa. Viver é sim perigoso. Mas não seria mais perigoso ainda deixar a vida passar pelo medo dos perigos?

Sempre optei por enfrentar meus medos. Mas eu os enfrentava meio na displicência, na certeza da imortalidade. Aquela coisa meio gaiata de quem tem certeza de que tem todo o tempo do mundo.

Agora, consciente de que o pó me espera e que o tempo já não é mais tão meu amigo, decidi continuar enfrentando os perigos, porém os estou escolhendo a dedo. 

Semana que vem vou ao médico. Continuarei com a ginástica. Terei um mínimo de discernimento para comer e beber. Não terei nenhum comedimento ao demonstrar meu amor. Porque o corpo morre, mas o amor não precisa morrer.


Laeticia agora sabe que é uma reles mortal.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Profissão ou Vocação?

Marido sem face sempre diz que é médico por profissão, não por vocação. Ele diz que não é destes caras aficionados, que amam a Medicina mais que tudo, abnegados em suas próprias vidas em benefício dos pacientes.

Quer matar marido sem face de raiva é aparecer o personagem daquela série que o médico só sai do hospital na periferia pra comer misto e café com leite na banquinha de frente e, ao ouvir a primeira sirene, já larga a comida e corre pra salvar a vida do paciente lá dentro.

Isso é o que ele diz. Porque o que eu vejo diariamente há dezessete anos, tempo em que estamos juntos, é bem diferente.

O que eu vejo é um cara acordar todo dia às seis da manhã, quando não às cinco, se arrumar, tomar café e ir cheiroso e bem disposto para o posto de saúde em uma das cidades com menor IDH do Brasil, depois de dirigir por uma hora. Sim, não é consultório, não é hospital particular. É posto de saúde em área de risco. Marido sem face, a despeito de seu 1,90m, muitos quilos e cara de bravo, já foi ameaçado por vagabundo armado dentro do posto de saúde. Quase fiquei viúva antes mesmo de me casar e só fui saber disso muitos anos depois. Ele sabia que eu ia surtar quando me contasse e que eu ia insistir pra ele largar o posto de saúde em Ribeirão das Neves. E eu ia mesmo insistir até conseguir convencê-lo a sair de lá. 

Isso era o que eu pensava que conseguiria. Hoje não tenho mais esta petulância. Uma vez fui conhecer o posto em que ele trabalhava num bairro (ainda mais) pobre de Neves. O que eu vi lá me chocou: a rua não tinha calçamento, corria esgoto a céu aberto e a luz do posto era um gato, porque tinha explodido alguma coisa e a prefeitura e a Cemig ainda não tinham arrumado. Marido sem face sentava em uma cadeira de ferro, dura, fazia um calor infernal e não tinha nem um ventilador por lá. Comprei uma cadeira decente e um ventilador, já que não podia colocar ar condicionado no consultório. O computador que tinha neste posto especifico, fui eu que doei. 

E marido sem face lá, todo santo dia, sendo médico por profissão, segundo ele.

Depois de muito tempo neste posto, foi transferido para um outro, mais bem localizado (mais seguro, entenda-se). Os problemas mais graves eram os mesmos: dificuldades pros pacientes fazerem exames, a ignorância da população para aderir ao tratamento, paciente doido pra aposentar por invalidez ou pelo menos conseguir um atestadinho, vereador indo bater na porta para furar fila de atendimento para eleitor e por aí vai. 

Uma vez, marido sem face teve um problema numa clínica em que trabalhou (sim, são vários "empregos") porque pedia para o paciente, se possível, realizar o exame no laboratório x, no qual ele confiava. A clínica tinha um laboratório também e houve uma celeuma porque ele não encaminhava os pacientes direto pro laboratório da clínica. Perguntei porque ele preferia o outro laboratório; disse que estava preocupado com a qualidade do exame para tratar adequadamente o paciente e não com o departamento financeiro da clínica. 

Uma outra vez ouvi de um colega dele que achava um desperdício um cara do nível de marido sem face, inteligente, articulado, trabalhar no posto de saúde ao invés de abrir um consultório próprio. Eu também achava. Apesar de já ter ouvido isto de outros colegas de marido sem face, esta foi a única vez em que o questionei. E pobre não tem direito à medicina de qualidade?! Toma distraída! Quem mandou?! 

Este é meu marido sem face, médico por profissão, não por vocação, segundo ele. Que me mata de orgulho todo santo dia. Que traz muito conforto e alento a quem muitas vezes não tem mais nada. 

Parabéns pelo seu dia, mesmo você não tendo face.

Em tempo: parabéns a todos os médicos com quem convivo e compartilho as dificuldades!

Laeticia morre de orgulho do marido sem face todo santo dia.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A marvada


Beber cachaça pra mim sempre foi uma coisa tão natural que eu até hoje estranho quando alguém me olha torto ao ouvir “eu adoooooro cachaça” saindo da minha boca. Cachaça na minha família sempre significou comemoração, coisa boa, alegria. Venho de uma família de homens e mulheres fortes. À exceção do meu avô (surpresos?!), todo o resto da família bebe, mesmo que seja uma dose pra acompanhar os mais cachaceiros – eu incluída, claro.

Cachaceiro. A palavra costuma vir carregada de preconceito. Não é só a palavra. Quando me casei, decidimos que não serviríamos whiskey, mas sim uma cachaça de primeira. Vocês não imaginam a cara da mulher do buffet quando ouviu isso. E ainda se negou a me alugar um vasilhame pra minha valiosa cachaça. Fiquei puta. Mas tava chegando a hora e resolvi não me estressar com isso. Levei a licoreira da minha mãe e foi um sucesso! Tem uma foto minha também fumando charuto e bebendo uma cachaça, vestida de noiva. Não me lembro quem viu, não me reconheceu e perguntou quem era a vagabunda. Fiquei com dó. A foto é linda!

Enfim, isto já há quase nove anos e de lá pra cá ficou cool beber cachaça. A Expocachaça assumiu proporções grandiosas! Agora tem até show. E não é que mais um monte de gente apareceu dizendo que sempre gostou da marvada?!

Enfim, quem sou eu pra julgar, né? Fato é acabei virando meio que uma referência sobre cachaça entre meus amigos e conhecidos. Não que eu seja uma entendida da fabricação de cachaça, não sou. Não me lembro de ter ido a algum alambique nos últimos x anos (não, não vou denunciar desde quando eu bebo rs). O que eu sei sobre cachaça aprendi ouvindo e bebendo. 

Há cachaças e cachaças. Cachaça branca, nova, amarela, envelhecida, mais seca, mais suave, adocicada, amarguinha. Mas o mais importante saber é que há cachaças boas e cachaças tão ruins que só o cheiro já dá ressaca! Fica a dica: antes de beber, cheire! Arrepiou? Ardeu lá dentro do nariz? Bebe não! Provavelmente você estará diante de metanol com cara de cachaça. Ou a cachaça de cabeça, como se diz. É a primeira que sai no alambique no momento da fabricação. É forte pra burro. Se você não estiver acostumado com bebida forte, vai cair pra trás. Particularmente eu não gosto.

Enfim, cheirou? Gostou? Então pode se servir. Observe o líquido. A cachaça não pode ser turva. Ela deve ser cristalina, brilhante. Se for nova, será bem fluida, como água. Se for mais antiga, será meio licorosa. Basta girar o copo, deixando subir um pouco pelas laterais e observar como as gotas descem. Você vai perceber a diferença. Principalmente quando provar.

Cachaça nova é boa pra fazer caipirinha. E branca. Não sei por que não acho que cachaça amarela faça uma boa caipirinha. Já uma amarelinha envelhecida tem o seu lugar! Muito melhor que muito whiskey! E cachaça verde não é muito minha praia não. Nem aquelas cachaças aromatizadas. Cachaça boa, pra mim, é cachaça envelhecida em tonel de madeira por pelo menos 5 anos. É uma delícia!

Mas cada um tem um gosto, né? Respeitemos. Há quem goste de cachaça industrializada. Feio eu ficar citando nomes aqui, mas aquela Vale Verde que vendem nos supermercados é ruim de lascar! E o pior é que saiu na Playboy um monte de elogios e tals. Como diriam minhas amigas gaúchas: bah! 

E já que falei de uma que eu não gosto, então vou falar das que gosto, né? A Áurea Custódio é uma cachaça que gosto bem. Tem dela de 1 ano, 3 anos e 5 anos. Não preciso dizer que gosto mais da de 5 anos. A Bodocó também me agrada bastante. Agora se você estiver a fim de gastar algumas centenas de reais, a melhor de todas é a Havana. Não tem como negar. 

Calma, meninas! Não estou querendo levar ninguém à falência! Há uma excelente alternativa. Não baratinha, mas que não custa mais de 300 reais. A Anísio Santiago é exatamente a mesma cachaça da Havana. Mesmo fabricante, mesmo alambique. 


Laeticia é cachaceira há muito tempo. E nunca se acanhou em admitir isso.

(e dedica este post à balzaca Deia)



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Eu Voltei


Eu sumi. Mas eu não sumi porque eu quis sumir, simplesmente. Passei por tanta coisa nos últimos anos, me perdi, me encontrei, me perdi novamente e finalmente me reencontrei. É difícil esta caminhada rumo a nós mesmos. E o pior é que nunca sabemos quanto tempo a caminhada irá durar. A minha, já me conformei, será eterna.

E então que durante este meu sumiço, encontrei tanta coisa, tanta gente, tanto sentimento que estava, ora guardado, ora esquecido, que consegui recuperar uma parte de mim muito, muito querida e que estava desacordada. Consegui realizar um grande sonho. Um sonho que me permitiu reviver momentos lindos.

Quando eu tinha apenas 19 anos fui fazer intercâmbio cultural na Tailândia. Isso foi em junho de 1995. Larguei emprego, estudos, namoradinho adolescente e fui-me embora desbravar o mundo. Foram meses maravilhosos, de intenso amadurecimento e engrandecimento pessoal. Conheci uma família maravilhosa que abriu os braços e o lar pra uma estranha: eu. 

No final do programa eu realmente me sentia em casa. Sabe quando você chega em casa da rua, já vai direto tirando os sapatos e abrindo a geladeira pra pegar água gelada? Quando chega e belisca da comida que está sendo servida sem nem lavar a mão? Pois é. Era assim que eu fazia. 

Minha volta pro Brasil foi sofrida. Não que eu não quisesse voltar, rever minha família, dar andamento na minha vida “de verdade”. É claro que eu queria. Mas eu estava me sentindo aterrorizada com a dúvida: será que algum dia eu vou conseguir rever esta família que se doou tanto pra mim? Era 1996, não havia tanto acesso. Internet? Email? Besteirada inimaginável. Recebi mais de 300 cartas manuscritas durante meu ano de intercâmbio (e respondi todas). Eu tinha medo de perder contato com minha família tailandesa. Temia que a memória – ainda que jovem – me traísse e eu acabasse por deixar o tempo embaçar lembranças tão importantes da minha vida. Tinha medo de que minha família se esquecesse de mim, que eu deixasse de fazer parte dela, que eu me tornasse apenas uma vaga lembrança naqueles corações. E eu chorava, chorava e chorava.

No início conseguimos manter algum contato por telefone. Nunca me senti capaz de escrever uma carta em tailandês. Costumo dizer que sou analfabeta funcional. O tempo foi passando e o contato, escasseando. Fui me agarrando cada vez mais às fotos e ao cordão que minha mãe tailandesa havia me dado. Em mais de dezessete anos, este cordão nunca saiu do meu pescoço, a menos que houvesse risco de eu ficar sem ele.

Até que um dia surgiu o Facebook. Fucei tudo até encontrar minha família. Voltamos a conversar com mais frequência. Aí veio o Whatsapp. Olhem que maravilha!! A tecnologia estava diminuindo a distância entre nós. Quantas e quantas vezes eu não chorei até desidratar ao conversar pelo Face com a minha mãe tailandesa e minhas irmãs? Era terrível ter que ficar me explicando: eu amo vocês, mas minhas condições financeiras são limitadas, preciso estudar, a passagem é muito cara... eu tinha só 20 anos quando eu voltei pra casa, né?

Quantas vezes eu fiquei desempregada neste período? Nem sei, de tantas que foram. Quantas vezes algum coisa deu errado e eu tive que mudar meus planos e adiar mais uma vez minha volta à Tailândia? Perdi a conta. Quantas e quantas vezes deu TUDO errado?! Eu já estava quase entregando os pontos. Aceitando e admitindo para todos a minha incompetência profissional que me gerava tantas outras incompetências. E o choro descia livre. Alguma de vocês já teve a sofrida – e inesquecível - experiência da desesperança? Eu tive. Dói. E é uma dor física. Aí um belo dia eu, durante minhas orações noturnas, implorei por um período de trégua na minha vida. Eu já vinha enfrentando inúmeras dificuldades de forma ininterrupta havia mais de 10 anos. Eu estava com mais de 30 anos e não enxergava luz no fim do túnel. Eu me sentia uma velha frustrada por não estar vivendo.

Parece que funcionou. A trégua veio. De repente as coisas começaram a dar certo. Eu recuperei minha saúde – física e mental. Consegui desacelerar, pensar menos no futuro, viver mais o presente. E, quando me dei conta, estava com passagens compradas pra Tailândia!! Hotéis reservados em Bangkok e em Phuket. Minha família tailandesa me esperando, fazendo planos. E mais uma vez eu me vi assolada pelo medo: depois de mais de 17 anos, como será minha recepção? Será que vou me sentir em casa? Será que vão me receber como uma filha? Será que vai ter tudo mudado? 

O mais engraçado é que o medo não faz parte da minha realidade. Eu não tenho medo de nada. Quer dizer, nas CNTP, meus medos se restringem a baratas e tubarões. Fui educada para não ter medo de correr atrás, de tentar, de arriscar. Confesso que entrei naquele avião tremendo de medo. Um misto de ansiedade e medo. Ainda bem que isto não abalou minha capacidade de dormir. E chegar em Bangkok, sabendo que minha família ia me buscar no aeroporto, foi relativamente rápido. O que são 36 horas em relação a 17 anos, né?

De cara, meu medo foi alimentado. Tornou-se um verdadeiro terror e quase abri a boca a chorar de tristeza nos primeiros minutos após passar pela imigração. Cadê minha família?! Eles não vinham me buscar?! Andei desolada de um lado para o outro, tentando me mostrar forte pro meu marido e amigos, mas morrendo por dentro.

Fui salva pelo meu marido. Tenho certeza que ele viu a tristeza nos meus olhos. Ele me acalmou, disse que ficariam ali enquanto eu dava uma volta pra ver se encontrava minha família. A gente não conhecia o aeroporto, vai que minha família estava por ali? Andei, andei, andei. E na medida em que andava, meus olhos se enchiam de água. Minha visão foi ficando turva, meu coração, apertado. Uma desilusão danada. 

Até que ouvi: LAETICIA, LAETICIA!!! HERE!! HERE!! E lá estava minha família todinha, inclusive os novos membros que eu só conhecia por fotos. Que chororô!! E de repente – momento merchandising – todos os meus temores desapareceram. Fui sendo tomada por um sentimento de pertencimento absolutamente inexplicável. Eu era parte daquela família, daquele lugar, daquela cultura. E eu voltei a ser a pessoa mais alegre do mundo!! E a mais poderosa!! Aquela que é capaz de tudo, de mover mundos e fundos pra ser feliz!! 


Laeticia chegou da realização de um sonho há 17 dias e não vai esperar mais 17 anos para rever sua família tailandesa. Não dá mais.



terça-feira, 10 de julho de 2012

Vida de Patroete ou Eu Achava Que Só Acontecia Comigo

Ultimamente minha maior preocupação tem sido conseguir uma faxineira. Aliás, desde que me casei. Nem precisava ser muito decente, não. Tratando bem da Laila, limpando a casa de forma minimamente razoável, não queimando as roupas e não quebrando a casa inteira já servia. Não fazia questão nenhuma de que a casa ficasse do jeito que mamãe ensinou que deve ficar, já que não sou eu mesma quem arruma, mas presenciei cada coisa nos últimos anos que Deus me livre e guarde!!

Esta foi até antes de eu me casar. Era véspera de Natal e o primeiro que eu passaria com a família do meu então futuro marido no sul de Minas. Com direito a participar do amigo oculto! Tirei uma das crianças e comprei o presente com o maior cuidado. Era um conjuntinho de fazer bichinhos em gesso, com pincéis e tintas coloridas. Brinquedo não imbecilizante, como diria minha mãe. Deixei o presente, lindamente embrulhado, no apartamento do Bola, bem em cima da mesa, pra não correr o risco da gente se esquecer. Criança magoa, né? Cheguei na casa do Bola no dia 23 de dezembro já de mala e cuia pra viajarmos e dei falta do presente. Liguei pro Bola, que ainda não tinha chegado do trabalho. “Bola, onde foi que você guardou o presente do Lucas?” “EEEEEUUU não guardei em lugar nenhum, está em cima da mesa da sala.” “Não tá, não!” “Bom, deveria estar. Liga pra Luciana e vê com ela onde que ela guardou.” Luciana era a faxineira que eu mesma havia arrumado quando o Bola decidiu morar sozinho. Gente de confiança, filha da ajudante que trabalha na casa da minha vó há anos e que continuou lá mesmo depois que minha vó morreu. “Luciana? Oi, Luciana, é a Laeticia, tudo bem? Aqui, conta pra mim onde que você guardou um presente que estava em cima da mesa da sala. Uma caixa grande.” “Ah? Ah? Ah? É... É... É... Ai... Ai... Ai, Laeticia do céu! Ai, meu Deus! Eu achei que era presente de Natal pros meus filhos e até já dei pra eles brincarem...” Pior é que eu ainda teria que ficar com esta infeliz em casa até encontrar outra. Mas antes que isto acontecesse, a Luciana pediu demissão porque o marido não queria mais que ela trabalhasse em casa de família.

Aí a Luciana me indicou – ai que medo que me deu – a Daniela, prima dela. Apesar do medo que me dominava, acabei contratando a menina porque pelo menos tudo indicava que ela não ia “limpar” a minha casa enquanto nós estivéssemos trabalhando. Imaginei que uma evangélica não fosse me dar dor de cabeça. Eis que num belo dia chego em casa algumas horas antes do horário costumeiro. Nem se eu der mil chances pra vocês adivinharem a cena vocês adivinham! Primeiro que o som estava tão alto, mas tão alto, que a Daniela não me ouviu chegando!! Era um funk horroroso, daqueles quase pornográficos. A TV estava ligada, sem som, naquela baixaria de Márcia Goldsmith. A bonitona da minha faxineira estava usando um short gi-ne-co-ló-gico e um top que mal tapava os mamilos. A tábua de passar roupa estava entre minha mesa de jantar e a TV. Em cima da mesa, minha petisqueira cheia do grana padano do Bola, regado pelo azeite italiano do Bola, bebendo a Guiness do Bola!!! A infeliz dançava – se é que aquilo pode ser considerado dança e música -, passava as roupas com a mão direita e comia e bebia com a esquerda!! Encostei na parede e fiquei parada observando aquela cena dantesca, esperando que a rapariga pelo menos olhasse pro lado e nada. “Você está precisando de mais alguma coisa, Daniela?!!” Não preciso dizer que esta saiu do posto de trabalho no mesmo dia, né?

Alguém me indicou a Andréa, faxineira que contratei depois que a Daniela saiu. A Andréa parecia um sonho!! Se a gente ficasse em casa, ela limpava até a gente. Cuidava da casa quase como se fosse dela. Mas falava demais. Ficava comentando na casa da minha amiga o que acontecia na minha casa e vice versa. A gente foi tolerando porque a danada até areava as esquadrias de alumínio das janelas. Até o dia em que peguei a filha de uma marafona de porta aberta conversando ao celular e falando pra amiga “Ah... A Laeticia não merece o marido que tem!! O Alexandre é um maridão!!”. Rua!!! Rua!!! Suma das minhas vistas, olho gordo dos infernos!!

Esta última que eu tive o desprazer de dispensar quase me enlouqueceu. Na mesma semana ela 1) quebrou o pé da cadeira, tentou colar, deixou a cadeira lá montada pra eu chegar morta de cansada e me esborrachar no chão; 2) jogou fora o café gourmet e o biscoito de chocolate francês do Bola e 3) derreteu meu vestido Calvin Klein com o ferro de passar roupa. Tudo isto somado ao tanto de coisa que ela já havia destruído (arrancou o gancho de segurar a porta da parede, sumiu com todos os parafusos que prendiam os ralos no chão dos banheiros, arrebentou todas as minhas persianas, dentre outras coisas) resultou numa demissão quase sumária.

Agora estou com outra. Vamos ver no que vai dar. Fiz um roteiro e vou ficar de plantão em casa sexta-feira pra ensinar o quê e como se faz. Eu devia era cobrar pelo treinamento!! Porque embora eu odeie serviço doméstico, aprendi que até pra “mandar” a gente tem que saber fazer. Só não aprendi a cozinhar mesmo. Mas isto é um capítulo à parte.


Laeticia chegou à conclusão de que, de fato, faxineira boa é espécime em extinção.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Que fazer?

PessoALL,

Não sei se vocês estão acompanhando, mas o Governo Federal reduziu os vencimentos dos médicos federais em 50%. Ou seja, se antes eles trabalhavam 20 horas para receber menos de R$1.500,00, à partir de agora trabalharão 40 horas pelo mesmo salário. Fora outros benefícios cortados e obrigações impostas. Vai chegar o momento em que nosso país não terá saúde pública por falta de médicos, já que ninguém vai querer trabalhar pro Estado. Complicado. Como o Bola é médico, temos muitos amigos médicos e a Raquel, ginecologista e obstetra muito conceituada, que abre espaço na agenda do consultório particular pra atender na rede pública por convicção, escreveu um texto que eu gostaria de tornar público. Segue abaixo. É longo, mas vale a pena.


"Era uma vez uma menina brasileira, nascida em família de classe baixa, que morou por 20 anos na beira de uma rodovia, na entrada de uma favela.
Ela era inteligente e adorava estudar. Sabendo disso, seus pais resolveram investir nos seus estudos. Abriram mão do seu próprio conforto e de suas aspirações para realizar o sonho da filha: ser médica.
Por causa de seu desempenho escolar, ela estudou por onze anos com bolsa num colégio particular. Mas os gastos com transporte e material escolar sacrificaram financeiramente seus pais.
Na escola ela sofreu bullying, por suas roupas simples, porque carregava seu material numa sacola de feira e passava vergonha na casa das colegas por não conhecer TV com controle remoto e outras modernidades da época.
Mas tudo isso valeu a pena, pois ela entrou “de primeira” numa faculdade pública. Durante a graduação, o sacrifício não foi menor: estudando em horário integral, não podia trabalhar para se sustentar e dependia do esforço dos pais, os quais também bancavam os estudos da irmã caçula.
Horas incansáveis de estudo, madrugada adentro, se privando do convívio com a família, para, finalmente, ao final de seis anos, receber seu diploma: médica!
Mais dedicação para o concurso de residência médica e ela inicia sua especialização de três anos. Depois, passa num concurso para trabalhar naquele que foi o hospital universitário federal onde ela teve toda sua formação, desde a graduação até a especialização. O salário era baixo, mas havia quatro grandes pilares de sustentação de um “castelo”: 1) trabalhar para a população carente; 2) ajudar na formação de novos médicos; 3) dedicar à ciência e 4) a estabilidade e os benefícios de um cargo público, coisa tão incomum no meio médico em geral e que lhe traria alguma segurança financeira.
Empolgada, logo entrou para o mestrado. Aí o castelo começou a desmoronar: o governo não dá a mínima pra ciência. Abandonando sua veia de pesquisadora, ela pelo menos se sentiu consolada por ter tido uma grande experiência profissional e por essa qualificação ter melhorado seu vergonhoso salário.
De alguns anos pra cá, outro pilar de sustentação do castelo desabou: enquanto os governantes – verdadeiros responsáveis pelo descaso e caos da saúde pública no Brasil – estão protegidos em seus palácios e gabinetes, os médicos, sobrecarregados e mal remunerados, ficam na linha de frente encarando a insatisfação da população. O que deveria ser apenas uma batalha contra as doenças, virou uma grande guerra: contra as condições precárias das instituições de saúde, equipes médicas desfalcadas, falta de estrutura, de medicamentos e de leitos, ameaças e agressões físicas e verbais.
Na tentativa de superar tais condições, nossa personagem precisa improvisar como o “Mac Gyver” e se munir de “super-poderes” para atender a demanda do serviço e fazer seu trabalho da melhor maneira possível.
A parcialidade da mídia corrobora para que a população se volte contra a classe médica, bombardeando os noticiários com matérias sensacionalistas. A exploração de situações protagonizadas por “laranjas podres do cesto” rotulou toda uma classe, tornando o médico um vilão. Nenhum veículo da mídia retrata o cotidiano do médico do serviço público, que luta arduamente naquela guerra e precisa ter múltiplos empregos para complementar sua renda, para sustentar os seus e fazer jus aos anos de estudo e dedicação. Nessa empreitada, ele se priva dos momentos com família e amigos. Não sabe o que é horário comercial, lazer, final de semana ou feriado.
Mas nossa personagem ainda alimenta sua alma com os pacientes que reconhecem seu trabalho. Ela se sente estimulada com a nobre função de formar médicos e especialistas. Submete-se a tais condições pensando que tem o privilégio de ter um emprego federal, com férias, décimo terceiro, aposentadoria e alguns benefícios (que são ínfimos se comparados àqueles do judiciário, por exemplo).
E então, estranha e inusitadamente, sua governante aparece com uma medida provisória que reduzirá seu salário em 50% e aos poucos extinguirá seus benefícios e plano de carreira. Bum! O castelo desabou! Uma MP tão estrategicamente bolada que a colocaria num beco sem saída. Sua reação inicial foi de indignação e revolta. Depois, começou a racionalizar e imaginar como isso afetaria seu dia-a-dia e seu futuro. Por fim, caiu em profundo desgosto, por perceber sua insignificância aos olhos do governo.
Ela olhou para trás, reviveu cada momento da sua história de esforços e sacrifícios, lembrou da privação de seus pais, pensou em cada centavo investido em sua formação, em cada hora de sono perdida, em cada dia ausente do convívio familiar. E chorou.
Olhou para frente e vislumbrou aquele hospital universitário sofrendo com exoneração em massa; profissionais extremamente capacitados abandonando seus cargos. A população sofrendo sem atendimento de qualidade num serviço terciário. Graduandos de medicina e médicos residentes órfãos de aprendizado. E se entristeceu.
Olhou num contexto mais global, tentando entender as razões de tal medida e se alertou com as mazelas de outros profissionais de saúde, dos professores, dos policias, etc. Imaginou o futuro deste país que não valoriza aqueles que são a base de uma sociedade decente e verdadeiramente rica. E teve medo.
Só não perdeu a esperança porque valoriza o ser humano. Se esse texto te sensibilizou ou te fez pensar, então há esperança. Trata-se de uma história real."

Raquel W. Santos,
Ginecologista e Obstetra

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Tá Louca? Tá bem? Tá feliz?

Sim!!! Tô louca! Tô bem! Tô feliz!!

Meninas, este negócio de ser “chefe” é uma ilusão danada! A gente acha que vai ter autonomia, ganhar bem e ter alguma encheção de saco. Na prática, a gente não tem autonomia NENHUMA, ganha relativamente bem e tem encheção de saco o tempo inteiro! Qualidade de vida ZERO. Não deu pra mim. Este estilo paulista de viver é uma doideira. O povo acha que vc tem que ficar disponível 24h por dia, 7 dias por semana. Chegou a ponto do gerente de SP reclamar comigo que eu não tinha respondido um email que ele havia me enviado às 22h de um domingo!! Disse que precisava de mais agilidade. Sinceramente?! Mineiro não funciona assim. Não é à toa que Belo Horizonte é praça de testes de produtos rsrs Povo chaaaaato!! No Carnaval tive uma crise de choro; voltei a tomar antidepressivo. Até que comecei a ter vontade de quebrar o telefone cada vez que ele tocava. Um dia meu chefe me ligou QUATORZE vezes pra falar a mesma coisa e eu já tinha respondido na primeira que só ia rolar no dia seguinte. Ratifiquei minha conclusão de que dinheiro realmente não compra tudo, liguei pro meu antigo diretor, pedi pra voltar como corretora – não queria nada de coordenação, supervisão, gerência – e ele disse que eu podia voltar na hora. Queria que eu assumisse cargo de gestão, mas não ando querendo. Preciso cuidar da minha saúde, ajudar meu marido a cuidar da dele. Estamos gordos demais. Pedi demissão. Voltei pro emprego antigo, como corretora, mas antes recebi outras duas propostas de trabalho pra gerente e declinei. Fui com meu marido a uma nutri e estamos seguindo o plano alimentar direitinho, nos matriculamos na academia e vamos pelo menos três vezes por semana. Não tenho mais horário pra cumprir. Posso estudar tranqüila sábado sim, sábado não, nos findis só trabalho se tiver cliente agendado e estou viciada em Game Of Thrones rsrs Pra melhorar, uma semana depois que completei 35 anos um carro com quatro carinhas de menos de 30 bateu no carro da frente de tanto que os caras estavam me olhando!! Até conferi pra ver se eu não estava com a roupa suja ou a meia desfiada, mas eles estavam era achando bonito mesmo. Fiquei me achando!! kkkkkk 35 com chassi de 30!! Estou aliviada. Estou feliiiiiz da vida.

Laeticia está louca, está bem e muito feliz!!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Saudades

Até alguns anos atrás, quando alguém me dizia que um sentimento doía, eu ouvia crendo que se tratava de licença poética. Aos menos de trinta, a pessoinha aqui nunca havia passado por grandes desilusões. Perdas então, nunca havia tido. Então era mesmo difícil não ter certeza de que o mundo era um mar de rosas. E sentimento doer só podia mesmo ser poesia.

Aí, numa bela segunda-feira, de ressaca da saideira do Comida di Boteco, o Bola me ligou pra dizer que o Buda estava no hospital e que tinha ligado pra ele pra tentar apressar o exame que ele faria. Não me lembro exatamente quanto tempo depois meu querido amigo estava internado, no CTI, muito mal.

Foram quase 30 dias de muito sofrimento, mas também de esperança de que aquele cara bacana, forte, sairia daquela e que nós ainda tomaríamos muitas cervejas lembrando do episódio e do susto que o Buda nos dera. Mas infelizmente não foi assim que a história terminou. No dia 11 de junho de 2006, acho que era um domingo, acordei com uma ligação. Até aquele dia foi certamente a pior notícia que eu já tinha recebido na vida. O Buda havia entregado os pontos. Passou a régua e pagou a parcial, o filho de uma égua!!! Onde é que já se viu deixar os amigos órfãos assim?!! Mas deixou.

Ontem seria aniversário do Buda. Ele completaria 37 anos. Como será que ele estaria? Será que ele teria se casado? Estaria ainda na Fiat? Já estaria pegando a grana do pessoal pra comprar os ingressos da Saideira? E o Graaaande Reveillon da Montanha? Será que ainda faríamos todo ano?

Sem o Buda a COGREM (Comissão Organizadora do Graaaaaande Reveillon da Montanha) acabou. A gente perdeu a graça. Ir ao campo sem ele também ficou sem graça. Comassim ir ao clássico no Mineirão sem o Buda?!! Confraternização de Natal sem o Buda?!!

Aos poucos, fomos nos recuperando. Tentamos nos manter unidos, mas a verdade é que o Buda era nosso elo mais forte. Acabamos nos dispersando. Alguns se mudaram de Belo Horizonte, foram pra Recife, São José, São Paulo, Brasília, Varginha, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Niterói... Começaram a nascer as crianças que nunca tiveram o Tio Buda. Só a Iara teve esta sorte.

Foi muita ousadia da minha parte pensar que, da turma toda, só eu tinha lembrado do aniversário do Buda ontem. Aí um postou uma foto no face, outro postou mais uma, e outra, e o Breu fez o grupo que a gente ainda não tinha – o Buda jamais deixaria isso acontecer!! Comassim a Galera da Montanha não ter um grupo no face!! – e foi todo mundo postando foto antiga e lembrando maravilhosos momentos. Momentos que não voltarão jamais. Só na memória. E no peito. Que até agora está doendo demais. Agora eu sei que sentimento dói de verdade. Sei também que a vida continua. E continua sendo poesia.


Laeticia está hoje muito mais saudosa e emotiva do que estava ontem. E quer dizer a todos os seus amigos, de ontem e de hoje, que ama todos, do fundo do coração.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sem KY não dá!!

Sou uma leitora voraz. Desde que fui alfabetizada leio tudo que me cai às mãos. E a Playboy não seria uma exceção. Li todas as Playboys dos últimos onze anos, absolutamente todas. Gosto muito, mas nem sempre alguma coisa fica na memória por mais de uma semana. Aconteceu apenas duas vezes: um artigo do Lusa Silvestre entitulado “A Mulher Para o Resto da Vida” e um epíteto que saiu na edição deste mês:  
“O PROBLEMA DA VIDA É QUE ELA NÃO VEM COM KY.”
 
De fato. E que triste. Seria bem mais prazerosa a vida se ela fosse mais fácil. Não que não seja, mas há momentos em que um amortecedor cairia bem.

Os leitores mais frequentes do blog já devem estar acostumados aos meus textos-crise. Bastante comuns, aliás, uma vez que crise é meu sobrenome. Mas minha vida é bastante engraçada, cá entre nós. Vivo rindo, me divertindo, mas nem por isto eu deixo de passar por momentos em que eu merecia um tubo de KY! Aí, colegas, num primeiro momento, não tem como rir, não é mesmo?

Outro dia estava conversando com minha mãe. Ela estava preocupada porque meu irmão passou no vestibular pra um curso de tecnólogo e acho ela estava meio frustrada por ele não estar estudando em uma escola tradicional. Minha idéia era consolar minha mãe, fazer a ficha dela cair porque, afinal, o curso que ele escolheu é uma profissão mais moderna e acaba que as escolas muito tradicionais investem mais em cursos mais reconhecidos.

Mas a conversa foi mudando de rumo e, papo vai, papo vem, ela acabou soltando que eu realmente já tinha dado carada demais pra minha “pouca” idade. Que tinha me desiludido cedo demais com coisas com as quais todo mundo se desilude. Só que aos 45, 55, 70 anos e não aos 25, como aconteceu comigo. Acho que minha mãe se preocupa comigo mais do que eu gostaria de acreditar... Muito constrangedor isto!!

Enfim, continuo dando minhas caradas por aí. É o que acontece quando a gente não tem muito medo de se arriscar. As caradas são consequências das nossas escolhas, sabem, o que não quer dizer que as escolhas foram equivocadas. Entre escolher e colher frutos das escolhas sempre decorre algum tempo e aí, minha amiga, muita água pode rolar por baixo da ponte.

Não tenho medo de viver. Não tenho medo de me arriscar. Já tive menos medo, mas continuo uma pessoa de peito aberto. Bem corajosa para enfrentar desafios e buscar a realização de sonhos. Acho que a gente tem que continuar destemida, sabe. Só que agora, quase completando trinta e cinco anos, andei mudando um pouco de idéia. Continuo me arriscando a dar umas caradas. Mas, sinceramente?! Tô ficando fresquinha rsrs Sem KY não dá!!!


Laeticia está cada vez intrigada com a vida, com suas escolhas, suas razões e suas consequências. Só que agora, prefere isso tudo com amortecedor traseiro!!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Carta Aberta à Andreia


Andreia,

Sei que não é consolo, mas cá estou eu, com quase 35 anos, um curso de Direito e uma especialização em Ciências Penais pela PUC Minas nas costas, fluente em três idiomas, cursando um MBA na FGV e cadê realizações concretas?!! Também me sinto imensamente frustrada, não sou a profissional de sucesso que muitos professores profetizaram, não prestei concurso público como outros professores insistiram, não segui a carreira acadêmica, não fui uma grande advogada, não conheci o mundo todo e todo mundo, me casei, mas não quero ou tenho medo de ter filhos.

Hoje trabalho em uma construtora como supervisora comercial. Há dias em que tenho vontade de me jogar no Ganges!! Como hoje, por exemplo. Mas nem à Índia consegui chegar. Durante os últimos quatro anos trabalhei como corretora. Ganhei dinheiro? Sim, ganhei. E bem mais do que quando advogava. Mas minha vida parece acontecer em círculos. Trabalho, trabalho, mas não consigo “acumular” nada. Não tenho um carro quitado, não tenho um apartamento. E não tenho prespectiva de ter. Até hoje não descobri em quê eu gostaria realmente de trabalhar. Aí vou vagando sem rumo por aí. Não sou preguiçosa, nem tenho vocação pra viver às custas dos outros. Por isso trabalho muito, mas em áreas que não significam muito, ou nada, pra mim. Vejo minha irmã mais nova e muitas vezes me pego pensando onde foi que errei. A menina sabe o que quer desde nova: dizia que queria ser professora. O primeiro emprego de verdade da vida dela é ser professora concursada na UFMG. E eu nem sei o que quero fazer da vida!!! Fico me sentindo uma verdadeira fraude. Não serei hipócrita com você: sei que sou muito inteligente e mais capaz do que a maioria das pessoas. Mas isto até hoje não me garantiu um lugar ao sol, a despeito dos meus mais verdadeiros esforços. Chega a ponto da minha mãe que tem pavor de gente vagabunda me dizer que preciso parar de trabalhar um pouco. Acho que fico me escondendo no trabalho, mesmo que eu não me satisfaça com ele. Aí, quando fico meio à toa, como tenho ficado desde setembro, não há como me esconder das minhas frustrações. Ultimamente tenho me sentido um lixo. Esta é a realidade.

Verdade que tive uma sorte na vida: eu encontrei um grande companheiro. Impressionante como pode um cara apoiar tanto uma pessoa tão instável e passional como eu. E tenho me sentido mais instável a cada dia que passa. De tanto quebrar a cara, acabei perdendo um pouco da minha auto confiança. Engordei pra burro (só 15 quilos) e estou pastando, quase que literalmente, pra tentar voltar ao normal.

Mas quando paro pra pensar friamente, evento raro na minha vida, vejo que sou muito feliz!! Sim!! Pode parecer incrível, mas sou feliz. A felicidade não é uma constante, sabe. Quero dizer, pra ser feliz a gente não tem que ser a melhor profissional, ter o melhor carro, apartamento, ser independente financeiramente, estar acompanhanda, ter filhos, cachorro e se sentir num comercial de margarina, tudo ao mesmo tempo e agora. Porque tudo ao mesmo tempo e agora nem o Jim Morrison deu conta! E não há nenhum motivo pra eu acreditar que eu sou mais intensa do que ele. Não quero morrer jovem. Quero viver muito! Então acho que preciso viver um pouco menos acelerada, quase em slow motion mesmo. Mas também não quero ser igual àquela coitada da propaganda da Renault que tudo que ela queria, não conseguia, mas tinha sempre uma alternativa piorzinha “que tudo bem”. Cá entre nós, tudo bem o caralho!! Minha vida não é o comercial da Pepsi!! Mas já sei que eu não vou conseguir ter tudo, ser tudo, viver tudo. Porém, tenho muito: muito amor, amizade, ombro amigo, companheirismo, compreensão, alegria, risadas, gargalhadas indecentes, quase pornográficas. Sou muito: passional, alegre, feliz, emputecida com muita coisa, revoltada com outras, e eternamente insatisfeita. Vivo muito, mas cada vez mais um dia de cada vez. E então tudo bem de verdade.

A vida é feita de escolhas e acabo de me dar conta de que vivo a vida que escolhi. Se eu não tivesse me casado, certamente teria me jogado no mundo, viajaria mais, viveria em outros países, conheceria outras culturas, continuaria magra e linda. E viveria pensando no amor que teria deixado pra trás, nos cachorros que não teria tido, na pouca importância que a magreza e a beleza física têm no frigir dos ovos. É, amiga, a vida não é mole não... A gente não pode se dar ao luxo de viver pensando “what if”, senão a gente endoida. Seja você mesma, viva cada momento devagarzinho, saboreie, não tenha medo de errar. Não deixe nada mais para depois. Aos quase 35, o depois me parece muito assustador. Enfim, viva, porque no final das contas, somos o resultado das nossas experiências e seremos muito amadas assim, do nosso jeito.
 
Laeticia é solidária à Andreia e entende perfeitamente o que ela está sentindo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Gente pegajosa

Tá bem. Eu assumo. Sou chata. Não gosto de gente me pegando, querendo me abraçar, me beijar, relar a mão em mim a nenhum titulo. É claro que as pessoas queridas não se encontram na categoria “gente”, mas sim na categoria “pessoas queridas”. Mas este círculo é muito, muito restrito.

Meu marido tem um conhecido que não podia me ver que vinha querendo dar abraço e beijo. E eram aqueles abraços loooongos, apertaaaados, aqueles beijos compriiiiiidos!! Affe, nunca vi querer forçar tanto uma intimidade inexistente. Eu evitava, mas não era sempre que dava certo. Aí eu me sentia super desconfortável e enrijecia o corpo pra ver se o cara desconfiava, se a ficha dele caía. Coincidentemente, ele só vinha com estes abraços e beijos pegajosos longe do meu marido, então namorado. Um dia achei que a ficha dele ia cair, porque ele me soltou – sim, soltou, porque eu me sentia presa – e falou algo do tipo “o Bola é ciumento, né, ele não gosta que a gente te abrace”. Foi a deixa que eu precisava! “Na realidade quem não gosta mesmo sou eu, sabe, fulano; acho insuportável este tipo de gente que fica pondo a mão na gente sem propósito.” Tóim! Nunca mais aconteceu.

Outra coisa que acho simplesmente insuportável é gente que mal me conhece me chamando de Lê ou outro diminutivo do meu nome. Vejam bem, meus amigos costumam me chamar de Leleca. Minha família me chama de Lê. Penso que as pessoas do meu convívio não pessoal por quem tenho simpatia podem me chamar de Laeticia. E aquelas com quem convivo por obrigação, preferencialmente, devem me chamar de Maria Laeticia. À exceção, of course, de nossa colega balzaca Sílvia, que, por um mistério do universo, vira e mexe me chama de Maria Laeticia. E a Angel, que me chama simplesmente Maria. São aquelas exceções que a gente ama de verdade.

Dia destes fui à casa de uma parenta de quem gosto muito e cujo marido é extremamente simpático. Chegamos lá e havia mais convidados para o churrasco. E minha prima me chamando Lê pra cá, Lê pra lá e de repente ouço uma voz diferente, estranha aos meus ouvidos me chamando de Lê. Quase tive uma síncope. Aí a menina ficava o tempo todo me chamando de Lê. Meu desconforto era evidente, mas a “gente” não se fez de rogada e continuou. Até que meus nervos deram sinal de colapso e convidei o Bola gentilmente a ir embora dali. Evidentemente marido já havia percebido meu desconforto.

E não é que hoje um cliente veio cheio de mãos, braços e bocas quando gentilmente eu ajudei um corretor no atendimento?!! Não, meninas, eu não estou me achando. Mas sempre há quem prefira picanha a filé mignon, não é mesmo? Complicado. Ainda mas no ambiente de trabalho. E o cara veio todo, todo me tascar um beijo quando eu, prontamente, estiquei meu braço, bati no ombro dele e soltei “muito prazer em recebê-lo em nosso lounge, SENHOR fulano. O corretor tal está à sua disposição sempre que o SENHOR precisar”. O cara ficou sem graça e saiu acompanhado pelo corretor. Espero não ter matado a venda dele. Mas agüentar cliente tentando encostar em mim não está no meu contrato.

Mania feia que esta gente tem que querer contato físico toda hora, com todo mundo! De querer ser íntimo logo de cara!! Tudo bem, calor humano é muito bom, mas calor humano de quem conhecemos, neam?!! Ou então, já que é pra ficar tudo encostado, que seja no Mineirão torcendo pelo Galo, no carnaval de rua ou numa liquidação maravilhosa!! Fora destas situações, bebê, não gosto mesmo de gente relando a mão em mim!!


Laeticia é chata.










sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Laeticia no País das Maravilhas. Ou em Macondo.


“- Sonhando?
- Se esse mundo fosse só meu, tudo nele era diferente. Nada era o que é porque tudo era o que não é. E também tudo que é, por sua vez, não seria. E o que não fosse, seria. Não é?
- Sinceramente, seria bom se as coisas fizessem sentido só para variar.” (*)

Chove muito, muito mesmo em Macondo. E já se vão mais de cem anos, assim me diz meu avô. Mas não é que meu avô já não me diz coisas como antes? Talvez seja porque meu avô também já se foi e eu nem havia me dado conta até outro dia mesmo, enquanto olhava a chuva pela janela.

Chove muito, muito mesmo em Macondo. E já se vão quase dez anos que seu avô se foi, assim me diz a saudade. Mas não é que a saudade já não me diz coisas como antes? Talvez seja porque eu também já não seja como antes e disto eu só estou me dando conta agora, ouvindo o barulho da chuva que ainda cai lá fora.

Chove muito, muito mesmo em Macondo. E já se vão quase quinze anos que você se foi, assim me diz meu coração. Mas não é que meu coração já não me diz coisas como antes? Ou será que ele já não me diz coisas como antes porque eu mesma já não sou como antes? Ou será que, sim, talvez meu coração ainda me diga coisas como antes, mas eu é que não consiga mais ouvi-lo com a mesma clareza? E disto talvez eu já tenha me dado conta um dia, mas talvez tenha me esquecido também.

Chove muito, muito mesmo em Macondo. E ainda não se passou tempo algum desde que eu comecei a observar a chuva e a ouvir seu barulho da janela. Isso é o que você pensa, assim me diz uma voz. Mas não é que esta voz que tem me acompanhado desde sempre também já não me diz coisas como antes? Ou será que a voz já não me diz coisas como antes porque eu lhe dei as costas, fingi que não a ouvia? De quem será esta voz?

Chove muito, muito mesmo em Macondo. Olhando a chuva forte e ouvindo seu barulho da minha janela, sinto falta da presença do meu avô, da saudade do que passou, da força do meu coração e da voz que por tanto tempo ignorei. Sinto falta da minha própria presença, do que vivi, do que senti, do que eu ouvi, do que fui e ainda não voltei.

Chove muito, muito mesmo em Macondo. Olhando a chuva forte e ouvindo seu barulho da minha janela, dei-me conta de que ainda há tempo. Dei-me conta de que ainda há muito a ser vivido. Dei-me conta de que meu avô nunca deixou de estar presente e que minha voz só se manteve calada por um tempo porque eu havia ido embora; dei-me conta de que não me abandonou.
Chove muito, muito mesmo em Macondo. Olhando a chuva pela janela, dei-me conta de que a saudade do que se foi faz parte. Dei-me conta de que olhar pela janela e observar a chuva, ouvir seu barulho, faz parte. E dei-me conta de que sair da janela e ir me molhar na chuva também faz parte.

Chove muito, muito mesmo em Macondo. Hoje não estou mais na janela. Já não observo a chuva, tampouco ouço seu barulho de longe. Estou na rua. Estou sob a chuva, bem perto. Sinto a chuva, converso com ela. Dei-me conta de que a chuva, de perto, não me parece mais tão forte, nem tão barulhenta. Dei-me conta de que se a chuva não passar, é possível passar por ela.

Até que enfim você se deu conta, me dizem meu avô, meu coração e minha voz. Estou voltando.

Laeticia ainda há de dar-se conta de muito mais coisas.

(*)Lewis Caroll, Alice no país das maravilhas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Who Wants to Live Forever

De novo, Meleka foi internada... Desta vez com um tumor na cara. Do tamanho de uma jobuticaba grande. Tava feio, viu? Mas como ela não reclamava de dor, fui deixando. Afinal, operar uma cachorra de 14 anos é a mesma coisa que operar uma pessoa de 98!! Ninguém merece.

Mas o tumor começou a crescer muito e a sangrar. Ela nem ligava, mas tava feio. Corremos com ela pro veterinário, ele deu uns antibióticos para desinflamar o negócio e pediu pra retornar em dois dias pra tirar a “jabuticaba”.

Fiquei relutante, pensei em colocar a Meleka pra dormir. Porque se a biópsia der que é benigno, ótimo. Se der que é maligno, eu teria que submeter a pobrezinha a uma quimioterapia!! Imaginem!! Aí tava quase convencida a fazer curativo e largar pra lá quando o Bola me alertou pra uma coisa: se der metástase e não tratar, a coitadinha vai morrer, não de câncer, mas COM câncer e pior, toda ferida.

Aí seria muita judiação!! Acabei levando a Meleka pra tirar o tumor. Ficou internada de um dia pro outro, foi rápido. Aproveitei e mandei limpar os dentes dela. Afinal, quem não quer ficar com a boca limpinha, né? Tá lá em casa com a cara costurada. Uns cinco centímetros de pontos. E continua pulando igual cabrito!!

Segunda-feira sai o resultado da biópsia. Vamos ver o que dá. Se der metástase ou tumor maligno, aí, mesmo ela estando “espertinha”, vou colocar a Meleka pra dormir. Não tenho coragem de fazer com ela o que eu não gostaria que fizessem comigo.

Depois entro debaixo do edredon e choro até desidratar...



Laeticia está apavorada com a possibilidade de ter que sacrificar a Meleka.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Síndrome do Pequeno Poder

Então! Não é que depois de tanta ralação me surgiu uma oportunidade bacana de trabalho? Mas você não estava feliz no antigo trabalho, menina? Eu tava. Quer dizer, eu confesso que estava começando a me enjoar. Sabe quando bate aquele sentimento de que “aqui já aprendi tudo que tinha pra aprender”? Foi isto. Como diz meu marido, eu sou agitada demais! Vai dando um tempo de rotina e eu começo a pirar. Preciso de novidade, preciso aprender coisas diferentes. E meu antigo emprego, que eu tanto gostava, estava mesmo me cansando. A oportunidade surgiu no melhor momento: eu já começando a dar sinais de evidente cansaço, mas antes de minha produtividade começar a cair. Era a hora de dizer hello e goodbye. Mais uma vez.

Aproveitei a oportunidade e mudei de emprego. Estou aqui há apenas dois meses e vejo que tenho muito o quê aprender. O trabalho é gostoso, me deixa ansiosa, e é diferente. Portanto, me exige mais. Ainda fico muito insegura de saber até onde posso ir. Tem gente que acha que eu virei chefe. Mas não é bem assim. Continuo tendo que me equilibrar na corda bamba. Vai gostar de viver assim, perigosamente!! É, eu gosto mesmo!!

Mas o fato é que tenho uma grande responsabilidade nas mãos. Tenho que produzir através de outras pessoas agora. Antes eu dependia basicamente de mim mesma. Muitas vezes minha antiga gerente só ficava sabendo da minha venda quando eu avisava que o contrato já estava assinado. Agora é diferente. Primeiro porque ainda não conheço as pessoas – a parte difícil. Segundo, porque elas também não me conhecem – a parte ainda mais difícil! Pra me ajudar, vim de uma empresa concorrente daquela onde trabalham as pessoas de cujo resultado eu dependo para bater minhas próprias metas. E a disputa é acirrada. Tipo Fla x Flu, Grenal, Galo x Cruzeiro, só pra dimensionar. Então, contra mim o fato de que, quando a equipe de vendas me olha, vê o concorrente!!! Uma delícia, né, gente? Porém, a meu favor, minha disponibilidade pra cooperar com todos. Acho que estou indo por um bom caminho. Pelo menos com o corpo de venda!!

Infelizmente parece-me que a diretoria da equipe de vendas ainda me olha e vê o concorrente... Por algumas vezes já tive a impressão de que tentavam abertamente boicotar meu trabalho. Tive que interromper uma apresentação para todos os gerentes, pedir a palavra e dizer a todos que tinha sim trabalhado na empresa x, que tinha aprendido muito lá, tinha muito orgulho de ter trabalhado lá, mas que a empresa x fazia parte do passado e que eu estava ali para trabalhar junto com todos, com o mesmo objetivo. Com os gerentes, creio, já deu uma aliviada. Mas com a diretoria tá mais complicado. A equipe de vendas é uma empresa tecnicamente nova, porém, experiente. Mas O CARA não tá lá mais. Não para todos poderem ver. Então o resultado da equipe anda muito insipiente. Não sei se por algum tipo de receio, ou porque querem fazer uma espécie de “surpresa”, tenho tido dificuldades até pra conseguir informações sobre o processo de pré-vendas. Complicado. Tenho rezado muito pedindo a Deus pra eles calarem a minha boca com um excelente resultado!! É o que têm me prometido o corpo de vendas.

Porém, a diretoria – aliás, parte dela - me parece dominada por um sentimento que sabiamente uma amiga denomina de “a síndrome do pequeno poder”. A pessoa exercia uma função idêntica à minha antiga função. Ou seja, era trabalhador braçal que valia caquinha igual eu mesma. Aí a empresa muda de dono e de nome, muda o nome do cargo do fulano e ele começa a chutar a canela de quem passa! A pessoa quer é mandar e ser obedecida, sem um pingo sequer de razoabilidade. Eu mando, você obedece!! Trash é que eu realmente não estou acostumada a lidar com gente assim. Acho que vaidade só não é mais feio que inveja. No final das contas, vai todo mundo pro buraco mesmo, né?

E eu ainda tenho pra mim que, bem lá no fundinho, a pessoa que sobe na gilete e começa a achar que pode deve ter a auto-estima no chão!! Neste caso particular, eu até entendo a pessoa se sentir um cocô porque, vem cá, baixinha, gordinha, ficando careca, feinha, aculturada e longe de ser rica, o quê nos resta para apreciar?!!

Well, fato é que, uma vez chutada minha canela, a reação foi, confesso, meio desproporcional: voadora na jugular!! Nunca vi poste mijar em cachorro!! E não sou eu que vou dar uma de cachorro mijado nesta altura da vida!!


Laeticia ficou muito reflexiva depois da voadora na jugular, pensando se não estará também sendo acometida pela síndrome do pequeno poder.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A magia da infância

Ser criança nos anos oitenta era não se preocupar com o politicamente correto. Comer pastelina, bala xaxá e beber coca-cola no recreio, nada light ou diet. Acordar com o “Quem Quer Pão” da Xuxa. Sonhar com os poderes de GreySkull ou com a visão além do alcance do Olho de Thundera. Imaginar qual o gosto do Suco de Frutas Gummi. Tentar criar uma cidade Playmobil. Colecionar papel de carta e ter álbum de figurinhas, além de uma agenda-diário, toda colorida, registrando cada sonho daquela época. (Andreia)

Ser criança nos anos oitenta era engasgar até quase morrer com a bala soft colorida que grudava na garganta e depois ver a cara de pavor de nossas mães estapeando nossas costas ou nos virando de cabeça para baixo para ver se a bala saia... Ser criança nos anos oitenta era pedir um sorvete e ganhar da mãe aquele sorvete seco com anezinho em cima... Era brincar de pirocóptero, era chupar, feliz da vida, um saquinho de mumu de sobremesa, era comer Lolo e se lambuzar inteira (Lolo que, muito fresco, acabou se tornando Milkbar... Affff!)...era tomar suco de groselha, chupar pirulito em formato de chupeta e morrer de vontade de beber o líquido que vinha dentro das mini garrafinhs de coca-cola e que todas as mães diziam ser veneno. Ser criança nos anos oitenta era escrever, mesmo que com a mão doendo, com aquelas canetas enormes de 12 cores... era usar aqueles batons verdes comprados em camelô e que deixavam a boca borrada com um vermelhão horrível! Ser criança nos anos oitenta também significava correr descalça pela rua, brincar de forte-apache, jogar bolinha de gude com os meninos e andar de carrinho de lomba, mesmo que isso significasse levar uma bronca por chegar em casa completamente esfolada, suja e arranhada (mas absurdamente feliz!)... (Déia)

Ser criança nos anos oitenta era ser totalmente politicamente incorreta... pois era uma época em que preto era preto, índio era índio, veado era veado, magrelo era magrelo e gordo era gordo!! (Laetícia)

Ser criança nos anos oitenta era usar roupa furta-cor, cabelo com gel de purpurina "L'Oréal", polainas e All-Star juntos. Comer Mirabel assistindo Armação Ilimitada e TV Pirata. Ahhh era lindo!(Sílvia)


Nós, mulheres de 30, neste Dia das Crianças, dedicam esse post coletivo a todas as pessoas que acalentam com carinho suas memórias infantis...


sexta-feira, 6 de maio de 2011

Rumo à Civilidade

"Uma sociedade decente é uma sociedade que não humilha seus integrantes. O tribunal lhes restitui o respeito que merecem, reconhece seus direitos, restaura sua dignidade, afirma sua identidade e restaura sua liberdade." (Min. Ellen Gracie)

Enfim, podemos dizer que vivemos em um país que pretende um dia tornar-se decente. Infelizmente, acredito que falta muito ainda para que o país atinja o que minha mãe me ensinou ser decência, mas demos um precioso passo neste sentido. Hoje, o Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, reconheceu a união homoafetiva como uma entidade familiar, apta a receber proteção estatal, estendendo todos os direitos civis relativos à união estável às uniões homossexuais.

Na prática, significa que, agora sim, as pessoas serão todas tratadas com mais igualdade, já que, independentemente de sua orientação sexual, comprovada a união estável, prevalece o direito à herança, pensões alimentícia ou por morte, de ser dependente em planos de saúde e previdenciários. Mais: os cartórios de registro civil devem proceder ao registro de contratos de união estável homoafetiva sob pena de serem acionados judicialmente. A polêmica acerca da realização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e adoção, todavia não foi dirimida, embora tudo nos leve a crer que futuramente estas questões também serão superadas. Mas já é alguma coisa.

A decisão do STF reflete uma mudança da sociedade. E as mudanças sociais, os fatos, o Direito jamais conseguirá acompanhar. Principalmente quando se tem entre os membros do Legislativo os Bolsonaros da vida. Foi preciso que o órgão judicial máximo se manifestasse acerca da constitucionalidade de um direito fundamental do cidadão ante a omissão do Poder Legislativo.

De uma forma ou de outra, fato é que a sociedade disse NÃO ao preconceito. E quero crer que este será sempre o posicionamento de uma sociedade tão plural como a nossa. Ainda somos poucos os que não só respeitam, como também defendem abertamente os direitos iguais a todos, independentemente de orientação sexual, credo, cor, raça, gênero ou opinião. Contudo, o cenário está mudando. O futuro guarda uma sociedade mais compreensiva, mais humana. E no que depender de mim, a briga por direitos iguais continuará sempre, pois o futuro tem que começar é agora!


Laeticia está muito orgulhosa de poder dizer que vive num país (quase) civilizado.

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