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quarta-feira, 8 de abril de 2020

“E no dia seguinte ninguém morreu.”

Até que enfim eu consegui terminar um livro desde que começou a distopia. E não por acaso foi um livro distópico que começa “e no dia seguinte ninguém morreu.” Nesses dias em que no dia seguinte a gente contabiliza quem morreu. E se preocupa em saber se alguém dos números era nosso conhecido. Tenho a impressão que nessas circunstâncias todos se tornam conhecidos. Todos os números doem como se fossem o nosso amigo. Afinal habitamos o mesmo mundo. Embora não estejamos sujeitos as mesmas intempéries. 

Vi as pessoas em isolamento social fazendo listas de livros, filmes e séries para assistir. Eu não fiz nada disso, meus dias seguem parecidos. Sou meio isolada. Gosto assim. Sigo trabalhando nos mesmos horários. Eu só queria conseguir ler um livro. 

Ano passado foi um ano  tão ruim, e não consegui ler muita coisa. E agora está tão ruim que eu nem lembro porque o ano passado foi tão ruim. Eu achei que era por isso, porque estava ruim, que eu não conseguia me concentrar. Ou porque já lia o dia inteiro a vida inteira, pesquisadora que sou. Descobri que era caso de idade. Resolvi colocando mais um foco nos óculos. E entrei num ritmo bonito de leitura. Estava satisfeita, leitora que sou desde criancinha. 

Mas aí veio a distopia. E eu não conseguia mais ler. E não porque tem que ficar isolada em casa. Para mim é mais fácil que a maioria. Eu tenho meu marido e muitos bichos. Eu posso trabalhar em casa. Eu tenho um teto para me isolar. Eu tenho água todos os dias para lavar as mãos. Mas não há possibilidade de no outro dia não haver números. E os que podiam fazer algo para termos menos números estão presos em narrativas particulares. E as pessoas que podem, não deixam de sair de casa, mesmo podendo virar números. Mesmo podendo  transformar os outros em números. E tem o vizinho aqui do meu lado levando vida normal. Vida normal, na distopia. 

Mas hoje eu consegui terminar um livro, e nele disse Saramago “a morte não dorme.”

A não ser que a gente tenha que sair para trabalhar, não tem nada que não se possa deixar para depois que tudo passar. 

Cuidemo-nos.🌹



Luciana deseja que todos fiquemos bem e que sejamos responsáveis não só por nossas próprias narrativas.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Amanhã é dia seis, são cinco dias para o fim...

Amanhã é dia seis, são cinco dias para o fim...do ciclo. Na verdade, hoje é dia seis, mas é uma questão de rima. Na segunda parte não consegui uma rima boa, de qualquer forma. Então hoje são cinco dia para o meu aniversário. De quarenta anos. E o que que muda? 

Não muda o fato de as pessoas não entenderem eu ter decidido não ter filhos; 

Não muda o fato da minha família continuar me achando uma criança tola; 

Não muda o fato de eu ter graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado, uma carreira longa e diversificada e multidisciplinar e eu seguir me achando uma farsa, o que é um mal feminino; 

Não muda o fato de não terem inventado a fórmula perfeita para um relacionamento harmonioso, embora eu viva um. 

Não muda o fato de eu não ter condições de cuidar de mais nenhum bichinho, mas volta e meia brota um filhote no meu jardim; 

Não muda o fato de eu sempre achar que posso ser uma pessoa e uma amiga melhor, e sentir que ainda falho em diversos momentos; 

Não muda o fato de eu trabalhar para me desconstruir, e ainda me pegar julgando as escolhas alheias, e sentir muita vergonha por isso;

Não muda o fato de que a desconstrução é uma trabalho para a vida toda e que a empatia é exercício diário;

Não muda o fato de que ainda vou tomar decisões das quais vou me arrepender; 

Não muda o fato de seguir sem conseguir escrever nesse blog, devido a conjuntura horrorosa que estamos vivendo; 

Não muda o fato de eu não conseguir fazer minhas plantas viverem; 

Não muda o fato de eu sentir dor todos os dias, devido a fibromialgia; 

Não muda o fato de eu querer ser melhor ambientalmente, e ver cada avanço como uma conquista; 

Não muda o fato de eu não entender quem ainda usa copo plástico e não leva sacola retornável para o supermercado; 

Não muda o fato de que o que estamos vivendo parece mais uma distopia; 

Não muda o fato de que a minha memória é tão ruim, que tenho que ter sempre alguém me lembrando do que eu deveria me lembrar sozinha; 

Não muda o fato de eu não conseguir educar um cão que está no topo do ranking de inteligência; 

Não muda o fato de eu não conseguir parar de tomar café, mesmo que isso não permita que uma gastrite se cure, e ainda faça mal para a fibromialgia, e eu considere isso um fracasso. 

Não muda o fato de que tem dias que eu não consigo produzir e nem fazer tarefas mínimas, devido a fadiga crônica; 

Não muda o fato de eu ter enxergado apenas avanços mínimos nos direitos das mulheres nesses anos; 

Não muda o fato de que eu sonhar em voltar à docência de alguma forma, mas que com a desconstrução da educação no país, parece um sonho cada vez mais impossível; 

Não muda o fato de eu mesmo trabalhando para as indústrias farmacêuticas, e dependendo delas, enxergar que tem algo muito errado em relação ao uso de medicamentos no país; 

Não muda o fato de que, por mais que me esforce, não conseguirei ler todos os livros e assistir todos os filmes que gostaria em uma única vida; 

Não muda o fato de que o mundo está aquecendo cada vez mais, e muito pouco pode ser feito em relação a isso; 

Não muda o fato de que há uma onda mundial de colocarem malucos no poder; 

Não muda o fato de que um quindim e um café são capazes de melhorar um dia ruim; 

Não muda o fato de eu ter amizades de muitos anos e outras nem tantos, que fazem com que eu nunca sinta solidão mesmo longe de todos;

Não muda o fato de o mundo não estar nem parecido com o que eu achei que seria quando eu chegasse aqui;

Não muda o fato de eu esquecer do aniversário de todo mundo, e ficar feliz da vida quando alguém lembra do meu. 




Achávamos que não conseguíamos escrever no blog por causa do nome que não se enquadrava mais com a maioria das escritoras que já beiravam os quarenta. Alteramos o nome e nada mudou. Deve ser a conjuntura mesmo.

sábado, 24 de novembro de 2018

Um dia após o dia do consumo, como está o seu?

Há um tempo venho tentando mudar minhas atitudes e o meu impacto ambiental e de consumo enquanto de passagem por esse mundo. Aliás, vocês já perceberam que a nossa passagem aqui é muito rápida e que o mundo tem que continuar e outras pessoas passarão por aqui? Mas nós vivemos de forma egoísta, como se o mundo fosse nosso e a gente tivesse que usufruir de tudo que ele pode nos oferecer, sem nenhum tipo de contrapartida da nossa parte. A gente destrói, mas não tem consciência de que está destruindo, porque não percebe que a simples fabricação de uma peça de jeans carece de uma quantidade absurda de água para ser produzida. A gente destrói pelo nosso modo de viver. E é esse modo de viver que tenho repensado e tentando adaptar nos últimos anos.

Percebo que quanto mais me conheço, preciso de menos coisas. Fui amadurecendo enquanto ser humano e nunca mais precisei de um determinado sapato para viver ou de uma determinada calça. Nunca mais precisei sair de uma loja com um monte de sacolas, coisa que outrora achava terapêutico. Não estou dizendo que moda não é importante. Claro que é. Moda é atitude e não tem nada a ver com consumismo, que não tem a ver com moda e sim com a necessidade de posse. Muitas pessoas só se importam em ter muitas peças, mas sem pegada de moda, só por ostentação. E tem que ter consciência do tipo de tecido que está comprando! 

Meu guarda-roupa é muito restrito e mesmo quando eu comprava bastante, já tinha a consciência de desapegar de algo que já não usava mais. Sempre que comprei algo, sabia que outro algo já não seria mais usado e passava adiante. E se não usei no verão/inverno passado, não vou usar nesse e passava para amigas, minhas alunas, ou quem estivesse precisando. Mas não pensando em como "sou boa e caridosa e vou doar". Com a intenção de alguém seguir usufruindo. Do mesmo jeito sempre tento reaproveitar as coisas em casa. Reformando móveis e outras coisas, e sempre que possível, na pegada faça você mesmo – ou o marido mesmo. Nesses últimos dias mudamos várias coisas em casa, para a tornar mais confortável para nós. Mas tentamos fazer o que fosse humanamente possível para esses dois humanos e compramos algumas coisas que eram necessárias. E aí, o que fazer com o que sobra? Não existe nada que justifique coisas sem uso em casa, então vendemos se fizer sentido – até porque precisamos pagar o que adquirimos novo – ou doamos caso tenha para quem doar. Tecidos que não são mais passíveis de uso viram cama de cachorro. Você já pensou o que acontece com um tecido ou com um sapato que mandamos para o lixão? Quanto tempo aquilo vai ficar lá sem “desaparecer”?

Meu celular tem três anos. Alguém me disse essa semana: seu celular já está bem velhinho né? Mas gente, ele funciona, está com a tela perfeita, bateria meio viciada, mas deixa o meu celular! E sempre foi assim, só troquei de celular quando o coitado pediu “pelo amor de deus, me deixa”. E quando ele ainda tinha algum suspiro de vida, passei adiante para alguém usufruir do suspiro. Afinal, eletrônicos não são biodegradáveis, e aí?

Acho que devemos essas contrapartidas para a terra e para seus futuros habitantes. Uma contrapartida que tenho dado e me orgulho imensamente é de não usar absorventes descartáveis, que invenção tola! Não só eles são puro plástico e nunca vão sumir desse planeta, como com o tempo eles passaram a ter mais plástico nas abinhas, mais plástico envolvendo cada um deles e mais o plástico da embalagem. Uso o coletor menstrual que é uma invenção de responsabilidade e estou aguardando ansiosamente a chegada das calcinhas menstruais que comprei!

Aqui onde moro não tem coleta seletiva. Mas dá para levar o que é reciclável num posto de coleta e ganhar desconto na conta de luz. A gente fica juntando lixo um tempo para não ficar indo lá o tempo todo e quando chega lá, o desconto na conta é irrisório e não cobre nem o combustível da ida até lá. A gente faz por que quer mesmo. Mas a ideia é boa, imagino que se o incentivo fosse melhorzinho mais pessoas iam se propor a fazer. Aí a gente caí na paranoia de que está indo lá levar o lixo para ser sustentável, mas está poluindo queimando combustível até lá – mas aí é questão de sempre levar quando já tem mais coisas para fazer perto do lugar. Tem que tornar o uso do carro consciente também, já conseguimos por aqui! Não usamos mais sacola plástica do supermercado, levando sacolas de casa ou aproveitando as caixinhas – que os supermercados já disponibilizam sem precisar pedir – ainda bem! E vejo que muita gente já está com essa conduta. Claro que às vezes acabamos usando, numa passagem desprogramada pelo supermercado, mas se a gente já não usa na maioria das vezes, creio que estamos fazendo nossa parte. Faço cebolinha e alho-poró crescer de novo na água, e o que mais der.

Tenho muita muita coisa para aprender e para mudar ainda. Mas qualquer decisão que a gente tome no sentido de viver mais conscientemente já faz alguma diferença. Isso desde não usar canudo e copo plástico, ter uma xícara no trabalho e lavar a louça fechando a torneira. Já vi que existem projetos de troca de roupas, que vão além de brechós, que são muito legais também! Cada mudança é uma vitória e a mim dá mais prazer do que comprar algo novo.

Vejo que em países mais desenvolvidos – nos EUA não – essa consciência já é a normalidade e nosso país tem muito o que se desenvolver ainda. Mas tudo começa nas pessoas! Dá trabalho mudar condutas, não sou hipócrita de afirmar que é fácil, mas se fizer sentido para você, vale o esforço!

E claro que tenho meu pecado do acúmulo, não consigo – e não sei se um dia conseguirei – não acumular livros! Mas vivo dando uns que já li de presente, acho que já é um começo! A verdade é que a gente precisa de muito pouco para viver – eu preciso de uma comida boa – ah, e tem assunto para as mudanças para uma alimentação consciente – chá e café quentinho – ai gente, ainda não abandonei o filtro de café! – meus cachorros, meu amor, trabalho, relaxante muscular, muitas horas de sono, e um cantinho de paz – e livros, muitos livros, ai deus! 

Luciana tem percebido que quanto mais é, de menos precisa.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Faz um ano que ela foi passear em outras praias

Faz um ano que ela foi passear em outras praias... ah, como ela amava praia e quantos passeios nós fizemos pelas praias da vida. Companhia para acordar cedo – e aí de mim se não a acompanhasse! – tomar uns bons chimarrões e papear sobre qualquer coisa. Me acolhia até quando não sabia que o que eu precisava era de acolhimento. Vaidosa. Sempre com as unhas bem feitas, sempre. O cabelo também. Não importa o que estivesse passando. Amava o sol e estar bronzeada. De um gênio complicado... ah, os genes Soares Almeida que eu também carrego – me diga um fácil que os carregue, que eu certamente vou dar uma boa gargalhada! Não concordávamos em quase nada, mas concordávamos que nos amávamos e que era bom estarmos juntas, mesmo que em silêncio – talvez para não ter perigo de discordarmos, rs! E de amor ela entendia, embora tenha perdido o seu amado mais cedo do que se esperava. Amava os filhos incondicionalmente, e os defendia – e defenderia em qualquer circunstância. Adorava casa cheia – o norte de toda a família nos finais de ano – comida boa e um bom carteado – o livrinho em que anotavam a pontuação é uma relíquia e tem o nome dos muitos bons escudeiros que a acompanharam nos últimos tempos. Não gostava de perder – tenho informações de que se perdia ficava brava e jogava as cartas pro alto! Parece que as irmãs até a deixavam ganham de vez em quando por puro medo... rs. 

Me vejo um tanto nela... na curvatura da minha coluna, em não querer desagradar ninguém (embora eu tenha trabalhado muito bem nisso nos últimos tempos, rs), na teimosia. Queria ter um pouco mais da sua vaidade e alegria de viver. Não sei se devo agradecer por isso, mas além de tudo me deu meu amigo-melhor primo-desculpa os outros, aí-desgraçado. 

Ensaio esse texto-homenagem há um ano, mas nada do que eu escrevesse poderia representar o que ela significa para mim. Ainda bem que, alguns meses antes desse um ano, pudemos nos despedir em um encontro de muita alegria e aprendizado. Tia Irena: exemplo de amor, vitalidade e coragem!




Luciana escreve pouco por aqui, mas não perde a esperança jamais.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Um conto de ano novo

Foi no dia 30 de dezembro. De 2017. Um ano meio merda. Não se pode dizer que o ano foi meio merda. Tem que expressar gratidão. Mesmo se a merda superar as coisas boas. 2017 foi bem merda. Antes desse ano você não amava seu emprego, mas estava satisfeito com ele. Nesse ano você viu compromissos não serem honrados pelos outros. A situação financeira entrou em estado de indignidade. Você nem entendeu se ainda tinha emprego no final. Mas você tem que ser grato. Use isso como um mantra. Foi o ano que você perdeu uma pessoa muito importante. Para você, uma mãe. Aquela que agregava a família muito grande e muito dispersa. E você quase não pode vê-la antes da partida. Decidiram que você não podia viajar. Foi o empenho de uma pessoa muito querida que fez com que você pudesse vê-la. E o empenho nem foi para isso, mas resultou nisso. E você a viu tão bem e sorridente. Você levou consigo alguém, que por motivos que a vida explica havia se afastado. Mas você sentiu e mostrou que era importante. E foi muito divertido e cheio de amor. E meses depois, quando da partida, você recebeu o agradecimento do alguém que foi com você. E isso encheu seu coração de amor. E na partida, aquela que sempre agregava a família grande e dispersa, foi capaz de juntá-la novamente. E o que era para ser só triste, acabou em lágrimas, afeto e risadas.

Mas era dia 30, você e ele começam a assistir a série que deve ter sido liberada no dia 29, para botar a pá de terra e declarar: que ano mais merda foi 2017. Vocês assistem o primeiro episódio. Ok, interessante. Tão longo. O segundo, impecável. Identificação humana e tecnologia. Parece a série que vocês conheciam. Resolvem ver o terceiro: WTF. Difícil se recuperar disso. O quarto episódio parece mais leve. Impossível não haver identificação pessoal. Ainda mais se você passou por tantos relacionamentos bons, loucos ou tóxicos que mais pareceram test-drives para o seu relacionamento equilibrado e saudável. O quinto episódio não precisava existir. Que droga é essa. Você diz para ele: vamos beber. Só bebendo para aguentar isso. Beber o quê. Vamos terminar aquele vinho. Mas só tem uma taça. Vamos beber mesmo assim. Vocês beberam a taça tão rápido. Pega o espumante que está na geladeira desde o ano passado. Deve ter sido esse o erro. Não beber o espumante na virada do ano. Teve o ano inteiro para beber. Por isso o ano foi merda. Se tivéssemos bebido esse espumante. Melhor bebermos antes que o ano acabe. Imagina o que pode acontecer se bebermos no ano que vem. Não. Não dá para arriscar. O que pode ter acontecido com um espumante que ficou um ano na geladeira. Deve estar bem gelado. Você lembra que o espumante até mudou de casa. Isso foi meio bom. A mudança. Você se apega a mudança como lembrança boa. Um lugar mais próximo da civilização que facilitou a rotina. Meio bom, agora falta o silêncio e a segurança. Você gosta de silêncio. Você gosta da segurança dos lugares onde ninguém vai. O último episódio vai indo bem, mas é pesado. Bem pesado. E você só consegue dar risada. Você ri copiosamente. Você até acha que vai morrer de rir. Parece que espumante de um ano na geladeira deixa bêbado fácil. Ou é o fato de você não beber quase nunca. Ou o fato de você estar com a barriga meio vazia. Mas não, ele também ri sem parar. Ele bebe de vez em quando. Tem algo nesse espumante. Ainda bem. Talvez seja o que 2017 merece. Risada de perder o ar.

Você e ele vão para a cama. Vocês assistiram todos os episódios da série que nessa temporada não estava tão boa assim. Deve ser porque foi a temporada de 2017. Você ri. 2017 estragou até as séries fantásticas. Está tudo rodando. Você diz que tem que colocar o pé para fora da cama e tomar uma dipirona. Dá onde isso. Você lembra que foi um relacionamento tóxico que te ensinou. Realmente tem que ser grata a tudo. Como você teria aprendido que para o quarto parar de rodar tem que botar o pé para fora da cama e tomar uma dipirona. O quarto parou de rodar. Perfeito. Gratidão pelo relacionamento tóxico. E seu inconsciente começa a operar. Você começa a lembrar dos relacionamentos que teve até chegar aqui. Culpa do quarto episódio e do quarto rodando. E você pensa em como conseguia beber antes sem ter uma crise de riso ou o quarto ficar rodando. Você pega no sono em meio a pensamentos de relacionamentos e aprendizados e por que você deveria ser grato a eles. Você não sabe se o que lembra é como realmente foi. Tem relacionamentos que só dá para agradecer pelo livramento. Definitivamente.

Você acorda no dia 31 e já é de tarde. Efeitos do espumante. Você não vai fazer ceia de ano novo como já não fez de Natal. Você não está a fim de comemorar nada nesse ano. No ano passado vocês passaram a virada do ano sentados no chão ao lado do guarda-roupa que o cão escolheu para se esconder dos fogos. Deve ser por isso que o espumante não foi bebido. Não foi nada glamoroso. Você compra somente as uvas que são sua única superstição. Doze uvas, um pedido para cada mês. Você não lembra de onde tirou isso. Mas você faz isso sempre. Mesmo que passe a virada na praia. Lá vai você com suas doze uvas. Na sua região já estão estourando fogos de artifício há dias. Você não sabe o porquê disso. O cão já está em catatonismo avançado. O coração descompassado. Você nem imagina onde vai acabar passando a virada do ano. Vai ter muitos fogos. Chega a hora. Vocês se veem dentro do banheiro, os cães, música alta, o espumante deste ano, as doze uvas. Os cães sofrem. Você come as uvas tão rápido que esquece os pedidos. Era um para cada mês. Você não fez nenhum. Ao menos o espumante foi bebido. Ninguém ficou bêbado. Deve ser por causa das uvas. Os fogos duram uma hora. Uma hora dentro do banheiro. Um final debochado para um ano merda. 

2018 vai ser menos merda. O espumante foi bebido. No fundo há gratidão por todo o aprendizado. Também pelas coisas boas. Houve coisas boas. Entre o que você pretende, está ser melhor sempre. Não o ano, você. Só você pode ser melhor, o ano não. Faltaram os pedidos das uvas. Você sempre fazia isso. Mas quando foi que deu certo?


Luciana escreveu apenas um texto no blog no ano passado. Mas foi 2017, dá um desconto! Como uma resolução de ano novo, além de ser melhor sempre, estão os textos. Que poderão ser contos como esse, não necessariamente, ou totalmente, relacionados a realidade.

terça-feira, 7 de março de 2017

Eu não vim aqui falar do machismo nem do feminismo (mentira!)

Eu não vim aqui falar do machismo nem do feminismo, afinal ambos não existem, são puro devaneio de mulher histérica. Eu vim falar de sexismo e misognia. E de sororidade. Palavras tão pouco faladas até pouco tempo que tem muita gente que ainda não está familiarizada, nem com as palavras, nem com que elas representam. 

Há umas duas semanas eu estava voltando de uma reunião no local que eu trabalho na qual existiam sete homens e eu. Nada mais natural já que na maioria dos locais de trabalho existem mais homens, afinal eles são bem mais qualificados, mais equilibrados, não entram em licença maternidade e não passam pela tpm todos os meses. Assim que sentei no computador li um artigo que falava sobre as barreiras enfrentadas pelas mulheres no meio científico. O ponto principal do artigo é que mulheres não são convidadas a avaliar os trabalhos de seus pares. E, se pensarmos bem, não estamos falando só que as mulheres não são convidadas a avaliar trabalhos de homens, as próprias mulheres não confiam seus trabalhos para a avaliação por outras mulheres. 

Coincidentemente, nessa mesma semana vi a foto de uma ex-orientanda que estava agora defendendo seu doutorado. A foto com a banca. Ela lá miúda cercada por cinco homens. Poxa, na minha defesa de doutorado a banca foi assim também, lembrei! As mulheres não confiam seus trabalhos a serem avaliados a outras mulheres (ou não influenciam seus orientadores para isso, nesses casos em específico), nem eu! Claro que isso foi há muito tempo e na minha atuação profissional dentro da academia, mesmo que algumas vezes instintivamente, priorizei as parcerias com outras mulheres, a orientação de mulheres e o reconhecimento de seu brilhantismo ou trabalhei para fazer aflorar seu brilhantismo podado.

Além disso já foi visto que o aceite de artigos científicos por determinadas revistas é mais fácil quando o autor principal é homem. Ah gente, super natural! Natural como aquele caso das autoras que receberam como resposta do editor de uma revista científica que seria melhor elas re-submeterem o artigo usando o nome de um homem como autor principal. Natural como a luz do dia, lógico que elas deveriam atribuir a autoria do seu trabalho a outra pessoa. Pode isso? 

Nesse contexto, o filme “Estrelas além do tempo”, muito falado no momento, é sobre a corrida espacial norte-americana na época da guerra fria, tendo como ponto central as dificuldades vividas por um grupo de mulheres negras em conquistarem reconhecimento na ciência e na engenharia. Um outro artigo fala sobre “como ‘Estrelas Além do Tempo’ destaca desafios ainda em voga para mulheres na ciência e na tecnologia”. Sim, as coisas avançaram, mas ainda há dificuldades (de 1961 para 2017). O artigo ainda comenta como meninas e mulheres atuais podem ter tido seu potencial prejudicado pela falta de referências femininas nas áreas de ciência e engenharia. “Não porque essas mulheres não existam, mas porque permanecem ocultas sem o seu devido reconhecimento.”

Outro fato que a Renata aqui do blog me chamou a atenção é que as mulheres não aplicam para vagas em que elas não estão enquadradas em 100% dos requisitos. Você pensou: natural também, a velha insegurança feminina! Para o meu emprego atual eu apliquei para uma vaga em que não me enquadrava em nenhum dos requisitos. E, segundo meu chefe, para ele eu me enquadrava perfeitamente na vaga. Veja bem, a não ser que a vaga tenha sido criada para uma determinada pessoa, muito dificilmente vai aparecer alguém que preencha 100% dos requisitos! A propósito, os homens aplicam quando querem.

Não gente, não é questão de insegurança, e se é, pensem em como fomos criadas. Fomos doutrinadas para nunca acreditarmos ser tão boas quanto somos. Desde a infância. Já ouvi falar até de mães que não reconhecem o brilhantismo, esclarecimento e força de suas filhas mulheres, mas exaltam os filhos homens, até os filhos dos outros. No meio científico existem muitas histórias de sexismo. Ouvimos muitas vezes que não somos brilhantes, despautérios como “não inventa de engravidar”. Quando somos mais duras, somos vacas mal-comidas, isso ouvido de outras mulheres! Enquanto um orientador mais duro é visto com temor e... engole o choro! (ou não, porque aluno chorar tá tão fácil hoje em dia, já viram?). Dentro da universidade já vi professor incitar disputas entre mulheres. Já vi professor assediar mulheres pela simples necessidade de poder. Assediar física e moralmente, Já ouvi dizerem que fulana só passou em tal prova por causa do tamanho do short. E ouvi muitas vezes que fulana devia estar dando para tal professor. Entre outras bizarrices.

Um estudo bastante extenso mostrou que mulheres abandonam mais as carreiras de ciência e tecnologia, mas porquê? Você pensou: claro, a velha falta de persistência feminina! Pois está enganado, cita-se “a preocupação com a falta de oportunidades de crescimento” e o fato de serem “tratadas injustamente, receberem salários menores e apresentarem menos chances de serem promovidas do que seus colegas do sexo masculino”. Algum de vocês já passou por isso? Posso usar meu próprio exemplo aqui, não abandonei a carreira, mas mais de uma vez abandonei um emprego por ser tratada injustamente. Além disso, quantas ideias as mulheres dão e só são ouvidas quando sugeridas por um homem! Claro que se uma mulher decide abandonar sua carreira pela família ou para viver outras aventuras não tem problema nenhum, escolhas devem ser respeitadas sempre. O ponto aqui é aquela que acaba abandonando sua carreira por pressão ou por deixar de enxergar perspectivas.

Assim como a personagem Katherine de “Estrelas além do tempo” precisou levantar a voz para demandar respeito em um momento de desespero, muitas de nós dentro da academia ou em outros meios profissionais, também temos esses momentos de desespero. Como aqueles momentos que interrompem a nossa fala, ou desconstroem os nossos esforços. E ao levantar as nossas vozes somos tachadas de loucas, desequilibradas. Surgem perguntas: você está “naqueles dias”? “Você está com algum problema”? Sim, não é evidente que estamos com um problema? Não estamos sendo respeitadas! 

Porém, voltando ao fato citado de que mulheres não confiam seus trabalhos para outras mulheres avaliarem, o que se vê é que elas disputam espaço entre si. Dentro de departamentos de universidades acontecem brigas inimagináveis entre mulheres. Como se o brilho de uma fosse ofuscar o de outra. Como se só houvesse lugar para uma. Em qualquer meio, mulheres são as maiores vítimas de boatos, nem Marie Curie, uma das maiores cientistas de todos os tempos – primeira mulher a ganhar um prêmio Nobel e a única pessoa a ganhar dois prêmios em áreas distintas – escapou disso! Aliás não sei se você sabe, mas desde 1901, 97% dos ganhadores de prêmios Nobel de ciências foram homens, sendo que em 2016 (sim, ano passado – tão recente!) nenhuma mulher estava entre os 11 ganhadores.


Claro que lá no início onde eu disse que machismo e feminismo não existem estava usando de ironia, assim como em muitas passagens do texto em que falo que tudo é muito natural. O que vejo é que além de seguirmos travando luta contra todo esse sistema desigual em que estamos inseridas, tem muitas coisas que nós podemos fazer a fim de aumentar a representatividade. Como escolher outras mulheres para avaliar nossos trabalhos, para serem nossas bancas, exaltarmos mais o brilhantismo de outras mulheres nas mais diversas áreas, promover grupos de discussão entre mulheres, ou seja dar voz e ouvidos a outras mulheres. E nos policiarmos – até que se torne “natural como a luz do dia” – para deixarmos de reproduzir discurso machista. E aí que entra a sororidade.

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Pra quem quiser ler mais:



Luciana escreve (ou deveria escrever) às terças e coincidentemente terminou esse texto hoje, véspera do dia 08.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Conviver simplesmente

Viver simplesmente ou simplesmente viver. Conviver. Já disse a fantástica Elke Maravilha, “Crianças, conviver é o grande barato da vida, aproveitem e convivam”. Conviver simplesmente, ou de forma simples. Simplificar relações. Conviver saudavelmente. Mas como? 

E o processo é doloroso? Demorado? Torna-se rotineiro ou é necessária estar sempre alerta?

Afastar relações danosas, neutralizar pessoas conflituosas, trazer para junto apenas quem nos faz bem e a quem nós fazemos bem. Possível é, mas só nós mesmos podemos separar o joio do trigo e só nós seremos capazes de encontrar artifícios para simplificar as nossas relações. Mesmo que simplificar seja sinônimo de minimizar. 

Leva tempo, dá trabalho, pode doer, mas engloba-se na vida e ela, a vida, torna-se bem mais leve.

Luciana escreve as quartas e não quer mais ter um milhão de amigos.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Da dor que eu sinto

Lembro de sentir dor no corpo desde criança. Anos de ballet e a linda e magra bailarininha era uma criança completamente frustrada, pois enquanto as amigas faziam uma abertura num ângulo de quase 180°, eu ficava lá pelos 60 mesmo. Tantas vezes ouvi que não me esforçava o suficiente, e tudo o que eu queria era chorar pela dor que eu sentia.

Na sétima série me aproveitava de uma amiga mais “avançada corporalmente” que já tinha menstruado, e usava a mesma desculpa que ela para não fazer educação física. “Estou com tpm.” “Estou menstruada”. Aproveitando também da ingenuidade do professor homem. Eu não tinha força para me sair bem em nenhum esporte e era uma aula de educação física e um dia de recuperação pela dor que eu sentia. Ah! E só fui menstruar muitos anos depois, com uns 14 anos!

E por toda a minha vida eu senti dor. Enxaqueca, dor na lombar, sinusite, dor no pescoço, dor nas pernas. E infelizmente me acostumei com a dor diária e senti vergonha muitas vezes de comentá-la, afinal “tão magra e bonita, só pode ser coisa da cabeça”. Além dela muitas alergias respiratórias e alimentares e todas as infecções que pude ter. Ah, e a dificuldade de memorização e esquecimentos de coisas simples, até palavras no meio de uma fala. O cansaço crônico e a insônia. A intolerância À lactose, o intestino irritável.

Nos últimos anos piorou muito, e o último ano foi especialmente importante para eu perceber que todos esses males não podiam estar desvinculados, que na verdade eu devia ter um único mal. Tive uma crise de sinusite fortíssima a qual a minha dor constante na nuca era atribuída (mas péra, e a dor na lombar e nas pernas?). Enquanto tratava a sinusite tive uma crise de labirintite que me derrubou literalmente. Depois de tratados os dois males, com a dor permanecendo, otorrino me encaminhou para um odontologista, pois devia ser DTM. Pois bem, comecei a tratar DTM com um odontologista muito louco, que tentou tratar a mim, uma alopata convicta, com medicamentos homeopáticos. Não por isso, mas sentia que ele não acreditava na intensidade da minha dor. Aquela DTM não me convenceu, para mim não era apenas ela. 

Lembrei de que em uma das muitas crises que tive na vida, lá em 2008, uma fisioterapeuta falou que eu devia ter fibromialgia. Não levei e consideração na época, pois só queria “destravar” e terminar de escrever minha tese de doutorado e nunca tinha ouvido falar em fibromialgia.

Lembrei de uma crise de enxaqueca pós-raquidiana em 2013, que durou mais de dois meses e que nenhum dos muitos médicos que passei souberam explicar, afinal “você não tem nada”.

Lembrei de todas as vezes que não pude receber uma visita porque precisava ficar deitada “com dor de cabeça”. 

Lembrei que sinto peso nas pernas em todos os finais de dia.

Lembrei que não lembrava de nenhum dia na minha vida que não tivesse com dor. 

Lembrei que por mais que fizesse exercícios, a dor não passava. De quando fiz pilates por mais de um ano e chorei em todas as aulas. De não aguentar uma aula de alongamento, nem um simples alongamento pós-treino.

Comentei alguma coisa com um amigo, que me disse: “você tem que procurar um bom reumatologista” – e lembrei que eu nunca tinha pensado nisso! Afinal reumato é coisa de velho, oras! E percebi que nenhum dos muitos médicos e fisioterapeutas que passei (a não ser aquela única) nunca tocou nesse ponto.

Então tive o meu diagnóstico e tenho tratado essa doença tão desconhecida até pelos médicos e sigo lidando com a incompreensão de outrem, afinal “tão magra e bonita, só pode ser coisa da cabeça”.

“Só pode ser falta de exercício”. Até por um lado pode ser, mas agora entendo que nunca posso começar a praticar exercícios com dor, então devo “tratar de tratar” a dor antes, para que não seja um sofrimento.

Poderia escrever páginas sobre essa história toda, e na verdade só estou escrevendo pois podem ter pessoas na mesma que eu e nem imaginam que o que sentem é na verdade uma síndrome – de difícil entendimento e de difícil diagnóstico. Inclusive essa semana descobri uma amiga que também tem.

Algumas pessoas me disseram: “mas que bom, ao menos agora você tem um diagnóstico e vai poder tratar”. Tudo bem, mas entendam que nunca um diagnóstico de doença crônica (e até agora incurável) é bom. De que sentir dor constante não é bom.

Por outro lado me sinto bem, pois andei olhando em grupos de portadores da fibromialgia e tudo o que vejo é pessimismo e uma energia péssima. E eu, como toda a dor que eu sinto – embora alguns dias sejam mais difíceis – consigo manter minha alegria de viver e não sucumbir a auto-piedade.

Hoje realmente foi um dos dias mais difíceis, muita dor, péssimo humor e quase que incapacidade para fazer tarefas simples. Mas me mantive firme no meu maior propósito: de ser maior que essa dor e de não permitir que ela tire meu sorriso.

*Se quiser saber mais, um ótimo site: www.fibromialgia.com.br

Luciana escreve as quartas, tem dias que realmente é muito difícil sair da cama, e esse texto não deve acabar aqui.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

A vida que interessa

Ela é descolada, super pra cima, saudável. Distribui bom dia fofo e sorridente todos os dias. Muito bem humorada. Ama a filha incondicionalmente. Tira muitas fotos com o amor de sua vida. Na vida virtual.

Na vida que interessa ela é insegura, tem uma energia péssima, está sempre de mau humor e quando perguntam se ela está bem, ela responde: mais ou menos. E aí começa a desfiar todo o seu rosário de amarguras. Não gosta que a filha a abrace. Dá miojo de almoço. O namorado, briga três vezes ao dia.

Ele é super resolvido, articulado. Sabe muita coisa de política e das soluções para o nosso país. Dá palpite sobre tudo e aconselha. Posta freneticamente e comenta até nas páginas dos jornais. Chama mulher de gostosa.  Na vida que interessa ele é tímido, não fala sobre nada, quem dirá sobre política! Nunca experimentou sexo de qualidade. Descuidado, nem viu que sua mulher está indo embora.

Ela conta tudo o que acontece no seu dia nos mínimos detalhes. Gosta de enaltecer seus amores, todos são fantásticos e perfeitos. Seu cachorro? O melhor do mundo. Na vida que interessa, esquece de fazer um elogio. Não tem tempo para perder com o cachorro.

Ela é a mais linda, sua casa é a mais linda, seus amores são os mais lindos, tudo que ela faz é muito legal e merece registro. Também merece registro seu esmalte, sua ida quinzenal ao cabeleireiro, seu modelo do dia, sua comida fantástica. Na vida que interessa o que ela sente é vazio, não olha para os seus amores, não pode descuidar do celular! Tantas coisas acontecendo! Anda de calça de moletom e camiseta.

Quando está longe ele sente muitas saudades, manda mensagens fofas e ama muito. Seu casamento? Perfeito! Na vida que interessa ele deve estar com muitas saudades, mandando mensagens fofas e amando muito outras pessoas, pois seus olhos estão no celular e não em quem está ao lado. Seu casamento perfeito? Acabou em poucos meses.

Ela é ativista, luta por várias causas. Antenada. Feminista, fica muito bolada com o machismo que se vê ainda hoje. Compartilha toda a postagem de adoção de animais. Compartilha suas impressões indignadas sobre política. Confirma presença em todos os eventos. Na vida que interessa, ela passa o dia todo na frente do computador. Nunca doou uma roupa para a caridade. Chama mulher de puta e acha que se fulana não queria ser estuprada, não devia ter usado aquela saia. Nunca adotou nem um peixe. Nunca foi em nenhuma manifestação, não tem tempo para isso.

Ela é super ácida e com orgulho, chama de humor negro. Ironia é sua arma secreta. Não tolera opiniões contrárias à dela e alfineta indiretamente quem pensa diferente. Para quem pensa igual ou não se manifesta, ela é só elogios. Para quem pensa diferente, nem uma palavra direta. Na vida que interessa, segue na mesma linha. Na vida virtual, sofre bloqueios. Na vida real, sofre abandonos. Mas que nada! Quem tá certo é ela e ponto.

Ela posta mensagens fofas e não quebra nenhuma corrente. Sua filha viajou até a cidade dela para contar pessoalmente que está grávida. Ela não parabenizou nem esboçou nenhuma emoção. Sua única pergunta? Posso postar no facebook?

Pois é! Então!

Luciana vislumbra um mundo em que as pessoas gastem (ganhem) mais tempo na vida que interessa.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Não esquece!

Não esquece o protetor solar. Não esquece o repelente. Tá com olheira menina, não esquece o corretivo! Ah, qual a ordem mesmo? Mas e o creme corticoide para as muitas picadas de mosquito já existentes? Quando passa? Ah, mas o repelente é por último, tenho certeza! Por último passa rímel para melhorar a carinha! 

Tem dias que não pode esquecer o absorvente (ou o coletor). Desodorante! Não esquece o desodorante! Em todos os anos, Carnaval: não esquece a camisinha. Esse ano: não esquece o repelente. Mas não esquece que não pode beijar na boca, que pega Zika. Para todos os dias: não esquece a garrafinha de água – esse sol tá mesmo um horror. Óculos escuros, não esquece, mas também leva o guarda-chuva. 

E diz o dentista: não esquece de desencostar os dentes! Coloca um aplicativo no celular! Vamos tratar essa dor com homeopatia – oito gotas três vezes ao dia, não esquece – tá de sacanagem né, moço? Põe lembrete no celular – esquece meu celular, poxa!

Tomou vacina do tratamento da alergia segunda? 0,5 mL, toda segunda, não esquece! Ih, terça eu faço sem falta! E a sinusite? Dois sprays – um jato em cada narina duas vezes ao dia de um e dois jatos em cada narina uma vez ao dia do outro. Simples, não esquece. Não esquece que não pode comer lactose – não esquece nem por um pedaço de chocolate!

Dois cachorros, não esquece que tem que dar água filtrada ou fervida – ferrou, giárdia! – não esquece de dar o antibiótico cinco dias seguidos, parar por cinco dias, seguir mais cinco dias. E anti-pulgas – uma vez ao mês, não esquece! Mas não esse, esse não funciona mais, dá aquele – xi, deu ruim aquele não funciona mais também, olha a coceira desses bichos! Tem um outro, como é o nome mesmo? Tem o vermífugo também – de três em três meses, não esquece! Ai, quando foi a última vez que dei? E as vacinas? 

Não esquece de não entrar no facebook – mas e aí como não esquece os aniversários das pessoas? Bota lembrete no celular! Caramba, esquece esse celular!

Não esquece a consulta, quando era mesmo? Não botou no celular? Ih, já passou 20 minutos. Moço, esqueci – na próxima, não esquece.

Quarta-feira é dia de escrever no blog, não esquece! Xi, semana que vem eu escrevo, sem falta!


Duas semanas de férias. Adicional de dois dias de Carnaval e uma quarta-feira de cinzas. Resumo das férias: sonoterapia, netflix-terapia e cachorroterapia, nada mais. Quase vinte dias acordando depois das 11:00. Programa no tal celular para acordar 5:30 amanhã. Rá! 5:30 desperta. Ah, 5:45 dá tempo, põe no soneca. Marido, toma banho primeiro para aquecer a água. 5:55 dá tempo de tomar banho. 5:55, imagem no espelho: um pescoço e rosto alérgicos massacrados por um maldito pernilongo, mesmo com veneno - ah, esse não deve funcionar mais! - ventilador e lençol na cara. Toma banho, passa o corticoide. Passa o protetor solar – o repelente é por último, tenho certeza! Mas tem que esperar secar o protetor. Desce, toma café, que por obra do santo marido já tá pronto. Ufa, os cachorros não acordaram, não precisa cuidar deles hoje. Saí correndo 6:40 antes que eles acordem! O transporte passa 6:51 pontualmente. Corre. Espera o transporte que não passou 6:51 pontualmente, não precisava ter corrido. Diálogo:

- Marido, preciso confessar, não escovei os dentes, não deu tempo! Prometo que escovo quando chegar lá, hahahah

- Lu, tu tá com algo branco no rosto e tem até no cabelo!

- Deve ser alguma das muitas coisas que tem que passar na cara antes de sair de casa, só falta o repelente.

- Tu trouxe?

- Não!!

- Ai Lu, não esquece!

Dorme no ônibus, acorda perto do trabalho, tempo fechado e abafado – não esqueceu o guarda-chuva, né? É.

9:00 acaba a luz, 40 °C, escurinho, festa dos pernilongos (e nem pensemos nos Aedes, mas naquele repelente esquecido). 15:00 volta a luz: um dia perdido de trabalho e mais umas quinze picadas para a coleção. Não esquece de não coçar as picadas! Tira essa unha daí!

Vamos no mercado comprar repelente? Vamos, mas não esquece o cachorro trancando na dispensa! Oi!?

No mercado: marido, pode passar aquele arquivo pra jpg para mim? Porque tu lembrou disso agora? Pus lembrete no celular, ora!

Volta do mercado, senta na cama para escrever esse texto: poooxa Lu, não esquece a chaleira no fogo!

Programa o celular para despertar as 5:30 amanhã. E não esquece de não colocar no soneca!

E também não esquece de ser uma boa pessoa e não ter maus pensamentos. 

Tira essa unha daí!

Luciana pensa em comprar uma burca, mas teria que ser impermeável, anti-mosquitos... quase uma armadura.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Ano passado passou tão apressado, ainda bem

Passado ano.
Apressado em duração.
Acelerado em rotação.
Demasiado em informação.
Excessivo em distração.
Instantâneo em curtição.
Campeão em distanciação.
Humanamente em erupção.
Odioso em conexão.
Imaturo em expressão.
Emergente em explosão.

Corrente ano.
Harmonioso em relação.
Desacelerado em intenção.
Vencedor em contemplação.
Sabedoria em ascensão.
Planos em diminuição.
Existência em mansidão.
Decrescente em preocupação. 
Exorbitante em inspiração
Respeitável em desafiação.
Leve em conjunção.

Reflexão.



Luciana deveria escrever as quartas, mas cadê inspiração? Talvez em 2016...

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Você não tem a mínima ideia do que é ser mulher nesse mundo

Os tempos têm sido difíceis. O país parece caminhar para uma involução contra todos os exemplos vindos dos países mais desenvolvidos. Mas nada pior dos que os últimos tempos, e aí estou falando de últimas semanas mesmo. 

Temos como homem que aprova o que se vota para se tornar lei um ser corrupto até a raiz dos poucos cabelos, imoral, mentiroso, misógino, chantageador, falso religioso...poderia escrever adjetivos o dia todo aqui. E outros imorais correndo para aprovar pautas absurdas antes que esse ser caia. E como demora a cair, não é mesmo? E a pior de todas é um PL da autoria do próprio ser, que é mais um abuso, entre tantos que sofremos no decorrer da vida, contra todas as mulheres. Não existe bancada feminina? Qual o motivo desse torpor todo?


Falando em abuso, esses últimos dias ainda nos proporcionaram cortes na alma quando pudemos ler os depoimentos na campanha #primeiroassédio. Mulheres que se desnudaram até a alma para dividir o primeiro assédio do qual lembraram e que fizeram com que todas nós pudéssemos resgatar os assédios/abusos que sofremos durante a vida. Aliás, uma hashtag não é para fazer o resumo no final de uma postagem, mas é um link onde estão compiladas todas as postagens sobre aquele conteúdo – então clica lá na #primeiroassédio e você nunca mais vai ser o mesmo.

Todos os depoimentos me fizeram lembrar as vezes que queria sair com uma roupa e resolvi sucumbir ao medo e sair com algo mais discreto; 

fizeram lembrar do dia em que – com 12 ou 13 anos (a idade da Valentina – nojo) um desconhecido num ônibus intermunicipal disse que me daria um beijo ali mesmo, que a minha boca era linda, entre outras coisas que fiz questão de esquecer, e terminei a viagem na cabine do motorista, onde me senti segura – me sentindo culpada por ter conversado com um desconhecido;

fizeram lembrar quando com 14 anos um cara enfiou a mão dentro da minha bunda, quando eu entrava no prédio que eu morava – mas mais pareceu que enfiou na minha alma – embora ele tenha sentido o tamanco que eu usava fincado em seus costas por um reflexo meu, fiquei me sentindo imunda por muitos dias e achando que a culpa era minha, afinal porque uma bunda tão grande?

fizeram lembrar da noite em que o cara que eu era apaixonada e nunca tinha tido nada (aí já na faculdade) – me levou para casa após um baile de formatura (e eu tinha certeza que ele não tinha nenhum interesse por mim) – de ele ter me agarrado a ponto de arrebentar meu vestido e eu só ter escapado por ter conseguido abrir o portão e entrar correndo no meu prédio. E fiquei por muito tempo sentindo vergonha por ter sido apaixonada por uma cara desses – quem vê cara não vê tara – e culpada por ter me aproximado dele. Só o vi mais uma vez um tempo depois e senti um frio tão grande na espinha e muita náusea. Claro que nunca contei isso para ninguém, afinal acreditava que a culpa era minha; 

fizeram lembrar de quando tive que mudar de um ap que adorava por ter um vizinho stalker – antes mesmo desse termo existir – por ele me esperar todos os dias na sacada e descer as escadas “coincidentemente” na hora que eu estava subindo – por ouvir as batidas na porta para pedir algo e prender a respiração para ele não perceber que eu estava ali, mesmo sabendo que ele sabia que eu estava; 

fizeram lembrar do professor que passou um seminário inteiro olhando para a minha bunda e que parou atrás de mim no caixa eletrônico, passando a mão no meu braço para me dizer bom dia...

fizeram lembrar de todas as vezes que deixei de passar num lugar escuro e caminhei muito mais por medo; de quando tive que atravessar a rua enquanto passeava com meu cachorro; de todos os “delícia”, “gostosa”, “tesão”, “te comia todinha” e etcéteras.

E hoje me abstenho de falar dos abusos morais sofridos profissionalmente. 

Aí as pessoas (ah, as pessoas!) protestaram contra o tema de redação do ENEM, o qual foi dito como feminista não sendo, e esquerdista, como se não fosse um tema de interesse geral. Como a persistência da violência contra a mulher poderia não ser um tema de extrema relevância? Sobretudo quando não há nenhum viés de mudança, mas sim de piora, com o rumo que os políticos têm dado para as nossas vidas? 

Ah o ENEM, ainda nos proporcionou ler as interpretações sobre a frase legendária de Beauvoir. Tantas gritaram que nasceram mulher sim, pois nasceram com uma vagina! Não é à toa que muita gente não passa em concursos por não saber interpretar textos. Aliás, quando alguém chega para você e diz: “que bela mulher você se tornou” – você pensa logo que não, você não se tornou mulher, você já nasceu com uma vagina – ou você pensa em toda a sua trajetória de vida?

Os depoimentos do #primeiroassédio me cortaram a alma e me fizeram sentir sortuda pela violência sofrida como mulher no decorrer da minha vida tenham só marcado minha alma, vendo tantas outras que sofreram violência física e tiveram seus corpos e suas almas dilaceradas. As atitudes perante a redação do ENEM fizeram temer mais ainda por tantas mulheres abusadas, violentadas, machucadas – muitas vezes por seus próprios companheiros. As pedras atiradas no feminismo, mesmo quando não se trata dele – por homens e mulheres – me fazem perceber que não são só os homens que não fazem ideia do que é ser mulher nesse mundo, muitas mulheres também não. E que culpa é essa que a gente tanto sente?

E não, não é uma simples vagina que nos torna mulheres.

Luciana normalmente escreve as quarta e está muito contente com a mobilização feminina contra o PL5069 - está apenas começando!

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Um quindim para finalizar um dia péssimo é quase poesia gastronômica

Mundo de mal a pior... aliás, segundo alguns aí era para ter acabado hoje, e cadê fim?! Talvez já tenha acabado e a gente que não tenha percebido. Talvez esse seja o lado B da humanidade e não nos avisaram. O que se notícia parece muito com o que ouvi falar sobre o purgatório outrora. Sim, eu estou apocalíptica desde a semana passada, como pode-se ler aqui,

E, mesmo com tantos problemas e dificuldades,  tem quem consiga piorar o dia-a-dia! Seria tão mais simples a rotina leve, já que o resto está esse caos!

Comendo o meu quindim – aquele que cura qualquer dia ruim – lembrei desse texto, o qual complemento:

Oração – Tudo o que eu desejo é que eu não seja (não venha a ser): Gente que não se arrisca. Gente que deixa de viver por medo. Gente que só fala de gente. Gente que lembra de uma história de tempos com qualquer coisa que a gente conte... e conta! Gente que a todo o tempo conta história de gente que a gente nunca conheceu... nem vai conhecer. Gente que não respeita a gente. Gente infeliz que não faz nada para deixar de sê-lo. Gente que manipula a própria situação, para não encarar o que de fato é o problema. Gente que não sabe amar e nem tenta aprender. Gente orgulhosa. Gente que buzina no trânsito. Gente irredutível. Gente que não faz nada por si. Gente que não faz nada por ninguém. Gente que desce a serra em alta velocidade. Gente negativa. Gente que se acha exemplo para tudo. Gente movida pela vaidade. Gente que dá conselho para quem não pediu, nem demonstrou precisar. Gente que não escuta a gente. Gente que não se resolve como gente. Gente proprietária da verdade. Gente que não valoriza nada. Gente que critica tudo. Gente que vive no passado. Gente raivosa. Gente que joga lixo no chão. Gente egoísta. Gente que não se gosta. Gente que sente inveja. Gente que só flutua pela vida, sem fazer diferença nenhuma. Amém.


Luciana escreve as quartas e só o que ela deseja é manter seu equilíbrio.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Mundo acabando e tem quem queira impor como o outro deve viver!

Julieta não quer casar e ter filhos. Não tem nada de errado com Julieta. Ela só não quer casar e ter filhos. Ela namora com Jonas, tem um cachorro e dois gatos. Julieta é feliz. Jonas também. Os bichos dela também.
Mário é casado com Júlio. Não há nada de errado com Mário. Nem com Júlio. Mário só ama Júlio, e vice-versa. 
Josiana é espírita, embora toda a sua família seja católica. Não há nada de errado com Josiana. Ela só se identifica mais com a doutrina espírita. 
Matilde e Mariano namoram há 10 anos. Eles não pretendem se casar. Não há nada de errado com Matilde, nem com Mariano. Eles só não precisam de papéis ou bênçãos para afirmar seu amor.
Carola cria seu filho Pedrinho sozinha. Não há nada de errado com Carola. Eles só foram abandonados pelo pai do Pedrinho enquanto Carola ainda estava grávida. 
Carmem e Gérson são casados há cinco anos e estão na fila de adoção de uma menina. Não há nada de errado com Carmem, nem com Gérson. Eles só querem ser pais, independente de genes.
Maria e Janete são noivas e estão preparando seu casamento para daqui um ano. Não há nada de errado com elas. Elas só estão vivendo os preparativos para o casamento e fazendo planos de vida. Depois de dois anos de casamento, Maria vai engravidar, talvez seja inseminação artificial. Não há nada errado com Maria e Janete, elas só estão construindo uma família.
Miranda e Jorge são casados há sete anos e tem três filhos – Isabela, Clara e Bruno – não há nada de errado com eles. Eles sempre quiseram uma família grande. Agora pretendem adotar um cachorro, para ensinar sobre responsabilidade e amor para seus filhos.
Dona Marlene cria os três netos. Não há nada de errado com ela. Ela só cria os netos com muito amor desde que sua filha e o marido faleceram em um acidente de carro. 
Telma gosta de sair à noite e conhecer novas pessoas. Telma já se apaixonou por meninos e meninas. Não há nada errado com Telma. Ela só é livre e faz da vida e do corpo dela o que ela quiser. 
Laura conheceu seu namorado há um ano. Eles moram juntos há oito meses. Não há nada de errado com eles. Eles só não contam o tempo e não queriam ficar mais um longe do outro. Eles têm planos de casamento, mas não agora, qualquer hora.
Josias e Cristine se separaram, eles estavam juntos há 20 anos. Não há nada de errado com eles. Eles só se consideravam apenas melhores amigos. Cristine está apaixonada por Kléber e eles vão se casar. Não há nada de errado com Cristine. Ela só não perdeu a capacidade de amar. Ainda bem.
Tarcísio e Amélia estão comemorando 50 anos de casamento e se amam incondicionalmente. Eles têm doze filhos, quarenta e cinco netos e vem alguns bisnetos por aí. Não há nada de errado com eles. Tarcísio e Amélia só foram muito felizes com o seu amor e a grande família que ele gerou.
Judite já adotou dez cachorros e dezoito gatos, que encontrou na rua. Não há nada de errado com Judite. Ela só está tentando consertar os danos da irresponsabilidade alheia.
Inezita tem sessenta anos e nunca se casou. Não há nada de errado com Inezita. Ela só nunca se casou. Ela vive com seu cachorro Max, que já tem 14 anos.
Luigi cria seus dois filhos sozinho há alguns anos. Não há nada de errado com Luigi. Ele só é pai solteiro e não faz ideia de onde esteja a mãe dos meninos.
Marlon não fala com sua mãe há dois anos. Não há nada de errado com ele. Marlon só, após ferir e se ferir muito, considera que o afastamento também é um ato de amor.
Regiane é feminista. Não há nada de errado com ela. Regiane não é mal comida, nem neurótica. Ela é muito bem comida e super sensata. Ela só luta para que as mulheres tenham igualdade de direito com os homens. 
Edson tem trinta e oito anos e é solteiro. Não há nada de errado com Edson. Ele só quer ser solteiro.
Viviane está acima do peso há anos e vive sempre linda e sorridente. Não há nada de errado com Viviane. Ela só não precisa de padrões para ser linda e distribuir sorrisos por aí.

E são tantos exemplos que poderiam ser dados. Exemplos que são julgados a todo o momento. Querem julgar o que é família, querem julgar como as pessoas vivem, suas escolhas espirituais. Querem comandar como uma pessoa deve ser, agir, viver. E não estou falando só da maldita bancada medieval que está tentando nos conduzir para um tempo que não deveríamos voltar jamais. Estou falando do cidadão comum, que gosta de se intitular “de bem”, que com seu olhar julgatório, preconceito incutido e comentários alucinados, acha que pode dizer como alguém deve viver ou não. Essa bancada só é reflexo desse pensamento medieval que paira por aí. Talvez seja excesso de tempo livre, sei lá. 

Ao invés de se preocuparem com o policial militar que pediu para ter relações sexuais com as filhas da amante (de 4 e 14 anos) como prova de amor (essa é das últimas!). Com o Jorge Luis, pintor, que matou oito, pelo que se sabe até o momento. Com os rumos que estão tomando a política e a economia deste país. Com a Marta que “goza” da nossa cara, saindo de um partido corrupto para outro partido corrupto para acabar com a corrupção. Com o Eduardo, que embora esteja mais sujo que pau de galinheiro é uma das pessoas com mais poderes desse país. Com a DIlma Vânia que paralisada entrega o governo para não entregar o cargo. Com o policial despreparado que matou o Herinaldo Vinícius, que saiu para comprar bolinha de gude, no Caju. Com os policiais militares que colocaram uma arma na mão do Eduardo Felipe para acobertar sua execução. Com os assaltos por segundo que acontecem não só no Rio de Janeiro, mas nas cidades do interior do país, e causam danos, prejuízos e feridas. Com essa sensação de insegurança constante. Com o trânsito, que mata e (aí sim) destrói famílias. Com o Zé Mané, estagiário de educação física de uma escola de ensino fundamental do interior, que deixava o celular no banheiro dos profes filmando – sabe-se lá o que ele queria ver! – uma vez que ele estava se preparando para trabalhar com crianças! E com a cara-de-pau do Zé Mané, que após descoberto, pediu para seguir com o estágio. Com o preço da cebola, ninguém merece cebola a R$ 7,99!


Ah, também querem tirar a assistência pelo SUS  às mulheres estupradas – nesse país em que acontecem mais de 500 mil estupros por ano! – sem pílula do dia seguinte e coquetel anti-HIV – querem que a mulher crie o filho do estuprador, que eventualmente tenha AIDS. Quem sabe vão obrigar a mulher a casar com estuprador também, afinal tiveram “relações sexuais”! Não era assim antigamente? Transou tem que casar! E tem quem aplauda.

Luciana escreve as quartas e parou por aqui pois este texto está fadado a não ter fim.


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Know-how em relacionamentos e descoberta da alma gêmea

A grande vantagem de já ter passado dos trinta é o know-how em relacionamentos interpessoais - amorosos ou não – o que faz com que percebamos que nossa alma gêmea existe sim e é aquela que vemos no espelho. São tantos experimentos, tantos erros, tantos acertos, pouco êxito, que poderíamos ter tese escrita e título de doutor em relacionamentos!


Aos vinte e poucos quando um relacionamento acaba, a vida quase acaba junto e, depois de um tempo, essas lembranças - que na época causaram até dor física – nos fazem rir. Ver meninas quase morrendo por causa de fins de relacionamento chega a dar uma certa impaciência, mas aí lembramos que temos vários desses momentos “sofrimentos-extremo-minha-vida-não-tem-mais-sentido” no currículo. E aqui, desculpe-me caro leitor, mas vem um clichê: são as experiências e até mesmo os tombos – que muitas vezes servem para acordarmos - que fazem com que cresçamos e, além disso, nos enxerguemos como protagonistas das nossas próprias vidas e não mais coadjuvantes. 

Crescemos com a ideia de que somente par é bom, que só somos completos quando em um relacionamento e ainda existem as malditas comédias românticas para reiterar esse conceito! Sério, esses filmes deveriam ser proibidos! Ainda, tem aquela velha mania de contar o tempo e desejos de eternidade! Dá para parar de contar o tempo, "fazendo o favor"? Já falei sobre isso aqui.

As pessoas passam na vida umas das outras com um propósito, não pode ser diferente. Por isso há relacionamentos curtos importantes. Há amizades relâmpago. Tem quem nos cause saudade mesmo que com um único encontro. E há também os relacionamentos longos que acabam. O que importa é o que fica, ou melhor, o que vai, o que vai para a bagagem da vida. 

E só após aprendermos a amar e respeitar aquela imagem no espelho – não entenda mal! Não estamos falando sobre a madrasta da Branca de Neve! – e saber ser feliz enquanto ímpar, seremos capazes de amar verdadeiramente outrem – seja um par, um amigo, cachorro, gato, papagaio. 


Mas é incrível, por tudo o que trazemos desde a infância, é muito difícil ser a prioridade em nossa própria vida. Temos que desaprender tudo que nos ensinaram e isso exige treino – ou terapia – constante.

Luciana escreve as quarta, mas deu uma falhada, pois esse mundo naufragante a deixou sem ar e sem voz. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Duelo de incoerências

Estou tentando escrever e, perturbada pelos meus cachorros, que se amam e se odeiam, só consigo lembrar da dualidade que reina nos últimos meses. Eles rolam no chão com sons de fúria e dentes – muito – para fora, mesmo o que tem cara de bicho de pelúcia. Em segundos eles estão rolando no chão sem nenhum som, sem dentes de fora, e com jeito de afofamento recíproco. Bipolaridade?


Desde o ano passado paira no ar esse duelo, esses dois lados que se formaram e nos quais não se vê nenhum cabimento. A irracionalidade existente é tão grande, que penso que racionais mesmo são os dois cachorros, que seguem rolando no chão.

E o que mais impressiona é que todos estão certos e que a sua verdade é a mais certa e que a sua certeza é a mais verdadeira entre todas as certezas verdadeiras do universo. E o povo se degladia.

Por que a minha verdade é mais verdadeira que a verdade alheia? Por que a minha certeza é a mais certa? Por que eu não tenho dúvidas? Por que a minha religião é mais plena do que a espiritualidade de outro? Por que a minha convicção é a mais convicta? Por que um é mais corrupto que o outro se o outro também é corrupto? Por que deixar a política – esse câncer - me afastar de pessoas? Por que disseminar o que não está provado e esconder o que está? Por que alguns acham que podem ridicularizar outras pessoas, quaisquer que sejam? Por que permitimos que nos domestiquem? Por que ser politicamente correto virou sinônimo de burrice? Por que não ler e se informar sobre o que “não interessa”. Por que protestar se nos convenceram que tem que ser pacificamente? Por que não esquecer a política e abrir um livro? Por que não desligar a TV e ir passear com os cachorros? Por que não cancelar a assinatura da revista que desvirtuou nos últimos anos? Por que não sair da rede social e passar mais tempo na cama não fazendo nada, ou fazendo? 

Por que não paramos, simplesmente, porque está feio?

(no vídeo, os tais cães mais racionais que nós!)

Luciana escreve às quartas e não concorda com as manifestações políticas, da forma que estão ocorrendo, seja da oposição, seja dos simpatizantes do governo. Se ruim está – e está – porque não unir forças, pensar no bem comum e fazer algo de fato? 



quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Uma pequena homenagem à uma grande mulher

“Compreendi, então, que a vida não é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de mini-sonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira.” (Rubem Alves – sempre ele!)

Como manter a escrita em dia nas quartas, se se está vivendo, correndo, trabalhando, amando, cuidando?

Quarta-feira estranha, de tantos sentimentos misturados! A alegria de matar a saudade de estar na frente de uma platéia de alunos. A satisfação de falar sobre o trabalho que tanto me satisfaz. A felicidade de receber abraços apertados muito especiais de saudades. A melancolia de estar longe, mesmo que por poucas horas, dos meus amores. A tristeza.

Tive a notícia da morte da pessoa que me fez querer ser quem eu sou. A professora sempre alegre e cativante que fez com que eu descobrisse que gostava da Farmácia, só lá no sexto semestre. Que fez com que eu quisesse procurar estudar Química Medicinal. Foi minha banca de defesa de Mestrado, e não podia ser outra. Um ser humano especial, com certeza. Acompanhava à distância, sua luta, sua caminhada, sua alegria, mesmo na adversidade. Sempre com palavras sábias. Disse a ela há pouco tempo: aprendo sempre contigo. Aprendi na disciplina de Química Farmacêutica. Aprendi na disciplina da Vida. Vai em paz, Profe Marga! Você é show!



Luciana escreve as quartas quando dá, e é muito grata pelas pessoas que passam em sua vida e provocam qualquer tipo de mudança.


quinta-feira, 30 de julho de 2015

"Não se cresce sem sentir"

“Não se é grande sem crescer
Não se cresce sem sentir
Nada existe sem porquê, portanto”
(Móveis Coloniais de Acaju em “Café com Leite”)

Pensar sem indução
Falar com informação
Viver com satisfação
Agir com retidão
Crescer com ambição
Cuidar com atenção
Enxergar com amplidão
Sofrer com evolução
Silenciar em antemão
Desapegar sem apreensão
Errar sem ilusão
Sorrir sem opção
Beijar com devoção
Abraçar com afeição
Chorar não é infração
Desculpar em progressão
Crer sem banalização
Ter sem ostentação
Postar sem encheção
Pausar em contemplação
Tolerar sem distinção
Desenvolver sem infração
Corrigir sem vexação
Trabalhar com moderação
Fantasiar como sugestão
Amar em profusão
Sentir sem contenção


Luciana deveria escrever as quartas. Daqui a pouco ela volta pra órbita.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sem pulso

"O pulso ainda pulsa
E o corpo ainda é pouco
Ainda pulsa
Ainda é pouco
Assim..." (Arnaldo Antunes)


Bergamota descascada
Morte por meningite
Collor em loop infinito
Sem lactose
Casa da dinda
Falta de memória
Lamborghini
Hipocrisia
E o pulso...

Plástico bolha que não estoura
Corrupção
Cunha
Sem glúten
Autoritarismo
Caxumba
Sem representatividade
Fobia
E o pulso...

Cães de sapato
Fome em 2015
Comentários de notícias
Rancor
Déficit de butiás
Constantino
Oportunismo
Lobotomia
E o pulso...

Grades nas janelas
Intolerância
Extremismo
Injustiça
Olho por olho
Discurso de ódio
Massa de manobra
Cegueira coletiva
E o pulso será que pulsa?




Luciana escreve as quartas e usou o exemplo das famigeradas bergamotas peladas apenas como um exemplo de coisas que perderam a graça, tal como o plástico bolha que não estoura.


quarta-feira, 8 de julho de 2015

Abandono

Há cerca de duas semanas adotamos uma cachorrinha. Tá, quem a viu já viu que de “inha” não tem nada, é uma bela de uma fillhotona. Embora já tivéssemos um cachorro, vimos a necessidade dele ter uma companhia e dessa necessidade a possibilidade de fazer o bem para um serzinho. Não é o primeiro cão que adoto, quem me conhece sabe que tenho várias histórias em relação a isso. Mas o ato de adotar vem de um abandono e é sobre isso que quero falar hoje.

Toda vez que a Curie vem com todo o seu tamanho e amor para cima de mim exigindo carinho e impondo seu corpinho, não tão inho assim, eu fico imaginando como alguém pode abandonar um ser que parece ter sido tão amado? Ela visivelmente é uma cachorrinha que ganhou muito carinho, o que a gente nota pelas suas atitudes. Certamente dormia com alguém quentinha à noite, pois é o que ela tenta todas as noites por aqui. E ela é muito esperta e muito fácil de educar também, o que faz eu me questionar mais ainda sobre isso.


Mas o ser humano tem uma capacidade muito grande de abandono, seja de afetos, seja de projetos, seja de metas, seja de ideais, seja de si mesmo.

Um ser humano que abandona suas crianças, porque não abandonaria um cãozinho?

Um ser humano que abandona seus amores, sem nem ao menos lutar por eles.

Um ser humano que abandona sua consciência e aplaude quem lincha outro ser humano até a morte.

Um ser humano que abandona seus amigos, e às vezes nem percebe isso.

Um ser humano que abandona sua ética, e passa por cima dos outros.

Um ser humano que abandona a si mesmo, e quando percebe já não é mais quem gostaria de ser.

Um ser humano que só não parece capaz de abandonar o material, seus preconceitos, sua ira, seu egoismo.

Enfim, abandonos à parte, esta família está muito contente – embora ainda em adaptação – com a nova integrante canina Curie, sobretudo o pequeno Bob Dylan, que agora tem que o “afofe” todas as horas do dia.

Luciana é um ser humano que escreve as quartas e já cometeu alguns abandonos na vida. Por alguns lutou antes de desistir, por outros nem tanto.
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