quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Bem feito, Miss Perfeitinha

Dia destes em um avião dei de cara com um amigo da adolescência. Eu não considerava o cara um conhecido, era amigo, poxa. Andávamos juntos, saíamos junto, passávamos juntos o recreio e eu estava sempre nas festas da casa dele. Ele se auto-intitulava gótico, gostava de poesia, filosofia e The Cure, tinha o rosto bem branco, se vestia de preto, visitava cemitário e usava sobretudo em 90% dos dias.

Eu tinha namorado e ele também, nunca rolou nada entre a gente, nem vontade, éramos amigos, e pronto. Dividíamos uma paixão: eu pelo espaço e ele pelo céu. Eu queria ser astronauta e ele, piloto. Um dia emprestei para ele um arquivo enorme que eu tinha de reportagens, colagens, anotações e fotos de astronomia e extraterrestres. Passei anos juntando aquilo, que não valia nada (eram épocas sem Internet), e hoje eu mesma não usaria para nada, mas era minha tetéia.

Ele foi embora da minha cidade, saiu do país, ficou um tempo indo e vindo, mas vira e mexe voltava lá para visitar a mãe. Então, ele sempre me ligava, do tipo assim “ei, tô aqui no boteco da esquina, chega aí”. E lá eu ia, ver meu amigo, não importa o que estivesse fazendo, pois tínhamos papos incríveis. Assim, de bocados, eu acompanhei as dificuldades dele de se tornar um piloto, de até pensar em desistir e ele acompanhou meu caminho, que de astronauta só ficou a cabeça na lua.

Então ele sumiu. Procurei-o para convidar para minha formatura e não o encontrei. Paciência, é a vida. Até o dia no avião. Sabe aquele momento em que está todo mundo já de pé, se acotovelando pra ver quem sai primeiro, mas ainda empacado lá dentro e levando mala na cabeça? Pois é, de repente o guri estava plantado do meu lado, no corredor, com sua fardinha de piloto, plaquinha de metal com o sobrenome, crachá da companhia e nariz empinado. Não tive dúvidas, nem pensei em quantos anos eu não via a pinta e larguei imediatamente um FUUULLLAAAAAAAAAAANO DE TAAAAAAAAALLLLLLLL, há quanto tempo, que legal te ver aqui!!!!!!

Recebo um olhar misto de interrogação, dúvida e medo (quem é essa doida?), seguido por um oi sussurrado e sem graça. Ele não me reconheceu! Eu tenho certeza que não! Gente eu não mudei nada desde que eu tenho quatro anos (lógico que com os sinais de que sou hoje uma balzaca, mas a cara é a mesma, inclusive hoje estou mais parecida com a época que eu andava com ele). No silêncio constrangedor, a bocó aqui ao invés de calar a boca, não. “Pois é, eu estou morando no interior de São Paulo, e tu, o que ta fazendo aqui?”. Pergunta vomitada merece...

“Voando”, respondeu a pinta. “Tchau”. GGGRRRRRRRRRRRRRRRRR.

Bem feito, Miss Perfeitinha. É isso que dá se apegar às pessoas e às coisas e seguir com esta mania de agradar. Onde se viu pensar que os que te consideraram um dia vão sequer te reconhecer no futuro? Segue agradando e fazendo as vontades de todos, segue, pra ver onde é que tu vai parar... Vê se aprende logo a dar valor pra quem merece e no momento certo. E o resto... vê se esquece, a culpa não é toda tua quando uma amizade não rola mais. Ao menos vê se lembra de convidar menos de trinta pessoas na próxima festa que quiser fazer e dizer para o piloto metido no próximo vôo “E AÍ GÓTICO, QUANDO É QUE VAI DEVOLVER MEU ARQUIVO, TENS IDO AO CEMITÉRIO?”, ao invés de um “ooooooiiii queriiiiiido!”.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Anda bem ausente, mas sempre na escuta e operante. Ultimamente tentando aprender a dar mais valor para quem merece e a não se sentir culpada por deixar pra lá o que não é pra ser.

4 comentários:

Lila disse...

Se e quem eu estou pensando... ele virou piloto, como assim??????????????????????????
Me conta isso!!!!

Milena disse...

auhauhauhauhaua
"voando" vai ser minha resposta padrão para perguntas que eu não sei a resposta daqui pra frente!!!
bjos

Anônimo disse...

Putz! Um puta do babaca que o camarada é...
Por isso que vivia no cemitério, amizade só da mortualha, pois não merece a amizade nem de sua própria alma!
Sérgio.

Dennia disse...

Que cara babaca!!
Não se chateie e nem generalize, menina, tenho certeza que a maioria dos seus amigos de tempos atrás continuam merecendo sua estima e carinho.
Bjo

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