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sexta-feira, 5 de março de 2021

Conto do futuro

 O ano é 2034, estamos em janeiro e faz 45°C (o aquecimento global tem causado grandes estragos no mundo).

Sento-me com minha sobrinha, que está prestes a completar 15 primaveras e resolvo falar sobre como era o mundo no ano em que ela nasceu: 2019.

Nostalgicamente, digo a ela que íamos à lugares sem máscara e que havia festas, naquela época. 

Ela pede, com a mesma carinha que fazia na infância, "mostra uma foto, dinda"? e eu mostro as muitas fotos que mandei revelar em 2021, um ano depois da pandemia ter começado. Ela olha todas elas e vejo seus lindos olhos verdes brilharem.

Então ela se atém a uma foto específica:

"Você está tão linda nesta, dinda. Parece tão feliz". É, eu costumava ser bem feliz. Ia aos lugares que queria, saía para ouvir música e tomar um chopp, organizava as festas da família, incluindo as da minha filha, é claro. 

Teodora está no 1° ano de faculdade. A escolha do curso foi óbvia: escolheu o que é possível fazer, embora na infância sonhasse em ser atleta. Ficou complicado no mundo das máscaras e ela acabou desistindo. Teve sua vida escolar reduzida ao mundo online, as sucessivas pandemias desde o coronavírus impediram que pudesse viver a escola como no meu tempo: espaço e presença físicos. 

Que saudades da escola! Nos aglomerávamos nos corredores, esperando os professores chegarem. Mais tarde, quando fui professora, meus alunos faziam o mesmo. Mas isso foi antes de 2020. Parece que foi em outra vida.

Acordo subitamente, corpo encharcado de suor. Demoro um pouco para me situar. Ainda estou em 2021, em meio a uma pandemia. Faço uma prece e agradeço a Deus: a possibilidade de repetir que "vai passar" não nos foi tirada.


Andri escreve às sextas-feiras e acordou, no meio desta semana, após ter um sonho onde essa história acontecia. Dedica para Mariah (sua sobrinha) e Teodora, sua filha, que vão poder viver todas as coisas que ela mesma viveu na sua infância e juventude, porque as palavras têm poder: "Vai passar".


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

SOBRE O DIA EM QUE O ESTADO INTEIRO ENTROU EM BANDEIRA PRETA

 

Sentou na única poltrona da casa em que não costumava sentar. Pensou que, mudando de perspectiva, poderia mudar também tudo o que não estava bom na sua vida.

Dias antes, havia se dado conta de que logo vai completar um ano de home office. O que até pouco tempo atrás não estava mais incomodando, começou a gritar dentro dela.

Por um longo tempo, foi bom curtir o lar, mas agora, parece que o ar está ficando escasso e não há outro modo de recuperar o fôlego, senão saindo para o mundo lá fora. Só que esta possibilidade não se aplica no momento. Lá fora, bandeira preta em todo o Estado. A pandemia voltou a ganhar força.

Pouco mais de um mês atrás iniciaram as vacinas no Rio Grande do Sul e a esperança tomou conta de boa parte das pessoas, incluindo ela.

“Onde foi que nós erramos”?- indaga a si mesma enquanto lembra que colocou algo no forno e esqueceu de monitorar o tempo. Nos seus devaneios já começa a filosofar sobre o tempo, o que ele realmente significa, senão uma medida socialmente convencionada a fim de nos manter ocupados.

Sente falta dos dias cheios, em que chegava em casa exausta e se atirava no sofá, antes de dar conta de todas as tarefas que ainda a aguardavam em casa. Sente falta da sensação de “normalidade” de uma vida pautada pelo livre arbítrio. Entende a circunstância da pandemia, compreende a necessidade de “ficar em casa”, mas não consegue deixar de pensar que, em algum momento, as pessoas seguiram com suas vidas, adaptando-se à nova rotina.

No seu íntimo, a única pergunta que persiste é “até quando”?

 

Andri pretende voltar a escrever nas sextas-feiras, porque o caos que habita seu íntimo precisa sair de dentro dela.

 

 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Sobre 2016

Escutamos das pessoas que 2016 foi um ano pesado. E como concordo com essa ideia.
2016 foi o ano em que a música perdeu seu ídolo David Bowie, em que o esporte perdeu o lendário lutador Muhammad Ali e a nossa queridíssima Chapecoense, em que terremotos e furacões ceifaram vidas na Itália, no Equador, no Haiti. Com tristeza vimos notícias de atentados na Costa do Marfim, na Bélgica, no Paquistão, na Turquia, no Iraque, no Afeganistão.

Derramamos muitas lágrimas pela Síria, acompanhando nos noticiários o drama de Aleppo.
Em 2016 vimos amigos e conhecidos perderem o emprego, empresas fecharem suas portas definitivamente por falta de recursos. Vimos amigos perderem parentes, vimos a nós mesmos perdermos a esperança (como se fôssemos espectadores de nossa própria vida, olhando-nos de fora, perplexos).

2016 foi o ano da dor. Da incredulidade. De descobrir dentro de nós forças que não sabíamos possuir, para só então, em meio a esse caos, continuar.
Cuba “perdeu” Fidel. Os Estados Unidos “ganharam” o Trump. Uma questão de ponto de vista? Talvez.

A primeira mulher a ser eleita presidente do Brasil foi também a segunda pessoa a sofrer um impeachment neste solo. Por algum  tempo pairou no ar a expectativa de que as coisas iriam ficar bem. Não ficaram. O Brasil “ganhou” o Temer. O Temer não ganhou o Brasil.

O Rio Grande do Sul acompanha atônito as manobras de seu governo em uma tentativa de sair da crise. Nada parece dar certo. Os servidores públicos (me incluo nessa categoria) tiveram o ano mais complicado dos últimos tempos. Salários parcelados e aquela novela que todos já conhecem. Os noticiários divulgaram fortemente. De nada adiantou. Terminamos o ano recebendo uma parcela (a 1º de 12) do nosso 13º salário.

Mas sabem, andei pensando. O que nós não podemos é perder a esperança de dias melhores e temos aí uma virada de ano que irá acontecer. Aquele momento mágico em que a gente olha para o céu iluminado pelos fogos de artifício e sente dentro de nós que tudo vai ficar bem. Depositamos todas as nossas fichas no ano que se inicia e não poderia ser diferente. Precisamos acreditar que dias melhores virão. É o que desejo para mim, é o que desejo para você. Às 23:59h do dia 31/12/2016 eu olharei para o alto e direi: “Já vai tarde, 2016. Seja bem-vindo 2017. Por favor, mais do que não nos decepcionar, nos surpreenda.”

Andri escreve às sextas-feiras e está feliz que 2016 está chegando ao fim. Parece ter durado uma década, ao invés de um ano.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

De repente

De repente você olha pela janela e vê que não é mais inverno, raios de sol brilham lá fora e aquecem a sua alma.
De repente você vê que aquilo que parecia querer te devorar outrora, hoje já não tem mais valor. O monstro que crescera tomando as rédeas de sua vida e provocando tanta dor, calou-se, encolheu-se.
É assim mesmo a dor. Ela desatina, embaraça os pensamentos, faz os nossos dias parecerem intransponíveis, o ar fica escasso, levantar da cama de manhã parece o fardo mais difícil que se pode carregar. Mas quando você vai ver, ela já foi embora e o que sobra é apenas o aprendizado que aquele duro sentimento trouxe consigo.
E viver não é mesmo isso? Esse aprendizado à duras penas? Penso que sim. 
É pouco provável que você tenha aprendido a andar de bicicleta sem antes ralar os joelhos ou tenha aprendido como criar um filho sem chorar de desespero no começo. Aprender requer tempo e sabedoria. Sabedoria para aceitar que não controlamos tudo, que não nascemos sabendo. O ser humano é assim mesmo. Quer ter o controle de sua vida o tempo todo, mas a melhor sensação é se deixar levar e ser surpreendido. 
Quem sabe ali, em uma dessas esquinas da vida você não topa com uma surpresa que pode trazer um novo colorido aos seus dias? 
De repente.. Assim sem querer... 

Andri escreve às sextas-feiras e adora os "de repentes" da vida

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Das dores da gente

E mais um inverno chegou. Juntamente com sua chegada caíram as folhas e fez-se necessário a renovação. Está frio. Chove tanto que parece que nunca mais vai parar, o corpo fica ansiando por um raio de sol, por algo que possa aquecê-lo e lembrá-lo de que, apesar de agora parecer uma lembrança distante, sim, há calor, há amor, há aquele tipo de energia que provoca arrepio e aquece mais do que o corpo, aquece a alma da gente.

Olhando pela minha janela, para essa chuva que insiste em cair, pensei nas tempestades. Mas não desse tipo que destrói telhados de casas e arrasta o que vê pelo caminho. Falo das tempestades que nos destroem momentaneamente, corroem nossas certezas, arrancam o nosso telhado, aquele alicerce que construímos à duras penas, que levamos anos para colocá-lo no hall das coisas seguras de nossas vidas. De repente aquilo que parecia seguro, forte, firme feito rocha, se mostra frágil, pequeno, desgastado. Se, como na história dos três porquinhos, alguém viesse e soprasse essa sua "fortaleza", ela cairia.

Mas então, ela não caiu. Em alguns dias parece que tudo vai desabar, que o mundo inteiro está pesando sob suas costas, e ai, como dói. Dói lembrar, dói pensar, dói imaginar. Dói saber que a sua certeza mais profunda, não era uma certeza. Dói saber que apesar de toda a sua integridade e lealdade, você vai ser ferido. Dói saber que hoje você sente essa dor e amanhã poderá fazer com que alguém sinta. Não é porque hoje dói em você, desse jeito, agudo e intenso (mas que no fundo você sabe que será passageiro), que você pode esquecer que outras pessoas no mundo sentem, sentiram ou sentirão dores mais intensas que a sua. "Cada um sabe a dor e a delícia de ser quem é".

Quando tudo parecia perdido e irrecuperável, a centelha de luz que mora dentro de cada um de nós, acendeu. "Hey, olha eu aqui", ela parecia dizer. Seria simples ignorá-la, não dar crédito a ela, mandar que ela ficasse quietinha no seu canto, afinal, há quanto tempo você não a via mesmo? Mas nós, seres humanos, temos dessas coisas. Nós somos imprevisíveis e apesar de todos os nossos "achismos", às vezes saímos do roteiro que estabelecemos para nossas vidas. Às vezes, sabiamente, esquecemos da plateia que nos assiste, torce (para o bem e para o mal), palpita (idem), e resolvemos viver. Nessa hora o único palpite que importa é aquele que nos manda o nosso coração. E esse sim, mesmo doendo e sangrando, é sábio e sabe exatamente o que é capaz de suportar. 

Andri escreve às sextas-feiras e está vendo aos poucos a dor virar um ponto negro diluído em um imenso mar de memórias, como dizia Caio Fernando Abreu, o cara que traduz seus sentimentos

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O poder que damos aos outros

Como sou professora de Filosofia e Sociologia, invariavelmente em minhas aulas o assunto recai sobre uma temática muito interessante: o poder. Identificamos na sociedade tipos diferentes de poder, aquele que é exercido pela figura de algum governante, aquele que a mãe e o pai exercem sobre seus filhos, entre amigos e por aí vai. Mas o que vem tirando meu sono é o poder que nós mesmos damos uns aos outros.  

Explico: Eu sou daquelas que se incomoda e tem vontade de meter a boca no trombone. A indignada, como belamente me escreveu uma professora de história do ensino médio na ocasião em que eu o concluía (aliás, ela hoje é minha colega de trabalho, uma dessas coisas bacanas mesmo que a vida faz com a gente). Sendo eu a indignada, é fácil notar que não consigo passar imune às situações. Quando vejo um colega ou aluno puxando o saco, me indigno. Quando vejo que as pessoas não conseguem enxergar o óbvio, me indigno. Existe uma série de indignações positivas e necessárias, de cunho social, diria eu. É ótimo se indignar quando você vê alguma injustiça acontecendo, quando alguém comete alguma maldade perto de você, quando alguém rouba, maltrata, mata. Mas pra quê (se você souber, me explica) se indignar com coisas sobre as quais você não tem o menor poder de fazer mudar?

Ando pensando no tanto de energia que a gente gasta tentando mudar o que não precisa ser mudado. O comportamento de cada um é um problema deles enquanto não fizer mal aos outros. Deixe os puxa-sacos fazendo aquilo que melhor sabem fazer, deixe os disponíveis fazendo coisas que não lhes cabe se isso lhes fizer felizes, deixe, deixe ir, deixe-se.

Enquanto as pessoas estão vivendo suas vidas do modo que lhes convém, faça você algo de diferente. Mude sua rotina. Mude seu modo de pensar. Mude seu modo de tratar aos outros. Mude a imagem que você tem de você mesmo, mas não tente mudar aquilo que você não controla. Guarde essa energia para gastar com beijos intermináveis, faça uma corrida, tome um café com chantilly com uma amiga, aproveite o frio e fique debaixo das cobertas olhando um monte de filmes. Mas deixe os outros serem os outros, com suas qualidades e defeitos e, principalmente, não dê a eles o poder de lhe tirar do sério.



Andri, a indignada, andou sumida, mas tem como meta retomar suas escritas, sempre às sextas-feiras.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Manias

Ela tinha a estranha mania de sempre escovar os dentes com a mão esquerda, embora fosse destra. Dizia que isso exercitava a sua coordenação. Ele tinha a mania de largar a toalha de banho em lugares improváveis e que a irritavam, tais como a guarda da cadeira da cozinha. Ela estendia as roupas no varal de acordo com a cor, formando um lindo degradê de cores. Ele implicava com essa mania. Dizia que ela era metódica demais.

Ele colocava o copo sem apoio na mesa de centro da sala. Ela o xingava.  A mesa já estava cheia de marcas. Ele dizia que ela não era simpática com seus amigos. Que estava sempre de mau humor. Ela se defendia dizendo que ele é que ria demais, ria de tudo, um riso incontido. Parecia que estava sempre querendo agradar a todo mundo. Mas ela não. Ah! Ela não nascera para agradar. Ela era para poucos. E só queria ao seu lado gente interessante. Ele não suportava esse seu discurso. A chamava de boçal.

Um dia a ficha caiu. Os dois eram muito diferentes. Cada um seguiu seu rumo.

Hoje ela lembra com saudade da toalha verde jogada pelos cantos. Olha melancólica as marcas de copo na mesa de centro. Sente saudades do riso frouxo. Do furinho no queixo dele. Do cheiro dele. Até daquele perfume que ela odiava.

Longe dali, ele lembra daquela mulher acordando com olheiras que ficavam lindas no rosto dela, segurando sem um pingo de coordenação a escova de dentes com a mão trocada. Pensa no varal. Esteticamente lindo. Perfeitamente estendido. Nem a sua mãe sabe estender tão bem as suas roupas. Sente saudades de tudo nela. Porque ela sim é que tinha personalidade. Compreendia que não precisamos agradar a todos, pelo menos não o tempo inteiro. Ela não sorria o tempo todo, mas quando o fazia ele sentia seu coração derreter devagarinho.

Cada um em um canto diferente desse vasto mundo, olhando para a mesma lua. Finalmente compreendendo que tudo aquilo que parecia defeito, era apenas individualidade.

A ficha caiu de novo. Eles foram feitos um para o outro.  Eram uma dupla perfeita.

Se alguém deu o primeiro passo? Se um deles discou o número do outro e deu o braço a torcer? Se pegaram um avião e encurtaram a distância de milhas que os separavam?

Talvez.

Andri escreve às sextas-feiras e até pensou em um final para esta história, mas prefere que cada um de vocês escreva seu próprio final. Se é que vocês me entendem ;)


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Quem sabe ainda sou uma garotinha

A gente nasce, rala o joelho, leva cinco pontos na sobrancelha, quebra o braço, cresce, tem o coração partido, cola todos os caquinhos, se refaz, põe o vestido mais bonito, ensaia o melhor sorriso e vai à luta.

A gente quebra a cara, mas não desiste. Se a gente aprende com tudo isso? Até aprende sim. Mas o ato de aprender não anula a sua vontade de tentar de novo e de novo e de novo. Quantas vezes forem necessárias. Quantas vezes você achar que aguenta. E a verdade é que você aguentaria muito mais do que acredita ser capaz.

Dentro de toda mulher reside uma força inigualável. Quantas vezes você sacudiu o pó e fingiu estar bem, mesmo chorando por dentro? Quantas vezes você escreveu uma mensagem e apagou ou escreveu em um papel e rasgou em seguida, na esperança de que isso matasse sua vontade desesperada de procurar a pessoa?

Quantas vezes você engoliu o choro, o ciúme, a raiva? Quantas vezes você respondeu um “Oi, tudo bem?” com “Oi. Tudo bem.” Quando você queria responder: “Oi. Não to nada bem não. Estaria bem se você estivesse aqui comigo ou quem sabe então nós dois em Fernando de Noronha. Não precisa ser Paris não. Ali em Floripa já estaria bom. Na verdade só a parte do você aqui comigo já estaria mais do que bom”. Mas você só respondeu: “Oi. Tudo bem. E tu?”.

E isso não é ser forte querida? Claro que é. E é só uma pequena amostra da sua força. Somos metamorfose ambulante, como sugere aquela canção que você já ouviu mil vezes na vida. Fazemos coisas que até Deus duvida (a rima nem foi intencional). Nos depilamos, ficamos cinco horas sentadas na cadeira do salão de beleza retocando as mechas, tratamos o canal do dente sem anestesia, temos cólica, sofremos as dores do parto.

Somos fortes. Que ninguém duvide disso.

Mas às vezes somos só garotinhas que apesar de terem crescido, só precisam de colo e carinho.


Andri escreve às sextas-feiras e acordou hoje meio “sei lá”.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Para Teodora

E então você chegou. Em uma despretensiosa manhã de segunda-feira. Era fevereiro, as “pessoas comuns” viviam a expectativa do carnaval que se aproximava, mas nesse momento eu não me encaixava no conceito de “pessoa comum”. Eu estava me tornando uma pessoa especial. Eu estava, definitivamente, me tornando mãe.

Em poucos minutos os nove meses que esperei para conhecer o seu rosto passaram como um filme na minha cabeça. Lembrei-me do dia da descoberta de que estava grávida. Era junho. O Brasil jogava pela copa do mundo, mas nada mais me importava. O mundo continuava girando, mas o meu mundo de repente parou. O sonho viraria realidade. “Vou ser mãe” era a mensagem que meu cérebro repetia sem parar.

Daquele 17 de junho até o dia 9 de fevereiro muita coisa aconteceu. Muita coisa mudou. E você cresceu dentro de mim. Fez minha barriga ficar imensa, presságio do que aconteceria com o meu coração depois de sua chegada.

Não sei dizer se passou rápido demais ou demorou uma eternidade para o dia do seu nascimento chegar. Fato é que ele chegou e agora eu estava deitada naquela maca te esperando. Ouvi seu choro. Olhei nos seus olhos. Minha esperança na vida renasceu. Passei a achar tudo lindo. Nenhum esforço é grande demais. Nenhuma distância é longa demais. Por você, TUDO. Se eu pudesse voltar mil vezes a esse mundo, te escolheria em todas elas para ser minha, embora eu saiba que foi você quem me escolheu para ser sua mãe e agradeço todos os dias por isso.



Andri escreve às sextas-feiras e andou ausente todo esse tempo porque estava ocupada demais babando sua filha, a Teodora, hoje com 2 meses e 22 dias.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Quando nosso corpo vira morada de alguém

Durante nove meses (meu Deus! Como passou rápido!), meu corpo serviu como a “casinha” de um ser que está quase chegando. Dentro desta casinha ela cresceu, ganhou peso, todos os seus órgãos foram se desenvolvendo no ritmo ditado pela sabedoria da natureza. Neste mesmo processo, eu também ganhei peso e novas marcas pelo meu corpo. É disto que quero falar.

Toda mulher, em maior ou menor grau, tem sua vaidade. A maioria de nós passa a vida lutando contra a balança, fazendo dieta da lua, da sopa, dos pontos e, faríamos até mesmo dieta da pedra, caso nos dissessem que esta funciona! O processo de aceitação do seu novo corpo é lento e gradual. Você sabe que isto tudo está acontecendo por um bem maior (e se não soubesse, todos os dias alguém te lembraria disso!). Ainda assim, o espelho em alguns dias costuma ser mais cruel do que nos outros.

Você acorda de manhã e se olha no espelho. UFA! Ainda nenhuma estria. Se enche de cremes, óleos, pomadas e tudo aquilo que te disseram que vai evitá-las. Você que antes tinha preguiça até de passar protetor solar, veja só, está se cuidando como ninguém. Repete este ritual de se besuntar toda de cremes e óleos várias vezes por dia.

Mas em uma destas manhãs você acorda, se olha no espelho... e SURPRESA! Estrias.

Bah! Sensação de fracasso: Por que comigo, meu Deus? Eu me cuidei tanto. Sensação de futilidade: Tanta coisa mais importante pra me preocupar e vou dar bola pra umas estrias? Tentativa de consolo: Estou gerando uma vida dentro de mim, tudo isso vale à pena. Crise de drama: Eu nunca mais vou usar um biquíni na minha vida. Medo: Meu marido vai me achar horrorosa.
Todas essas sensações vem juntas, não nos enganemos mulheres. Ao conversar com uma amiga, lhe disse: “Como poderei ser uma boa mãe se estou arrasada por estar com estrias?”. Ela carinhosa e sabiamente me disse: “Tu vai ser uma ótima e linda mãe. Eu também enchi de estrias. Dá vontade de se jogar da ponte, mas não adianta”.
É! Dá vontade de se jogar da ponte sim. Até que tu lembra que em diversos lugares do mundo, pessoas sofrem com problemas reais. Crianças não tem o que comer, são espancadas por aqueles que deveriam lhes dar amor. Idosos são tratados como lixo pelos seus entes queridos. Pessoas tem seus corações e esperanças partidos ao meio. E tu se sente ainda pior. “Eu não poderia estar sofrendo por causa de estrias, sou uma fútil”.
Queridas mulheres! Queridas mães! SIM. Nós temos o direito de sofrer um pouquinho por isso sim. A culpa só faz tudo parecer pior. Não seremos péssimas mães porque derramamos lágrimas quando as estrias apareceram. Somos apenas mulheres, frágeis e ao mesmo tempo fortes, sufocadas por uma sociedade que nos cobra perfeição. Não somos perfeitas e no fundo nem queremos ser. Mas gastamos horas na academia, mesmo que odiemos fazer isso. Torcemos o nariz para um bolo de chocolate, mesmo querendo devorá-lo. Usamos maquiagem, mesmo achando que não é necessário. Compramos roupas que não refletem nossa verdadeira essência, mas nos fazem parecer sexys. Pintamos as unhas, nos depilamos, passamos fome, tudo por uma ditadura de beleza. Vaidade é uma coisa maravilhosa. Desconfio de qualquer ser humano que não a tenha, inclusive dos homens. Mas acho que o preço que estamos pagando está saindo caro demais.

Sonho com o dia em que aquilo que você É, vai valer mais do que aquilo que você APARENTA ser. O dia em que não te julgarão pela roupa que estás usando. Que alguém olhará nos fundos dos teus olhos sem rímel e dirá: “Vejo tua alma através dos teus olhos. És linda!”. O dia em que você não precisará sair na rua preocupada com o que os outros vão pensar a teu respeito. O dia em que você será apenas... VOCÊ MESMA. Uma linda mulher, independente de tua forma física.

Andri escreve às sextas-feiras e está a 17 dias de conhecer a pessoa mais importante de sua vida, a Téo. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O lado bom de errar

Intuição de mãe não falha. Falha. Sou a prova disto. Desde que descobri minha gravidez tinha uma certa intuição a respeito do sexo do meu bebê. Não falei pra muitas pessoas, mas algumas pessoas sabem disto. E ontem fiz uma ecografia e (finalmente! Como demora pra chegar este dia) descobrimos o sexo da nossa joia preciosa! É uma MENINAAAAAAAA!!

Meu amor, saiba que a mamãe errou sim! A vida toda desejei ter uma menina pra encher de lacinhos, maquiar, fazer trança, colocar roupas frufruzentas. Mas quando me descobri grávida, talvez pra não criar nenhum tipo de expectativa, imaginei: é um menino. E sabe o que de bom aconteceu com tudo isso? Aprendi, silenciosamente, a ser mãe de menino. Imaginei mil vezes os diálogos que teria com ele, nossos jogos de futebol e lutinhas no tapete da sala. Imaginei como seriam nossas conversas sobre o amor, sobre a vida, sobre integridade, sobre respeitar as mulheres e não tratá-las como objetos. Decidi que iria aprender (na marra!) a gostar de azul e que montar um quarto de menino poderia ser tão encantador quanto montar um de menina.

Todo mundo sempre me disse “tu tem cara de mãe de menina”. É, eu tenho sim! Mas o dia em que Deus resolver me presentear com um menininho lindo, terei aprendido como ser mãe dele, e terei aprendido com você filha! Tu nem veio ao mundo ainda e já me ensinou uma grande lição, e eu só posso te amar a cada dia mais e mais.

Aprendi a ser mãe de menino. Já nasci sabendo ser mãe de menina. Imagino agora como será a nossa relação, minha princesa. Unhas pintadas, maquiagem, meus sapatos desfilando em pezinhos minúsculos, meus colares num pescocinho infantil, pulseiras espalhadas pela casa. Conversas sobre coisinhas de mulheres, dieta, primeiro amor. Nós duas falando mal dos homens (tá, a gente tem que se divertir também né?). Filmes de comédia romântica, contando juntas as calorias de um saco de pipocas. Sei que nossa vida cor de rosa não será sempre um mar de rosas, mas ela será doce e teremos muita paciência uma com a outra. Quero que você possa se espelhar em mim, confiar em mim em todos os dias da sua vida. Que sinta vontade de me contar teus segredos, que queira me ouvir. Que nossos olhos brilhem ao olharmos uma para a outra.

Eu te amo filha! Obrigada por me mostrar que “errar” pode ser, às vezes, tão doce!


Andri escreve às sextas-feiras e não poderia estar mais feliz do que está agora.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Colorir a alma da gente

Festival Internacional de Folclore acontecendo aqui na minha cidade, Nova Petrópolis. Oportunidade única para conhecer outras culturas, gente diferente e ao mesmo tempo essencialmente igual a nós. Estava há pouco sentadinha ao sol do começo da tarde, curtindo o horário de folga e assistindo algumas apresentações. Todas lindas e contagiantes, mas eis que surge no palco o Grupo Compagnie de Danse Pom’kanel de Martinique. Martinica é uma ilha que fica na América Central e foi colonizada pelos franceses. Isso foi o que aprendi sobre este lugar. Mas existem aquelas informações que os livros didáticos não trazem e que somente nossos olhos são capazes de nos mostrar com perfeição.

Quando eles sobem no palco, a energia se espalha em poucos segundos. Você tem vontade de dançar junto, é impossível ficar parado. Suas roupas coloridas, suas peles negras, são um espetáculo à parte. Dançam o tempo todo sorrindo, transmitem nos olhos o que sentem e o que sentem é inexplicável através de palavras. Desejo que como eu, as pessoas que moram ou estão de passagem por nossa cidade tenham se permitido o prazer de deleitar seus olhos por meia hora que seja, com tamanho espetáculo.

A apresentação por si só, já teria me bastado para muitas horas de alegria ao relembrá-la. Mas como sou daquelas pessoas que gosta de tirar sempre uma lição de tudo o que acontece, cá estou eu, refletindo para saber o que, além do prazer gratuito que a arte proporciona, esta apresentação de dança pode me ensinar.

Aprendi com este povo tão simpático que levar a vida sorrindo realmente é o melhor remédio. Que devemos nos permitir conhecer nosso corpo e usufruir dele da melhor forma, pois é um instrumento de comunicação, ele realmente fala, mesmo quando nos mantemos calados. Aprendi que ser cordial é uma virtude. Que as cores transmitem energia. E, principalmente, aprendi que não importa se falamos o mesmo idioma, a linguagem da música e do sorriso é universal.


Eu, que andava tendo uns dias meio down, estou decidida a sair na rua e puxar papo com um estranho, quem sabe a pessoa maravilhosa que posso acabar conhecendo? Esqueçam vocês também aquele papo de mãe “não vá falar com estranhos”, e falem. Falem com todos que cruzarem seus caminhos, permitam-se! A felicidade não vem para quem fica em casa se lamentando. Ela está na rua, nos lugares e situações mais inesperadas.

Andri escreve às sextas-feiras, vai ali bater um papo cabeça com o primeiro estranho que aparecer e já volta

Créditos da Imagem: Mauro Stoffel

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Carta para Julieta

Hoje escrevo para lhe contar um pouco do que aconteceu nestes mais de 25 anos desde que você se foi. Eu era tão pequenina e sequer lembro de você, mas posso imaginar todas as coisas que nós teríamos feito juntas. Nos finais de semana eu iria para a sua casa e você faria "nega maluca" pra mim, depois me deixaria dormir no seu colo enquanto cantava uma canção de ninar.

Quando eu tinha seis anos entrei para a escola. Você teria gostado de me ver andando cheia de pose com aquela mochila de bichinho cor de rosa. Você teria rido muito quando um ano depois eu guardei os toquinhos do cabelo do menino que eu gostava, que a mãe cortou no salão, em uma gaveta. Teria ficado orgulhosa quando eu disse: A vida tem certos rumos que nem um poeta descobre! Teria ficado preocupada quando eu sumi e só voltei tarde da noite aos nove anos, mas teria também me defendido e dito pra pai e pra mãe não me castigarem, já que a culpa não era minha.

Vó! Sei que você teria ficado com o coração na mão, quando aos doze anos, saímos de Santiago e viemos morar em Nova Petrópolis. Teria passado meses esperando que nossas férias chegassem para que fôssemos te visitar e os dias que passaríamos contigo seriam uma grande farra.
Sei que ficaria feliz e ao mesmo tempo preocupada quando eu apareci com o primeiro namorado em casa. Estaria na plateia sorrindo na minha formatura do ensino médio, vibraria junto comigo quando entrei para a faculdade, acompanharia minha angústia ao escrever o TCC, estaria orgulhosíssima da profissão que eu escolhi. 

Posso te imaginar chorando baixinho no dia da minha formatura da faculdade e depois me abraçando orgulhosa, dizendo que me ama.  E agora vó, com a notícia de um bisneto ou bisneta que vem por aí, qual não seria a sua alegria? Tenho certeza de que já estaria fazendo sapatinhos de tricô e olhando pra minha mãe com a certeza da ótima avó que ela vai ser. 
Você não esteve presente nestes dias todos que falei aqui, mas sei que de onde estiver, vibrou comigo, chorou comigo, partilhou de minhas alegrias e tristezas, e, mais do que isso, sei que você me protegeu e olhou por mim todos os dias da minha vida.


Andri escreve às sextas-feiras e dedica este texto para a sua avó Julieta, a estrela mais brilhante deste imenso céu.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Sobre as palavras

As palavras tem um imenso poder. Quando ditas com sutileza, são como um carinho na nossa alma. Quando ríspidas, nos ferem feito objeto cortante.

Existem aquelas palavras que sempre sonhamos ouvir de alguém especial, estas flutuam ao redor de nossos ouvidos.

Uma palavra que diz sim ao invés de não, tende a fazer de nós alegres seres.

Ouvir "EU QUERO" ao invés de "NÃO VAI DAR", é felicidade que não se pode conter.

Existem palavras que nos entristecem, que nos deixam pensativos, que nos roubam sorrisos, que nos fazem pensar.

Eu hoje quero propor um brinde àquelas pessoas que nos dizem as palavras certas, sejam elas elogios ou críticas. Um brinde às pessoas que sempre usam de elegância para nos dizer o que precisamos ouvir, e não apenas o que queremos ouvir.

Àquelas pessoas que não gritam, que não escandalizam, que são sutis feito brisa, embora às vezes seja bom ser um vendaval. 

Quem tem pessoas assim ao seu redor, tem um tesouro valioso.

Esta semana escutei palavras tão amorosas de gente que quero bem e até mesmo de pessoas com quem sequer tenho grandes vínculos e isso me fez refletir também sobre meu modo de tratar os outros. Aquela máxima popular que prega que "devemos tratar os outros do modo como queremos ser tratados" está certíssima. Tem muita gente que joga pedras esperando receber de volta flores. 

A vida sempre se encarrega de nos mostrar em que estamos errando e em que estamos acertando. Fato inegável. Que possamos rever nossas atitudes a cada novo dia que nos for oportunizado viver. 

Que a colheita de vocês seja doce, como tem sido a minha.


Andri escreve às sextas-feiras e retribui através destas simples palavras todo o carinho que vem recebendo das pessoas que a cercam.



sexta-feira, 27 de junho de 2014

Quando nasce uma mãe

Algumas ideias são alimentadas dentro da gente desde sempre, seja pelas pessoas que nos cercam, seja por imposição da sociedade, seja por vontade própria. Algumas ideias não são meramente ideias, são sonhos.
Costuma-se dizer que toda mulher sonha em ser mãe. Discordo, pois tenho amigas que não querem ter filhos. Mas para aquelas mulheres que como eu, sonham em ser mães, o dia da grande notícia é muito esperado. Até que esse dia chegue, muitas perguntas passam pela nossa cabeça: “Será que poderei ter filhos?”, “Serei uma boa mãe?”, “Quanto minha vida mudará depois disso?”.

Um dia nosso reloginho biológico nos da um OK e compreendemos que é chegada a hora. Para algumas leva muito tempo, para outras é rapidinho. Acompanhei de perto a angústia de amigas que demoraram mais de um ano para conseguir engravidar. Ouvi histórias de pessoas que no primeiro mês em que decidiram tentar, já conseguiram.

E aí vem a notícia: “POSITIVO”. Positivo, meu Deus! Eu vou ser mãe. Você vai ser pai, meu amor. Vô, vó, tio, tia, primo. Todo mundo muito feliz, alegria que não cabe dentro da gente, queremos falar pra todo mundo, pode? Melhor esperar uns dias, ir ao médico, ver se está tudo bem. No processo desses dias que se passam, nasce uma mãe.

Quando nasce uma mãe, nascem as descobertas. Claro, toda aquela parte que todo mundo está careca de saber, enjoos, tonturas, sono, fome. Sim, isso é tudo verdade. Mas é muito além disso. E essa é a parte difícil de explicar, mas é também a parte que não precisa explicar. Quem já sentiu isso, sabe. Quem nunca sentiu, se permita um dia saber. É maravilhoso. Seu corpo muda dia após dia. Sua cabeça parece amanhecer diferente a cada dia.

Quando nasce uma mãe, nascem os sonhos. Você imagina um mundo maravilhoso pro seu filho ou filha que vem aí. Você ouve as pessoas dizerem desacreditadas “loucura colocar filho no mundo do jeito que ele está” e em seu íntimo pensa “loucura é não colocar gente boa nesse mundo”. E aí você pensa em toda responsabilidade que gerar uma vida traz. E entende desde o começo que fará o melhor, mas que ainda assim, sentir medo faz parte.

Quando nasce uma mãe, nascem as esperas. Você quer logo ouvir o coraçãozinho do bebê bater, mas alguém te diz que isso só é possível depois de algumas semanas. E os dias demoram a passar, na verdade eles se arrastam. Você quer fazer todos os exames para saber que está tudo bem, mas calma mulher, tudo tem o seu tempo. O tempo continua sendo seu amigo, não pense o contrário. É você que está ansiosa, o tempo continua andando no mesmo ritmo de sempre. O mundo não parou, vamos lá, vence esse sono todo e vai à luta.

Quando nasce uma mãe, renasce a esperança no mundo. Você sabe que ele está esculhambado, que a política está cada vez mais complicada, que a saúde pública anda mal, que as drogas estão aí. Você sabe que tem violência, que a educação precisa melhorar, que o Brasil tá “mal das pernas”. Você sabe de tudo isso. O que os outros talvez não entendam é que você tem sonhos dentro de si, e que não deixará de realizá-los, mesmo que os zumbis saiam da tela da televisão e habitem a vida real. Vampiros, duendes, fadas, elfos. Você continuaria não se importando. Porque você vai ensinar pro seu filho o que é caráter. Vai ensiná-lo que a palavra de um homem vale muito mais do que qualquer dinheiro ou bem material. Vai ensiná-lo a ser amável, cordial, educado, caloroso. Vai mostrar pra ele que a simplicidade ainda é a coisa mais sofisticada desse mundo. Vai fazê-lo entender que deve tratar a todos de forma igual, que cor ou raça nada significam. Que o amor é a coisa mais linda desse mundo.

Quando nasce uma mãe, nasce um olhar afetivo sobre o mundo e sobre as coisas e nada pode ser mais bonito do que isso.


Andri escreve às sextas-feiras e está vendo nascer uma mãe, ela própria. Divide essa alegria com vocês, porque alegria partilhada é alegria em dobro.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Noites que brilham

Dia dos namorados. Uma parcela da população feliz, outra se lamentando. Alguns dividindo nas redes sociais as delícias de se ter um(a) namorado(a), outros reclamando que sua timeline virou um muro de melações ou lamentações e que o dia tá um saco. Em meio a tudo isso, eu, feliz e apaixonada, vivendo o meu segundo dia dos namorados com o homem da minha vida (óóówwwnn, que amor!).

Conheci meu namorado na praia, lugar meio improvável de nos apaixonarmos, já que dois solteiros, em pleno carnaval, querem mesmo é fazer festa. Mas aconteceu. Eu me apaixonei, depois ele. Ou teria sido o contrário? Bem, isso agora pouco importa. Importa mesmo é que em algum momento os dois passaram a olhar um pro outro na mesma sintonia. Importa que um passou a ser importante pro outro, a ponto de ambos desejarem permanecer assim, lado a lado, por muito tempo.

Ontem, dia dos namorados, é um desses dias em que se convencionou que é bonito demonstrar o amor. Então não importa quantos anos a gente tenha, nesse dia escrevemos poesias, mandamos flores, revelamos fotos, fazemos vídeos, recortamos corações de papel. Todos nós, seres que amam e que acham isso um barato, vivemos intensamente esse dia, alheios àqueles que reclamam que esta é apenas uma data comercial e blá blá blá. Vemos nesse dia, 12 de junho, mais uma oportunidade de demonstrar o nosso amor.

Assim como muitos, saí pra jantar com meu amor. Jantarzinho à luz de velas, com meus pais junto. Quando ele disse que tinha convidado meus pais pra ir junto, eu não estranhei, até pensei: "Que fofo", já que moramos todos basicamente juntos (uns em cima e outros embaixo, na Big House). Quando ele pediu pra mulher que estava cantando no restaurante se ele podia cantar duas músicas, ainda assim não estranhei, já que sendo ele um músico, não pode ver um microfone que tem que ir dar uma palhinha. Quando ele disse que cantaria duas músicas em homenagem a sua amada (eu, risos), achei bonito. Aí cantou a primeira música dizendo que esta lembrava o começo do nosso namoro (dia dos namorados gente, por que eu iria estranhar? As pessoas ficam românticas nesse dia, risos). Mas aí veio a segunda música e ela dizia: "Quer casar comigo? Ser mais que bons amigos, que nem o céu e o mar. Quer ser pra sempre minha?".

E aí que o ar do restaurante de repente se tornou escasso. E aí que alguma coisa não explicável através de ciência alguma, fez a terra girar descompassada. E quando eu vi ele estava em minha frente de joelhos, repetindo aquelas palavras: "Quer casar comigo?". Eu disse sim, uma vez em voz alta, mil outras vezes dentro de mim. Sim, eu te direi todos os dias. Sim, mesmo quando estivermos vivendo momentos difíceis. Sim, na alegria e na tristeza, desse jeitinho bem clichê, que os apaixonados entendem como ninguém.

E viva o amor e sua não-necessidade de ser explicado ou sequer compreendido. E viva as noites, que em meio a um amontoado de noites iguais, brilham de modo especial.

Andri, a noiva do Jeferson, escreve às sextas feiras e dedica esse post ao seu amado e a todos aqueles que amam e demonstram isso sem medo de ser piegas.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Lembranças

Nossa mente é povoada por diversas lembranças. Que maravilhoso é poder lembrar de coisas que nos fizeram bem. Aquele cheiro que te faz viajar para o passado e em segundos voltar à infância. Um gosto que te lembra de uma comida que você nunca mais comeu. Um perfume que te faz pensar em alguém. Uma música que te lembra de bons momentos vividos. Um lugar em que você foi feliz. Como para tudo o que existe, existe também o seu contrário, algumas lembranças são indesejadas. Um cheiro que você quer esquecer. Um dia do qual você não quer lembrar. Um abraço que já não te envolve mais e a simples lembrança te faz sentir dor. Aquelas lembranças, que te prendem e te arrastam para o passado do qual você não quer lembrar, onde é mesmo que se deleta?

Cada ser humano sabe qual é o seu limite. Insistir quando se sabe que não há mais o que ser resgatado daquilo que se viveu, para que mesmo que serve? Ah, ok. Você fez algo de muito errado em outra encarnação e está usando esta vida para se punir? (Ironia, baby).

Algumas pessoas gostam mesmo de se lançar ao desconhecido, pular sem paraquedas, sem verificar de antemão qual é o tamanho do abismo. Mas e quando você sabe exatamente o que te espera logo ali depois da curva e ainda assim, persiste?

O mistério fascina, envolve, seduz. Aquilo que é previsível não é assim tão encantador. Mas por vezes a previsibilidade de algumas coisas é que mantém nossos pés no chão. Voar é bom, desde que em alguns momentos tenhamos onde pousar.

Que me domine o marasmo de alguns dias iguais. Que eu seja capaz de reinventar meu próprio mundo todos os dias, sem precisar para isso retroceder a um campo onde sei que não serão flores que irei encontrar. Que eu possa ainda assim, me ferir com alguns espinhos para me lembrar do quanto gosto de rosas.



Andri escreve às sextas-feiras e procura incessantemente pelo botão “delete” de seu coração.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Proposta de Adesão


Venho por meio deste, propor que sejamos felizes. De que modo?

Sendo claros, sendo diretos, sendo honestos. Principalmente conosco.

Não gosta de algo? Não coma, não ouça, não beba, não leia, não assista este algo. Diga que não gosta. Seja gentil, mas deixe claro que não gosta.

Está a fim? Demonstre. Fale. Escandalize. É cansativo para as pessoas tentarem ler sinais o tempo todo. Dizer é tão fácil, é tão óbvio. Me pergunto o que foi que se perdeu ao longo dos tempos para as pessoas terem se fechado de tal forma em suas redomas. E sei a resposta.

Temos medo de tudo. Medo da rejeição, medo do ridículo, da não aceitação. Então por que não temos medo de sermos infelizes? O resultado provável de viver se escondendo de si mesmo é a infelicidade.

Não precisamos e não devemos passar por cima de ninguém para lutar por nossos sonhos. Não é essa a ideia. Não é felicidade própria a qualquer custo. Mas a felicidade contagia. Quando eu estou feliz, quando eu estou leve, contagio pessoas ao meu redor. É aquela velha história do grãozinho de areia no deserto que esquenta o grãozinho ao seu redor, que esquenta o próximo e por aí vai. Parece que no mundo de hoje as pessoas perderam a capacidade de ser simples, de pensar poeticamente. É tudo tão corrompido, é todo mundo tão corrompível. Mas e daí? Vou me trancar em casa e não falar com mais ninguém por medo de que sejam falsos comigo?

Aaaaah vida! Eu quero você. Quero você em dia de sol, porque aqueles raios no meu rosto são um momento de felicidade. Quero você em dia de chuva, pra ver o milagre da terra ressuscitando. Quero vento batendo no rosto, fazendo aquele barulhinho gostoso que parece assobio de moleque. Quero conversar com a pessoa que puxa papo comigo na fila do banco, sem medo. Que mal as pessoas podem nos fazer? O que de tão irreparável pode nos acontecer?

Irreparável talvez seja daqui a 40 anos, olhar para trás e lamentar as oportunidades perdidas. Lamentar e não poder voltar no tempo. Lamentar e sofrer o lado feio da melancolia. O de não ter feito. Sentir saudade de algo que foi bom, embora possa doer, é bonito. É lembrança grudada no pensamento. É lembrança que tem cheiro, que tem gosto, que tem cor. Mas lembrar da chance perdida é lembrança que dói. E só. E doer por doer é vazio.

Hoje acordei decidida a ser ridiculamente feliz. E pagar o preço dessa escolha.

Andri escreve às sextas-feiras e agradece pelos chutes que a vida lhe dá. Cada vez que se levanta, lembra que viver é lindo e que dias ruins existem para que possamos reconhecer quando nos depararmos com um dia maravilhoso

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O lado de dentro

Século XXI. Tecnologia e informação acessíveis a quase todos os cantos do mundo. Aparentemente trata-se de um período de evolução e vira e mexe ouvimos alguém falar sobre como o mundo avançou nas últimas décadas. OK, o mundo avançou em muitos aspectos, mas as pessoas ficaram meio cegas para as coisas que realmente importam.

Tanto faz se o moletom que eu uso é da GAP, se o meu tênis é Nike, se o meu celular é um Iphone. Importa muito que eu tenha o que vestir e calçar. Importa que eu me lembre de ajudar àqueles que não têm.

Tanto faz se eu sou popular, se minhas postagens do facebook tem muitas curtidas, se tenho muitos seguidores no Twitter. Importa mesmo é que eu olhe nos olhos das pessoas, não minta, não jogue com os sentimentos alheios.

Tanto faz se peso 50 ou 100 quilos. Tanto faz se tenho dente torto, uso aparelho ou tenho um sorriso de propaganda de pasta de dente. Importa mesmo é que eu sorria, que eu faça as pessoas que me cercam felizes.

Tanto faz se uso óculos, sou estrábico ou tenho olhos verdes. Importa que as pessoas vejam verdade em meu olhar. 

Tanto faz se sou o melhor aluno da turma ou se sofro para tirar boas notas. Importa que eu me esforce e sempre dê o melhor de mim.

Tanto faz se sou rotulado pela sociedade como o “skatista”, a “piriguete”, o “nerd” ou tantos outros rótulos. Importa que eu me sinta bem, que sinta orgulho de mim mesmo e que busque compreender quem eu sou e o que me faz feliz.

Tanto faz se tenho 5, 10, 40 anos. Mereço o mesmo respeito que qualquer ser humano merece.

Tanto faz se você tem uma vida corrida ou lhe sobra tempo. Importa como você organiza seu tempo. Importa que encontre tempo para quem lhe importa.

Tanto faz se você é tímido ou extrovertido. Importa que você seja educado e cordial. Que peça licença, diga “por favor”, agradeça.

Essencialmente importa estender o olhar, olhar para o outro, ver além de seu físico, ver além do óbvio, querer ver. Importa querer ajudar, querer compreender. Importa importar-se.

Em um mundo de tantas aparências, felizes são aqueles que conseguem ver o lado de dentro das pessoas. 




Andri escreve às sextas-feiras e gosta de olhar nos olhos das pessoas, elogiar e demonstrar afeto.



sexta-feira, 9 de maio de 2014

Brincadeira de amor não tem graça

Já li mil vezes a frase: "Antes de ferir um coração, lembre-se: você pode estar dentro dele", mas nunca refleti verdadeiramente sobre isso. Hoje o fiz e a conclusão a que chego é que grande parte das pessoas não merece o amor que desperta nos outros. Somos um bando de egoístas, preocupados em alimentar nosso próprio ego. Fingimos sensibilidade e altruísmo quando nos convém, e da mesma forma, descartamos as pessoas quando não sabemos mais o que fazer com elas. 

O amor é um sentimento grandioso, capaz de transformar a vida de uma pessoa, mas olho ao meu redor e vejo pessoas brincando de amar, brincando com os sentimentos umas das outras e isso me faz pensar. E não estou falando apenas do amor Eros, mas também do amor Filia, ou seja, aquele amor que os gregos distinguiam como sendo o amor da amizade, um amor que não escraviza e não exige exclusividade. Por qual razão brincamos com os sentimentos uns dos outros? As pessoas desconhecem o real sentido das coisas, vivemos uma intensa inversão de valores. Você já deve ter escutado que “as pessoas estão amando as coisas e usando as pessoas” né? Não consigo encontrar uma autoria confiável para esta frase, mas parabéns para quem a pensou, pois é isso que está acontecendo. 

É bem verdade que precisamos abrir uma “brecha” em nosso ser pra que qualquer coisa nos atinja, seja para o bem ou para o mal. E é bem verdade também, que o ser humano está carente de qualquer tipo de contato que ultrapasse este mundo virtual e por isso tem se jogado de cabeça em relações destrutivas, mesmo que consiga antever que irá se machucar. Na onda destas hashtags todas que vejo por aí, proponho uma nova: #amepessoasusecoisas

E você, vai aderir?


Andri escreve às sextas-feiras e deixa claro que este texto não é “recalque”, está feliz no amor :D Ainda assim é uma observadora nesse mundo e é incapaz de não se importar com a realidade que a cerca.



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