domingo, 16 de janeiro de 2011

Cantigas Infantis

Se tem algo que me intriga desde criança, são as cantigas infantis…

Claro que eu, assim como tantas outras crianças, cansei de brincar de roda cantando algumas dessas “preciosidades”. Mas depois que a brincadeira acabava, muitas vezes eu ficava refletindo sobre as letras das canções…

Meus pais é que sofriam com os “por quê isso, mãe?”, “por quê aquilo, pai?”… E, é claro, nunca obtive a menor atenção (nem mesmo dos professores!) quando eu saía por aí perguntando, por exemplo, porque a casa era engraçada se ela não tinha teto, não tinha parede, não tinha chão, enfim, não tinha nada…

O curioso é que, ainda hoje, cada vez que ouço alguém cantando uma dessas cantigas, parece que volto no tempo e as mesmas dúvidas ainda me incomodam.

E é impressionante o quanto algumas letras dessas cantigas beiram o absurdo… Vejam só algumas que eu lembrei:

"SAMBA LELÊ TÁ DOENTE / TÁ COM A CABEÇA QUEBRADA / SAMBA LELÊ PRECISAVA / DE UMAS 18 LAMBADAS" Olhem isso! O pobre do tal Samba Lelê, só porque está doente e com a cabeça quebrada merece levar umas 18 (!!??) lambadas???? E depois ainda dizem que eu, às vezes, sou um tanto quanto implicante…

"EU SOU POBRE POBRE POBRE DE MARRÉ, MARRÉ, MARRÉ / EU SOU RICA, RICA, RICA DE MARRÉ, DECI…" Nesta aqui, a criança aprende desde cedo as diferenças socias…

"FUI MORAR NUMA CASINHA-NHA INFESTADA-DA DE CUPIM- PIM- PIM"… E a pobre criança sai olhando as paredes à cata de furinhos na sua casa velha…

"A CANOA VIROU / POIS DEIXARAM ELA VIRAR / FOI POR CAUSA DE [FULANA] / QUE NÃO SOUBE REMAR. " Que espetáculo, não é mesmo? O sentimento de culpa deve ser introjetado desde cedo nos pequenos…

"MARIA TU ‘VAI’ AO BAILE / TU ‘LEVA’ O XALE / QUE VAI CHOVER / E DEPOIS / DE MADRUGADA / TODA MOLHADA / TU ‘VAI’ MORRER" A pobre criança que esquecer o casaquinho vai surtar achando que pode, a exemplo da tal Maria, cair mortinha… Afinal, resfriado para quê, não é mesmo? Bom mesmo é morrer de uma vez…

"TEREZINHA DE JESUS / DE UMA QUEDA FOI AO CHÃO” Até a pobre mulher se esborracha no chão nas cantigas dos pequenos...

"BOI, BOI, BOI / BOI DA CARA PRETA / PEGA ESTA CRIANÇA / QUE TEM MEDO DE CARETA"... Ah! Essa é espetacular!!! Imaginem que sono “tranquilo” tem a criança que adormece ouvindo que um boi com a cara preta vem lhe pegar?

"O ANEL QUE TU ME DESTES / ERA VIDRO E SE QUEBROU / O AMOR QUE TU ME TINHAS / ERA POUCO E SE ACABOU"... A criançada aprende cedo que o amor é frágil, pode “se quebrar” e se acabar por qualquer coisinha…

"O CRAVO BRIGOU COM A ROSA / DEBAIXO DE UMA SACADA / O CRAVO SAIU FERIDO / E A ROSA DESPEDAÇADA / O cravo ficou doente / A rosa foi visitar / O cravo teve um desmaio / E a rosa pô-se a chorar" Tragédia pouca é bobagem, não é mesmo? Nem as flores escapam…

Essa aqui, então, é insuperável!!! Que tal ameaçar carinhosamente a criança cantando: "DORME NENÉM / QUE A CUCA VEM PEGAR..." Ora, faça-me o favor!!! Que bendito neném vai adormecer tranquilo sabendo que, a qualquer momento, a tal "Cuca" pode vir lhe pegar???

"ATIREI O PAU NO GATO-TO / MAS O GATO-TO / NÃO MORREU-REU-REU / DONA CHICA-CA / ADMIROU-SE-SE / DO BERRO / DO BERRO / QUE O GATO DEU". Quem foi o maldito doente que criou essa “obra prima”??? Como se não bastasse o pobre do gato levar uma paulada e, surpreendentemente, não morrer, ainda tem a sádica da tal Dona Chica que fica admirada com o sofrimento do gatinho… Até parece uma apologia ao mau trato aos animais…

“MARCHA SOLDADO / CABEÇA DE PAPEL / QUEM NÃO MARCHAR DIREITO / VAI PRESO NO QUARTEL / O QUARTEL PEGOU FOGO / FRANCISCO DEU SINAL / ACUDA ACUDA ACUDA / A BANDEIRA NACIONAL Nesta cantiga, o pobre soldado é xingado de “cabeça de papel” (ou seja, é chamado de burro e imbecil por tabela) e sofre ameaça de ser preso. Além disso, o tal Francisco, que avisa que o quartel está pegando fogo, ao invés de se preocupar com as pessoas, grita que o que tem que ser salvo é a bandeira nacional!!!... Ninguém merece!

“ERA UMA CASA MUITO ENGRAÇADA / NÃO TINHA TETO, NÃO TINHA NADA / NINGUÉM PODIA ENTRAR NELA, NÃO / PORQUE NA CASA NÃO TINHA CHÃO / NINGUÉM PODIA DORMIR NA REDE / PORQUE NA CASA NÃO TINHA PAREDE / NINGUÉM PODIA FAZER PIPI / PORQUE PENICO NÃO TINHA ALI / MAS ERA FEITA COM MUITO ESMERO / NA RUA DOS BOBOS NUMERO ZERO” Ora, convenhamos que o mestre Vinícius (de Moraes) só podia estar querendo tirar um sarro dos “bobos”… Para que raios serve essa porcaria de casa?!?


“[…] O PATO PATETA / PINTOU O CANECO / SURROU A GALINHA / BATEU NO MARRECO / PULOU DO POLEIRO / NO PÉ DO CAVALO / LEVOU UM COICE / CRIOU UM GALO / […] CAIU NO POÇO / QUEBROU A TIGELA / TANTAS FEZ O MOÇO / QUE FOI PRA PANELA” E essa, então?!? O pobre (e violento) pato é um “exemplo”para qulquer criança, não é mesmo? Ninguém me tira da cabeça que o Vinícius queria tirar um sarro quando compôs essa cantiga…

...

Déia escreve aos domingos e, apesar de achar certas letras curiosas, esquisitas, e, por vezes, até meio macabras, continua adorando cantigas infantis...

7 comentários:

Priscilla disse...

Que saudades da infância!
Beijos meus

JANAINA PIRES disse...

Hahahahahaha..muito bommmm...cocordo plenamente com seu texto rsrsrsrs. Não tinha parado para ansalisar estas letras "macabras" uhuahuhauha.

Anônimo disse...

Deia, qdo eu era criança n parava p interpretar nenhuma letra dessas músicas, apenas ouvia e reproduzia nas brincadeiras de roda. De uns tempos p cá é q se começou a levantar essa discussão a respeito da crueldade das letras...por exemplo:eu tinha um vestido c a letra e a historinha do ATIREI O PAU NO GATO, eu adorava o meu vestidinho e sou apaixonada por gatos...n me geraram traumas...hje em dia tudo gera trauma nas pessoas, é incrível rsrs

Ministério da saúde disse...

Olá Blogueiro,

As enchentes fizeram centenas de vítimas nos últimos dias. Para impedir que a situação se agrave é preciso que os sobreviventes saibam como lidar com esta realidade e tomar as medidas de prevenção necessárias para evitar doenças graves. E você, blogueiro, pode ser nosso parceiro nessa divulgação e nos ajudar a salvar vidas. Caso queira participar desta ação, entre em contato com ocomunicacao@saude.gov.br que enviaremos o material necessário.

Fran Becher disse...

Sugiro um livro: "O grande massacre de gatos", de Robert Darnton. Tem um capítulo sobre cantigas infantis. Essas indignações não são somente suas, hehe.

Besos.

Fernanda disse...

Déia, ri muito ao ler teu post! Ontem mesmo comentei com uma amiga sobre a violência das cantigas infantis. Quando criança sempre me perguntava o que significava a palavra "doberrô" de Atirei um pau no gato... Na verdade a gente ia cantando e nem se liagava muito na letra. Agora adulta, adoro Tarantino... será que foi alguma influência??? Hehehehe!!!
Bjs

Andréia B. Borba disse...

Olá a todas!

Pois é Priscilla essas cantigas, apesar de esquisitas, dão uma saudade danada da infância...

Janaina, realmente, depois que se analisa as letras é que se percebe o quão esquisitas elas podem ser...

Anônimo, diferente de vc, desde que me conheço por gente eu já pensava sobre as letras das músicas... e achava estranho o non sense da maioria... Não posso afirmar que elas possam, de fato, gerar traumas em alguém, mas penso que, definitivamente, algumas deveriam ter suas letras adaptadas... Tenho nítido na lembrança o medo que eu sentia do tal "Boi da Cara Preta"... Hehehehehehe!

Fran, esta é a segunda vez que você me sugere esse livro... Desconfio que terei de lê-lo o quanto antes...Hehehehe!

E, Fernanda, quem riu com o que vc escreveu fui eu...Hehehehe! Sabe que tambémn gosto do Tarantino... Quem sabe alguém, algum dia, consiga dizer se fomos ou não influenciadas pelas cantigas, não é mesmo? hehehehe!

Beijos a todas vocês e obrigada pela visita!
Déia

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