segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Memória

“Eu tinha que esperar mais de 20 dias dentro do barco. Havia meses em que eu ansiava por chegar ao porto e desfrutar da primavera em terra. Houve uma epidemia. No Porto Abril nos proibiram de descer. Os primeiros dias foram duros. Me sentia como vocês. Logo comecei a confrontar aquelas imposições utilizando a lógica. Sabia que depois de 21 dias deste comportamento se cria um hábito, e em vez de me lamentar e criar hábitos desastrosos, comecei a comportar-me de maneira diferente de todos os demais. (...)Em vez de pensar em tudo que não podia fazer, pensava no que faria uma vez chegado à terra firme. Visualizava as cenas de cada dia, as vivia intensamente e gozava da espera. Tudo o que podemos obter em seguida não é interessante. Nunca. A espera serve para sublimar o desejo e torná-lo mais poderoso. (...)Naquele ano me privaram da primavera, e de muitas coisas mais, mas eu, mesmo assim, floresci, levei a primavera dentro de mim, e ninguém nunca mais pode tirá-la de mim.”(*)

Sou uma pessoa conhecida pela minha falta de memória com datas. Confundo-me com momentos; nunca sei ao certo onde e quando ocorreram. Mas guardo com cuidado, e em ricos detalhes, todos os sentimentos que tais momentos me proporcionaram.

O dia 18 de março de 2020 certamente será diferente. Estou certa de que guardarei esta data na memória como o dia em que perdi minha liberdade. Mais precisamente como o dia em que renunciei à minha liberdade, pensando em todos aqueles que não a possuem sequer para, momentaneamente, dela também renunciarem.

Somos gregários. E eu me sinto ainda mais gregária que muitos. Também sou conhecida por viver em festa, cercada de pessoas de todas as raças, credos e cores, conversas acaloradas ao redor da mesa, ao tilintar de copos que se esvaziam rapidamente, gargalhadas escandalosas e obscenas, braços dados e abraços apertados no meio da rua. Sofro. Já não sei se serei lembrada assim. Ou talvez o seja, porém com data para acabar: 18 de março de 2020. Passados nove meses e dez dias, confesso que nutro meu espírito, algumas vezes de decepção, outras de esperança. Não sabemos quando isso irá acabar, nem se irá acabar.

Em 18 de março de 2020 eu ainda tinha esperanças de comemorar meu aniversário, pouco mais de dois meses depois, com festa. Um grande encontro de amigos. Eu ainda não estava abatida, consegui comemorar remotamente e, confesso, naquele dia pareceu-me extremamente divertido. Mas não consigo mais viver um momento tão crítico alegremente. Não consigo mais deixar de sentir repulsa por quem nega a existência do perigo e relaxa com a vida alheia. São mais de 190 mil famílias chorando no país. Sem contar aqueles que choram em solidariedade, mesmo que (talvez, ainda) não tenham perdido um ente querido.

Tenho a impressão de que nem a proximidade da morte foi capaz de fazer com que grande parte das pessoas refletisse a respeito do que realmente importa. Incontáveis pessoas ao meu redor não foram capazes de renunciar ao direito de ir e vir em prol da vida, em prol do outro. As mesmas pessoas que enchem igrejas e templos, que pregam amor ao próximo. Venho tentando oferecer a outra face, mas está cada vez mais difícil.

Do meu recolhimento, ouço o alvoroço de crianças brincando, gargalhadas de adultos e penso que nunca imaginaria que sons outrora tão alegres e convidativos um dia me causariam um misto de vergonha, horror, náusea, decepção. E saudades, muitas saudades da época em que a preocupação com o outro me parecia mais etérea (embora não devesse jamais).

Às vezes penso que morri um pouco. Às vezes penso que há muita vida à minha volta e à minha frente. Às vezes penso que meus sonhos estão cada vez mais distantes da concretude. Outras, sinto que é apenas uma questão de tempo até eu voltar a alçar vôos cada vez mais distantes.

O desespero eu aguento. O que me apavora mais é a esperança. Não sei ao certo quem disse isto, dizem que o Millôr Fernandes. É exatamente o que sinto neste momento. Uma esperança apavorante. Porque em 2020 eu sinto que morri um pouco, mas em 2021 eu não vou morrer de novo.


Laeticia tem esperanças em um futuro melhor. Quando este dia chegar, vai botar seu bloco na rua.

Esta postagem possui trilha sonora!!

https://open.spotify.com/track/3jVuBBSKDbOproXHXZ9JLd

https://open.spotify.com/track/0ycD9nYYPV1fu4Qt6rD2mp

https://www.youtube.com/watch?v=Vxmrq0oF_HI&list=RDNOvdg5EGLA8&index=11

https://open.spotify.com/track/6b493rYJ4xkaNXDiVGHsK3

https://open.spotify.com/track/6v1go1ryuIswv45jo0erV8


 


(*) Gabriel García Marques em O Amor nos Tempos do Cólera.

sábado, 22 de agosto de 2020

Histórias (não só) da infância

As histórias contadas para as crianças, geração após geração, não apenas conectam essas gerações umas nas outras, como também passam lições de vida, a tal " moral da história". Desde criança gosto das palavras...das histórias, contadas oralmente e das histórias escritas. Hoje em dia ouço podcasts, mas na infância uma das melhores atividades da escola era, sem sombra de dúvida, a hora do conto! Lembro que minha professora da pré escola lia diariamente um trechinho de um livro "enorme" e eu amava esse momento. 
Lembro com uma sensação de orgulho quando a bibliotecária desistiu de tentar me fazer reler os livros "para os pequenos", e finalmente me liberou para a retirar livros da "ala dos grandes"! Lembro de algumas histórias que me marcaram, como a da cigarra e da formiga. Eu oscilava entre achar muito injusto que a cigarra passasse frio e achar que era resultado de ela não ter se preparado (esse era o enfoque dado quando eu ouvia essa história, um aviso pra nunca pararmos de trabalhar...). Mesmo assim, eu não conseguia achar certo que uns tivessem conforto e outros, nada. Porém não conseguia expressar e discutir sobre esse dilema, assim como tantos dilemas da infância, e guardei ele. 
Quando percebi que a cultura também é importante, e não apenas o trabalho, eu lembrei muito dessa história da cigarra e da formiga. Será que a formiga não aproveitava as canções da cigarra? Será que elas não tornaram a labuta mais leve? Será que ela não poderiam ter cooperado, cada uma fazendo seu melhor e ajudando-se, mutuamente? Não sei como foi, e nem qual a melhor solução, mas penso que pelo diálogo entre cigarras e formigas, e pelo reconhecimento de que trabalho braçal, cultura e lazer são importantes, podemos escrever uma nova história. Você tem alguma história da infância que te marcou? Conta pra gente. 

Renata escreve esporadicamente por aqui, e tem dias de cigarra e dias de formiga.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Você já se ouviu hoje?

Estive ausente do blog. Na verdade, estive ausente da escrita, essa forma de expressão que tanto prezo e que por muito tempo foi meu suporte para comunicação e autoconhecimento. O blog, com o passar dos anos, ganhou uma identidade muito maior que os textos publicados, e nessa dimensão estou completamente presente.

Mas voltando à escrita, e ao nosso afastamento, percebo que foi um afastamento da minha própria voz. Um abafar do que eu tinha para me dizer, mas preferia não ouvir. Venho me sentido cada vez mais preparada para fortalecer minha voz, me respeitando e me ouvindo.

Percebo também que, parte da minha relutância em voltar a escrever para o blog, vem dessa "pandemia de conteúdo" que foi trazida (ou criada) pela pandemia de coronavírus. Muitas reflexões excelentes já foram feitas sobre os impactos da pandemia na saúde, na economia e até no sono das pessoas, e não vou entrar nessa discussão. Mas quero chamar vocês para refletir sobre a pandemia de conteúdo que segue crescendo. De repente, todos têm muitas coisas interessantes e "imperdíveis" a serem compartilhadas, e TEMOS que assistir/ouvir/compartilhar tudo o tempo todo. Por um lado isso é maravilhoso, pois o acesso a conteúdos de qualidade está sendo muito facilitado.

Por outro lado, gera uma ansiedade (mais uma) de tentar ver tudo, acompanhar tudo, saber de tudo e (claro) aparecer em tudo... Confesso que, no início dessa onda que eu, ingenuamente, achei que seria breve, eu tentei "aproveitar" bem e assisti (ou, melhor, deixei o celular conectado) em várias lives e aulas online gratuitas de diversos assuntos. Como portadora-em-recuperação de FOMO (o medo de perder as coisas) eu, felizmente, logo percebi que era simplesmente impossível, e extremamente desnecessário tentar acompanhar tudo, e fui ficando cada vez mais seletiva nas escolhas dos conteúdos que quero ver. E se não conseguir ver todos os selecionados, tudo bem.

A partir do momento em que consegui acompanhar de maneira mais presente os conteúdos, fui percebendo que há um excesso de tudo... conteúdos sendo veiculados em diversos canais simultaneamente, que depois ainda ficam gravados e seguem bombardeando timelines e e-mails... o horário "de pico" das lives, em que aparentemente todo mundo está vendo ou fazendo uma live... entrar numa live com poucos participantes "sem querer", e da qual você fica sem graça de sair virou uma nova forma de gafe (dê o primeiro block quem nunca fez isso)... assistir stories de algumas pessoas pode se tornar um trabalho de dedicação integral, dada a quantidade de assuntos (ou falta de, acontece).

E mesmo consumindo poucos conteúdos de poucas pessoas, por vezes me questiono a motivação de quem produz e distribui. Há quem trabalhe com isso, e já tinha essa prática antes da pandemia; há os marinheiros de primeira pandemia; há os amadores; há os deslumbrados. São pessoas que precisam muito serem vistas e ouvidas. E como tem gente precisando disso: atenção! E aprendi a duras penas que perceber as nossas necessidades e cuidar delas é uma tarefa essencial de cuidado a ser feita com autorresponsabilidade. E muitas vezes a solução é muito mais simples do que buscar likes e seguidores por meio de estratagemas virtuais.

Então, mesmo que relutante em "produzir mais conteúdo", quis deixar aqui esse texto e propor uma coisa bem simples: escute mais. Escute a si mesm@ e escute as outras pessoas. Escutar mesmo, sabe? Sem julgar, sem interromper, sem concorrer com a história da outra pessoas. Só escutar. Vamos atendar a essa necessidade que está se mostrando de forma tão aparente, e reduzir a sobrecarga e a solidão. Escutar é uma forma de acolhimento e de cuidado. Para se escutar, é preciso silêncio. Para escutar o outro, é preciso presença.

Renata escreve esporadicamente, e hoje venceu diversas resistências internas para propor: escute mais. Se cuide, use máscara e, se puder, fique em casa.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Descanse

Em tempos de home office obrigatório, acúmulo de atividades e todas as incertezas inerentes à pandemia, há uma pressão ainda maior pela produtividade. Estamos sendo constantemente bombardeados por lives, dicas, cursos e outros que nos incentivam a sermos produtivos o tempo todo. Faça a primeira live quem não ficou ansioso ou indeciso sobre como usar melhor seu tempo, se fazendo exercício, limpando a casa, fazendo os deveres de casa com as crianças ou cozinhando; ou tudo ao mesmo tempo. 

Mas um dos princípios da produtividade, para alguns autores com os quais eu concordo muito, é que ser produtivo é fazer o melhor uso do seu tempo, naquele momento, com os recursos que você tem disponíveis. E muitas vezes o melhor a fazer é: descansar. Uma boa noite de sono ou um momento de relaxamento consciente, por exemplo, podem ser chaves para a saúde física e mental. E não tem como sermos produtivos se não estivermos saudáveis. 

Ainda não está convencido? Pense que seu corpo é uma cidade. Cada célula é uma pessoa. E cada pessoa tem seu papel. Uns são agricultores, produzindo nosso alimento. Uns fazem a defesa, como policiais. E por aí vai... Quando essa cidade está sob ataque, toda a população fica em estado de alerta. Em casos graves, vão todos para um abrigo antiaéreo! Todos se preparam para sobreviver. E nesse estado de stress, ocorrem alterações hormonais importantes para nossa defesa. Nosso corpo/cidade se mantém apto a sobreviver, mantendo as funções essenciais. Porém, se a população dessa cidade passar muito tempo em estado de alerta...não vai ter ninguém plantando ou brincando. Não vão ocorrer os processos normais que mantêm a cidade/corpo funcionando. 

Por isso que, principalmente em momentos de muito stress, precisamos desligar o alarme e deixar nossas células todas descansarem. Se restaurarem. Respirarem. Para poder fazer suas funções com tranquilidade. Entendo que isso vai contra muitas coisas em que acreditamos, e que pode ser necessário que a gente aprenda a descansar. E, sim, existem técnicas para isso! Mas experimente exercitar um descanso reparador, com muito conforto, sem estímulos externos (então deitar no sofá para assistir TV não conta), e imaginar suas células/cidadãos todas se restaurando, descansando e se fortalecendo. 

Renata escreve esporadicamente aqui e apenas deseja a todos que puderem: bom descanso!

quarta-feira, 8 de abril de 2020

“E no dia seguinte ninguém morreu.”

Até que enfim eu consegui terminar um livro desde que começou a distopia. E não por acaso foi um livro distópico que começa “e no dia seguinte ninguém morreu.” Nesses dias em que no dia seguinte a gente contabiliza quem morreu. E se preocupa em saber se alguém dos números era nosso conhecido. Tenho a impressão que nessas circunstâncias todos se tornam conhecidos. Todos os números doem como se fossem o nosso amigo. Afinal habitamos o mesmo mundo. Embora não estejamos sujeitos as mesmas intempéries. 

Vi as pessoas em isolamento social fazendo listas de livros, filmes e séries para assistir. Eu não fiz nada disso, meus dias seguem parecidos. Sou meio isolada. Gosto assim. Sigo trabalhando nos mesmos horários. Eu só queria conseguir ler um livro. 

Ano passado foi um ano  tão ruim, e não consegui ler muita coisa. E agora está tão ruim que eu nem lembro porque o ano passado foi tão ruim. Eu achei que era por isso, porque estava ruim, que eu não conseguia me concentrar. Ou porque já lia o dia inteiro a vida inteira, pesquisadora que sou. Descobri que era caso de idade. Resolvi colocando mais um foco nos óculos. E entrei num ritmo bonito de leitura. Estava satisfeita, leitora que sou desde criancinha. 

Mas aí veio a distopia. E eu não conseguia mais ler. E não porque tem que ficar isolada em casa. Para mim é mais fácil que a maioria. Eu tenho meu marido e muitos bichos. Eu posso trabalhar em casa. Eu tenho um teto para me isolar. Eu tenho água todos os dias para lavar as mãos. Mas não há possibilidade de no outro dia não haver números. E os que podiam fazer algo para termos menos números estão presos em narrativas particulares. E as pessoas que podem, não deixam de sair de casa, mesmo podendo virar números. Mesmo podendo  transformar os outros em números. E tem o vizinho aqui do meu lado levando vida normal. Vida normal, na distopia. 

Mas hoje eu consegui terminar um livro, e nele disse Saramago “a morte não dorme.”

A não ser que a gente tenha que sair para trabalhar, não tem nada que não se possa deixar para depois que tudo passar. 

Cuidemo-nos.🌹



Luciana deseja que todos fiquemos bem e que sejamos responsáveis não só por nossas próprias narrativas.

domingo, 29 de março de 2020

Lar

Nossa vida vai se moldando às experiências que vivemos. E essa experiência que todos nós estamos vivendo nas últimas semanas tem afetado muito a humanidade, de diversas formas. Uma delas é dar espaço a questões internas, na limitação das distrações rotineiras. Assim, aproveito esse momento para voltar para mim, e para os meus. E, claro, para minhas questões. Dentre elas:

Onde é seu lar?
Como sabes?
É um endereço?
Uma época?
Um planeta?
Uma sensação?
São momentos sutis em uma busca. 
São sensações de segurança e acolhimento que dão o ar da graça, em certos momentos.
Pode ser físico. Material. Concreto. Mental. Sutil. Espiritual. Um espaço. Um som. Eco. Cheiro. Sabor. Calor. Arrepio. 

Lar.

Tão desejado quanto arredio.

Lar. 

O mulher jeito de ter é não ter.
É ser. É estar. Aqui e agora.

Renata segue oscilando entre momentos de medo e ódio, e momentos de introspecção e aprendizado. Seguimos.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Reflexões sobre esse dia da mulher

Muito inspirada no vídeo de Rafa Brites, “ Carta de desculpas” (quem não assistiu, por amor, assista!), escrevo essas palavras no dia de hoje, dia dedicado a homenagear nós, mulheres. 

Sim, somos incríveis, maravilhosas, especiais, merecedoras.. Poderosas? Minha visão hoje é que, nem sempre. Após ler “A coragem de ser imperfeita” de Brene Brown, e outras leituras nessa linha, penso diferente. Não somos inabaláveis, não somos perfeitas, não somos de ferro e nem indestrutíveis. Somos fortes, mas também frágeis. Somos vulneráveis e merecemos colo. E é sobre esse colo que quero falar hoje. Sobre o colo de uma mulher para outra mulher. Quero falar sobre sororidade.

“Tenho muito mais amigos homens, prefiro as amizades masculinas...” 

Eu já fui uma mulher que pensava assim, e já me orgulhei muito disso. 

A vida foi passando, os acontecimentos se sucedendo, a maturidade foi chegando, o amor próprio fortalecendo... Percebi que quando criticava uma mulher, estava criticando a mim mesma. Quando despreza outras mulheres, desprezava a mim. No meio do caminho fui descobrindo alguns movimentos de mulheres que, dentre outras coisas, trabalhava a sororidade na prática, “real oficial”. E o meu respeito, amor e admiração pelas mulheres só aumentou. Hoje, exatamente HOJE, enquanto reflito e escrevo esse texto, percebo que só aumentou porque o meu respeito por mim, a confiança em mim, o amor por mim e a admiração por mim, também aumentaram. 

Hoje é um prazer cultivar amizades com mulheres. Aliás, pensando aqui, quem sabe, quanto mais mulheres estiverem unidas e juntas, menos homens babacas se espalham pelo mundo (calma, rapazes, não vou generalizar, tem muito cara incrível por aí, e multiplica, senhor!). Simplesmente porque não vai ter vez, não vai ter espaço mais para homem babaca. Bem pela Teoria da Evolução de Darwin, ou esse homem “se orienta”, ou pela seleção natural, desaparece. 

O incentivo à existência de homens mais conscientes, evoluídos, respeitosos, feministas (homens e mulheres, aprendam o que significa FEMINISMO, obrigada @pripires por abrir meus olhos), é apenas uma das vantagens quando mulheres dão as mãos. São anos convivendo com o machismo, homens e mulheres criados pelo machismo de homens e mulheres, que por sua vez, foram criados por homens e mulheres machistas, e assim vai. Já existiu uma época em que mulher não podia votar!! E isso foi ontem! Os direitos vão se igualando, mas ainda há muito pelo que lutar. Talvez uma luta mais sutil (em muitos lugares nada sutil), o machismo velado (às vezes escancarado). A reflexão sobre as relações. E penso que o papel da mulher nisso tudo, de colocar limites, é fundamental. Após séculos aprendendo de forma “errada”, hoje, é por uma mulher que o homem vai aprender como deve trata-la. Pelos limites que são impostos, com firmeza. “Não é não”, por exemplo. E para quem tem dificuldade de dizer “não”, por amor, aprenda. É um dever seu. Por todas nós.

Por outro lado, penso que chega a ser triste para a maioria dos homens o fato de não ter com frequência a oportunidade de experenciar o que a gente naturalmente experencia: uma roda de apoio, de troca, nos momentos mais devastadores. Homem sofre sim, e geralmente sofre sozinho, porque não tem o que a gente tem, essa liberdade de falar de sentimentos, de desabafar, abrir o coração e se amparar, umas nas outras... Então, nesse dia dedicado a falar da mulher, quis trazer esse ponto, para que a gente aprenda e possa valorizar e cultivar isso, a amizade entre mulheres, dia a dia. Porque estar nessa roda de mulheres, não tem preço. 

Ter amigos homens é maravilhoso, é divertido, é aprendizado sobre esse universo masculino. Agora, nada substitui uma boa amizade feminina, mulheres quando escolhem se unir.

Essa mensagem é para você, que tem amigas incríveis, como eu. Cada dia mais apaixonada por elas, por conseguir criar, dia a dia, uma relação cada vez mais sólida, de confiança e apoio mútuo... ❤❤ Simmmm, pode ser que tenha mimimi, drama, falação, pode ter discordância.. Mas as relações se constroem no caminho, no diálogo. Nós mulheres estamos aprendendo, juntas, a nos relacionarmos. Foram anos sendo incentivadas a disputar, competir umas com as outras. Mas eu te digo: esse tempo acabou. 

Tamo juntas? Ninguém solta a mão de ninguém, combinado? Compartilha esse texto com aquelas mulheres que você ama, admira, que te inspiram. Aquela mulher que precisa ler e refletir sobre isso. Aquela mulher que, talvez, mereça suas desculpas. Sem culpas, apenas como parte do processo de reconhecimento, cura e evolução.

“Me levanto sobre o sacrifício de um milhão de mulheres que vieram antes e penso “o que é que eu faço para tornar essa montanha mais alta, para que as mulheres que vierem depois de mim possam ver além” (Rupi Kaur).

Um feliz todos os dias, deusas!




Gabriela ama ser mulher. E a cada dia aumenta mais seu amor por si, por você, por nós.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Renascer

Foi eletrizante.

Ele  exibiu todas as principais características de sua combinação perfeita.  Um pouco mais alto que ela, penetrantes olhos azuis, extremamente ansiosos e atenciosos.  Olhando para trás no tempo, apenas anos (muitos anos!) depois ela percebeu que era um comportamento obsessivo e compulsivo.  Mas só se pode ver isso em retrospectiva.

Ele a seguiu por semanas e teve um sorriso radiante toda vez que a olhava.  As mensagens de texto insistentes eram engraçadas e sedutoras.  Ele demonstrou extremo contentamento, entusiasmo pela vida.  Ele era alegre e em forma.  Mas acima de tudo, seu mundo parava toda vez que ele olhava para ela.  Ele disse que nunca se sentiu assim antes, estava sendo tão impulsivo ... Na verdade, ele dedicou sua vida a ela.  Por 18 meses.

Quando tudo mudou?  Apenas uma coisa precisava mudar.  Quando o suprimento se torna preso.  É aí que todas as mudanças acontecem.

Repentinamente ela não tinha mais voz, não tinha escolhas.  Ela não podia escolher onde morar, para onde ir, onde os móveis seriam posicionados na casa.  Suas amigas não eram boas o suficiente para dedicar seu tempo.  Ela não era boa o suficiente para cozinhar, criar os filhos.  Ela tinha que esquiar, acampar.  Oh meu Deus, quem não gostaria?  Ela tinha que gostar das atividades dele.  Todos no mundo gostavam, por que não ela?

 Sua rede de relacionamentos era alimentada o tempo todo com informações para se distanciar dela.  Ela é louca, era a palavra usada por aí.  Da mesma forma que seus pais e sua família foram alimentados, eventualmente até no trabalho isso se descencadeou.

 Ela começou a perder a luz.  Seu desejo pela vida.  Ela ficou contida e cheia de dúvidas.  Ele a amava, então ela pensou que ele poderia estar certo.  Talvez ela estivesse mesmo louca.

 A questão central nos relacionamentos obsessivos, compulsivos e controladores é a falta de auto-estima.  Ele não podia acreditar que ela ficaria por opção.  O medo do abandono era insano.  Na verdade, ele sabia que, trancando-a, eventualmente ela voaria.  Por que não?

O treinamento era constante: comportava-se e ela recebia presentes incríveis.  Se ela não fazia que era solicitado, ela recebia tratamento silencioso.

6 anos em de regeneração pessoal.  Auto-crescimento, auto-crença, exaustão emocional entre auto-culpa e resistência.  Se ela tentasse dizer uma palavra, ele diria mais alto.  Até que ela desistisse de falar.

 Cercado por mentiras, falta de apego e necessidade de retratar para o mundo que era uma família perfeita.  Uma prisão sem grades.  Uma existência solitária.  Afinal, quem acreditaria que o cara mais legal teria um lado tão sombrio dentro de casa?

 Até que ela ficou pronta.  Emocionalmente pronta.

 Mas ela nunca estava preparada para o que viria a seguir.

 Então ele diz: você está me deixando?  Você está louca?  (A mesma conversa maluca, como sempre.).  Você acha que encontrará alguém que faça tudo o que eu faço por você?  Você é nada.  Sua carreira foi por minha causa, os filhos são por minha causa, nossa casa é por minha causa e nossos amigos estão a nossa volta por minha causa.

 Mas ela estava pronta.  Ela tinha auto-crença suficiente naquele momento para não ouvir mais uma palavra.

 A próxima estratégia usada foi oposta: persegui-la com constantes mensagens de texto obsessivas, planos de encontros, presentes caros, oferecer-se para viajar para ilhas paradisíacas e fotos de seu corpo (como se assim se apagariam todos os feitos passados ​​e a crueldade de uma existência isolada e  triste).

 Então, para provar que ele estava certo.  Afinal, ele é o Sr. Certo, ele sempre esteve certo.  O plano maligno começa.

A despejou de sua própria casa (para nunca mais voltar, ela nunca esteve lá novamente, nem mesmo para recolher seus pertences pessoais).  Não lhe foi permitido  ver as crianças por um período inaceitável.  Desabrigada por um mês, sua imagem denegrida no trabalho onde “ela foi instruída” a não voltar, com direito a menos da metade do que construíram juntos, reputação prejudicada profissionalmente, pessoalmente e com seus próprios filhos.  Nem vamos mencionar as mentiras envolvidas para que a polícia viesse atrás dela para desviar  sua atenção de seus direitos para o modo de sobrevivência.

 Estilo de Hollywood.  Suas próprias realizações e carreira de vida construídas com tanto foco foram destruídas.  Por uma pessoa.  Quem não se amava o suficiente para deixá-la ir em paz.

 Raiva, engano, mentira, força, traição, escuridão, egoísmo e ciúme.

 Mas ela é forte.  E ela acredita em si mesma.  Ela nunca pensou que seria novamente feliz.

Feliz.  E ela é.  Ela está livre de novo.  E agora ela pode brilhar.  O sorriso aberto dela diz tudo.  Ela é livre.

Lil sofreu por muitos anos e agora escolhe olhar para o que funciona e deixa a vida mais leve.

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