domingo, 17 de abril de 2011

Brincadeira (?!?)

Na terça-feira dia 12/04/11, aconteceu aqui na minha cidade o seguinte fato:

Uma moça de 23 anos, negra, grávida de 7 meses, operadora de caixa de uma conhecida rede de supermercados aqui da cidade, foi abordada, enquanto trabalhava, pelo fundador da rede, um "digníssimo" senhor de 80 anos, que lhe perguntou:

"– Você sabe a semelhança entre um Fusca quebrado na esquina e uma negra barriguda?"

A moça, de início, não compreendeu a "brincadeira", ao que uma colega prontamente lhe disse:

"– Você não entendeu? Os dois estão esperando um macaco!"

Humilhada, a moça foi chorar no banheiro do supermercado. Sem condições de continuar trabalhando, pediu licença, foi para casa, e, mais tarde, procurou a polícia para formalizar uma denúncia.

Obviamente que tal caso obteve grande repercussão aqui na cidade e, é claro, todo mundo queria dar o seu pitaco a respeito (como, aliás, eu estou fazendo agora...).

Ora, é claro que eu sei que casos como esse ocorrem diariamente em diversos locais e não apenas aqui. Também sei que, infelizmente, nem todos tem a coragem que essa moça teve.

Mas o que me espanta, não é o fato em si (fatos como esse não me espantam apenas, eles, na verdade, me dão asco) e sim os comentários de algumas pessoas acerca do ocorrido.

Muitas pessoas (ainda bem!) reconhecem o absurdo de tal "brincadeira", ainda mais a moça estando grávida e, o que é pior, tal brincadeira ter partido de alguém com uma posição institucional hierarquicamente superior a dela. Outras pessoas, contudo, lançam comentários do tipo:

"- O que essa pobretona quer é dinheiro... Agora vai conseguir uma indenização enorme só por causa de uma brincadeirinha...

- Era só o que faltava... Agora só porque alguém ri de mim eu vou sair por aí aos quatro ventos querendo processar todo mundo?

- Essa aí agora conseguiu tudo o que queria... Deu uma de vítima, de coitadinha, ficou conhecida e, ainda por cima, vai levar uma bolada do cara que só quis fazer uma brincadeira com ela...

- Isso de querer processar o cara dizendo que ele chamou o filho dela de animal é ridículo! Então eu também vou me sentir ofendida toda vez que alguém me chamar de gatinha e vou querer processar... Afinal de contas, estão me comparando a um animal também, que nem no caso dela..."

Não consigo compreender como algumas pessoas possam achar normal alguém fazer esse tipo de brincadeira maldosa e de duplo sentido!

E o pior é que quando alguém, como é o caso dessa moça, decide não se calar diante desse preconceito velado, acaba sofrendo represálias, acaba sendo acusada de ser "um a aproveitadora barata", de "se fazer de vítima", de "querer aparecer" e por aí vai...

Lamentável!

Déia escreve aos domingos e acredita que nunca deixará de se espantar com a estupidez alheia...

8 comentários:

Anônimo disse...

É algo lamentável...
É uma violência que se apresenta vestida de preconceito.
Mais um caso entre tantos milhões.
Malú.

Roberta Pedro disse...

É lamentável que ainda se faça esse tipo de "brincadeira". Realmente, é de dar asco!

Inaie disse...

Aplaudo a coragem dela e espero que ela consiga mesmo uma boa indenizacao! E que isso sirva de licao a tantos engracadinhos por ai.

Lamentavel o comentario da tal "gatinha"...

Eduque-Q disse...

Aqui em Minas temos um ditado: "Pimenta nos olhos dos outros é refresco." Como nunca é demais recordar, um versin de Castro Alves:
"Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar..."
(Navio Negreiro)
--
Meus sites:
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twitter.com/poemasecontos

Andréia B. Borba disse...

olá Malú, Olá Roberta, Olá Inaie, Olá Edu!

Malú, sim, de fato a situação toda é absurda... Bjs querida!

Roberta, realmente, é difícil não ficar nauseada... Bjs querida!

Inaie, pois é, também espero que ela consiga ser bem indenizada e também aplaudo a corgame que ela teve. Quanto ao comentário da "gatinha"...bem, deplorável é o mínimo que posso dizer a respeito, sabe? Bjs querida!

Edu, lindo poema que você nos trouxe. Obrigada. E muito pertinente, aliás... Abraços querido.

Carlinha disse...

Ei, Déia. Realmente é um absurso que essas coisas ainda aconteçam. Cada pessoa é um ser único e deve ser respeitada por suas características, religiosidade, escolhas. O problemas das pessoas em geral, é que se acham no direito de julgar, agredir, punir, zombar do que é diferente de si. Precisamos é nos educar para aceitar o próximo como ele é e para ter mais amor no coração. Já sofri preconceito de várias formas e sei como é doloroso, mas a gente amadurece e passa a entender a fraqueza do ser humano. Certíssima ela de processar esse senhor. Tomara que ganhe uma indenização enorme, quem sabe assim ele aprende.
Bjos, Carla

Advokete disse...

Pelo amor de Deus, hein, gente? Ainda existir este tipo de coisa... Um amigo me contou há um tempo que a sobrinha de 7 anos, uma moreninha linda de cachinhos castanhos, pediu a mãe pra pintar os cabelos de louro porque não queria mais que na escola uma coleguinha a chamasse de pretinha. Olhem que absurdo. Deu uma confusão danada na escola, claro. Mas fiquei pensando foi na menina, tadinha, novinha assim e passando por este tipo de absurdo...

Andréia B. Borba disse...

Oi carlinha, oi Advokete!

Carlinha, realmente, as pessoas são extremamente rápidas para emitir julgamentos dos mais variados tipos. E o fazem com uma irresponsabilidade incrível! Também acho que a moça agiu certo ao não se calar. Porém, me espantam os comentários dos não-envolvidos-na-situação... Que triste! Bjs! Déia

Advokete, que história lamentável essa sua... Pobre criança! Desde cedo começa a perceber a crueldade existente na sociedade... Penso que cabe aos pais prepará-la para essa e muitas outras situações chatas que certamente virão... Bjs! Déia

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