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quinta-feira, 2 de maio de 2013

(Mais uma vez) sobre o maldito querer


Tenho esse (mau?) hábito de querer muito. Geralmente não são coisas, mas situações. O querer vem chegando, de mansinho, tímido, calado. Começa como um incômodo breve, fugaz, uma coceira que vai crescendo. Lança um lampejo de dúvida, um rabicho de ideia, pinta um esboço de um quadro na mente, que vai se enchendo de detalhes aos poucos, até que adquire os ares de uma realidade paralela. Até o ponto em que aquele querer torna-se imprescindível, e não tê-lo, insuportável. Como posso ter vivido sem ele até hoje? Como posso continuar sendo feliz sem encontrar uma forma de trazê-lo para minha vida?

O problema é que o tal querer é egoísta pra caramba. A não ser que ele seja uma coisa física, palpável (o que em 98% dos casos não é o meu caso), para concretizá-lo, sem a menor criatividade, ele exige, demanda o abrir mão de outras situações, que invariavelmente já foram quereres do passado. É como se fôssemos feitos de uma caixa quadrada, assim mesmo, bem simplesinha, onde lá dentro só houvesse espaço para X experiências simultâneas. E para acrescentar uma nova, adivinhe, é preciso abandonar uma antiga. Fácil nas primeiras primaveras da vida, quando qualquer esforço parece nos colocar em uma situação mais interessante que a anterior. Quem não troca um estágio muito legal por um emprego meio boca? Festa, balada, loucura por um amor de verdade, uma família? Gastar os tufos com bobagens por uma (ou mais) viagem incrível? Um mega apê alugado por uma casinha que é toda sua?

E depois? Venderam-nos tanto a ideia de que SÓ é preciso batalhar (ok, na maioria das vezes, batalhar muito) pra termos o gostinho das nossas conquistas. SÓ é preciso desenvolver essa ou aquela aptidão, aprender a lidar com tal dificuldade, aprender a pensar de outra forma, abraçar outras opiniões, conhecer outras pessoas, fazer de um jeito diferente, aprender outro idioma, fazer uma pós. Simples, né? Não é! Mas lá vamos nós, seguindo a cartilha à risca, com determinação ferrenha, movidos pela certeza da conquista lá na frente. Até que chegamos lá, mas parece que, quando acontece, cada degrauzinho que avançamos foi nos fazendo ver o mundo de outra forma, e o raio do nosso querer foi mais além. É como se corrêssemos atrás de uma cenourinha que vemos à frente, mas que na verdade é uma isca, na ponta de uma vara de pescar presa às nossas costas. Malvados!

Em meio ao meu tanto querer, nos últimos tempos eu andei descobrindo coisas novas sobre minha pessoa. Como sempre, quando estou em dúvida a respeito de alguma coisa, costumo pensar no maldito gênio da lâmpada, ou na fada do dente, para tentar deixar mais claras minhas prioridades e tentar facilitar as escolhas. Surpreendi-me ao pensar que, neste exato momento, o que eu quero é não querer tanto. E surpreendi-me mais ainda ao perceber que lutar contra meus “quereres” têm me feito muito mais mal do que arcar com os riscos de correr atrás deles, mesmo sabendo do sepultamento iminente de quereres antigos, já conquistados e tão, mas tão confortáveis. Então, maldito gênio, fada, ou o que for, faça-me um favor: dêem-me coragem ou sumam da minha vida com suas opções do inferno!


Gisele Lins é balzaca das antigas, escreve aqui de vez em nunca, mas não larga o osso, a vontade de voltar a ter o que dizer (de preferência coisas novas, néam) e o orgulho das meninas que andam sempre por aqui.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Lá, e de volta aqui outra vez

Há mais de um ano não dou as caras por aqui. Eventualmente passei pela porteira e por lá fiquei de pé, encostada, observando em silêncio, ouvindo de longe os barulhos, as risadas, as polêmicas, enquanto lambia minhas feridas em silêncio. Eu não queria entrar. Eu não podia.

Perder minha mãe abriu um buraco tão grande no meu coração que ele próprio se tornou um grande buraco, onde caí. De lá fiquei surda e apática a quase tudo que antes mobilizava meus sentimentos, inclusive vir até aqui. Eu não queria sentir, nem minha perda, nem nada. Eu não podia sentir, pois buracos não sentem dor, nem amor.

Fui engolida por papéis, assaltada por cartórios e impostos, estuprada por regras e burocracias e tele-atendentes surdos. Calei minha voz frente às injustiças que sempre fizeram meu sangue ferver. Curvei-me à soberania das mesmas e acabei afogada no fel da resignação que delas escorre abundantemente. Como recompensa, consegui viver um dia após o outro, sem coração, e um pouco anestesiada da sensação de ter tido a mulher mais importante da minha vida arrancada violentamente de mim. Desta vez, briguei feio com a morte, esta puta de quem antes eu sequer tomava conhecimento.

Quando as coisas começaram a se acalmar um pouco o ser debaixo da minha pele me incomodava muito e tive que mudar. Eu queria a mudança pela mudança, mudar porque podia. Mudei de emprego, então. Agarrei uma boa oportunidade como um náufrago se agarra desesperado a um tronco que corre pelo mar, antes de perceber que no fim dava pé onde o navio afundou. Há, que doce o consolo de escalar outras preocupações para esquecer as que já existem. Pena que nunca houve um beberrão de pinga que tenha se curado de alcoolismo bebendo cerveja.

Até que não fiz feio, fiquei bem orgulhosa de mim e bem feliz com a paisagem que eu via à frente, mesmo tendo que, aos poucos e quase sem perceber, abrir mão de tantas coisas tão fundamentais. Mil quilômetros por semana, doze horas por dia e os monstros do trânsito aliaram-se às minhas assombrações. O ser debaixo da minha pele passou de novo a me incomodar muito, ele sentia saudades e estava tão cansado de tudo. Fiquei com saudades de eu mesma, sabe? E até de coisas legais que antes eu tinha e nem sabia que eram legais. Re-pedi demissão, re-mudei de emprego, re-voltei para minha velha vida.

Só que agora percebo que não sou mais a velha eu, o que está tornando minha velha vida bem mais jovenzinha. Genuinamente não me importo com tantos dedos apontados dizendo que bem feito, teve que voltar, não foi? Não tive que nada, nem pra ir nem pra voltar, escolhi cada dia deste ano do cão. Genuinamente tenho me importado com tão pouco! Eu não quebrei a cara como muitos torceram e acreditam. Eu fui e voltei novinha em folha.

Amadureci na peleia, vi horrores e volto agora com o pala em tiras, cansada. Mas não venho só, acompanham-me o silêncio sóbrio de quem vem da guerra, a dor que nunca cura de quem perdeu um ser amado, a coragem que precisei convocar e não mais me abandonou e, com muita surpresa, a melhor de minhas companhias: a gratidão de ter tido oportunidades e outras pessoas amadas para me ajudar a levantar.

Hoje ao passar de novo por esta porteira, resolvemos todos entrar, tomar um mate e dar um alô. Quem sabe numa hora destas eu não tropeço por aí no meu coração, de buraco bem tapado e criando raízes debaixo de uma figueira?

Gisele Lins costumava escrever aqui esporadicamente e quer muito conseguir voltar a atravessar esta porteira.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Coisas da morte

A morte também ensina.

A primeira coisa é que não se está preparado para ela, seja ela já esperada ou não. Sim, é clichê, mas é a mais pura verdade.

A segunda coisa que ela te ensina, assim que chega, é como acessar uma força que não sabemos que tínhamos, que nos move como fantoches, tomando providências e decisões aqui e ali enquanto anestesia nossos corações. Só que esta força vem na forma de uma cota, que de repente acaba.

Então a morte te ensina que as pessoas, próximas, ou não, que gostam de você ou não, não sabem lidar com ela, Porém, não conhecendo seu rosto, as pessoas traduzem este sentimento como não sabendo lidar com você.

A morte também te mostra o quanto nós somos egoístas, sem exceção. O egoísmo começa com a nossa própria dor, pois a dor não é pela pessoa que se foi, em si (afinal, ela se foi) mas por nós mesmos, pelos momentos que não viveremos com ela, pela nossa própria solidão. Então o egoísmo se estende à dor dos outros que ao saberem que você perdeu alguém que amava, imediatamente pensam nos seus e em si mesmo, e expressam isso sem pudor. O estranho é que de alguma forma (também egoísta) isso te conforta.

Então é hora da morte te ensinar a ensinar os outros sobre como lidar com você. Primeiro você ensina que essa história de “meus pêsames” e “meus sentimentos” é horrível. Tudo bem que ouvir isso de alguém que não te conhece muito bem é até bom, pois a distância fica clara e um espaço que é muito só seu de certa forma se preserva. Você merece, afinal, não desmontar a cada vez que se fala sobre o assunto e estas expressões são a senha para calar. Dos que te amam, porém, o que conforta mesmo é o abraço apertado calado, ou acompanhado de um bom e velho “putaqueopariuquemerdaéessacaraleo???!!!”. Isso é muito confortante.

Então a dita te mostra como funciona a teoria da relatividade. Todos, absolutamente todos os seus problemas do dia-a-dia, sem exceção, passam a não ter importância alguma. Nada. As pessoas te olham assustadas quando, numa situação qualquer em que você viraria bicho, resta apenas seu olhar vazio e calado. Tudo perde a relevância e isso abre um espaço enorme em você que por um segundo até parece ser bom e confortável, depois de tantos anos que você se enche de problemículas estúpidos. Mas logo este espaço vira um grande buraco, quando você percebe que você simplesmente não tem com o que preenchê-lo. E então, você mesmo passa a se sentir um buraco ambulante.

Então, a morte mostra para seu buraco a importância das pessoas na sua vida. Tenha certeza que serão muito poucas as mais importantes, mas que o tamanho da importância delas vai crescer tanto, que elas se tornarão gigantes perto de você. É com estas pessoas que você vai ficar em silêncio, sem perceber. E é o silêncio que você quer, mas você não quer a solidão que ele trás. Você vai querer passar, e vai passar, a maior parte do seu tempo fazendo coisas que te tirem a consciência deste mundo: lendo, vendo um filme, limpando sua caixa com 3500 e-mails, arrumando a gaveta de talheres. Mas ainda assim não vai querer estar só e sua gratidão ao ver alguém, dentre estas poucas pessoas especiais, ao seu lado, será tão gigante quanto ela a seus olhos.

Você aprende também que não há fé que amenize seu sentimento. Não adianta nem ser espírita, acreditar que é só uma passagem, que a separação é impossível, sendo apenas fisicamente temporária. Não adianta. A fé, seja qual for, trará um pouco de equilíbrio, fará você perceber quando estiver surtando sem noção, mas não vai amenizar o que você sente e a sua vontade de que tudo isso fosse um pesadelo do qual você gostaria de poder apenas acordar e dar um abraço muito forte naquela pessoa e dizer o quanto você a ama.

Então, com o passar dos dias, você vai querer honrar a vida daquele que não está mais aqui através da sua vida. Vai querer ter a vida que sempre quis e não pode, ou por algum motivo ainda não conseguiu completamente, pois afinal, de uma hora para outra, de um segundo para outro, você poderá não estar mais aqui também. Então, o desejo de mudar de emprego, de mudar de país, de mudar de problemas, de ter um filho, virá ardendo, queimando a sua pele e você sentirá uma lufada de ânimo e uma gratidão imensa ao ser querido que provocou isso com sua partida. Até perceber que você está juntando todos os caquinhos, todas as suas forças, a cada amanhã, para poder levantar, sair da cama, trabalhar, tentar viver. Até perceber que neste momento você mal tem forças para mudar de roupa, que dirá mudar de vida.

Por fim você aprende a torcer para que o tempo passe logo e que chegue logo a época de sentir saudades sem doer, que é o que todos dizem que acontece mas não é o que você vê. A morte também ensina, mas quem foi que disse que se quer aprender alguma coisa com ela?

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Seus maiores desejos hoje são: 1) que a morte seja mesmo como a carta do tarô, que tantas vezes confortou-lhe ao longo da vida acenando a vinda de uma transformação e 2) que tudo o que sempre acreditou seja mesmo verdade e que seu amor, apesar da dor, possa atravessar mundos e abraçar a pequenininha bem forte, onde ela estiver, levando-lhe ainda toda a sua gratidão.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Plano de Saúde ou Filho de Uma Égua, Ladrão, Sem Vergonha?

Meio por acaso minha mãe descobriu que tem dois pequenos aneurismas na artéria cerebral. Eles podem ter nascido com ela, ter se desenvolvido há muito tempo ou mesmo nunca chegarem a se romper. Porém, a chance de poder prevenir uma cirurgia arriscada no futuro, caso um deles resolva se romper um dia, foi considerada uma bênção pelo médico, pela família e por ela mesma. Digamos que é o equivalente a você ficar sabendo que existe uma chance, pequena, mas bem maior do que o normal, do avião que você pretende viajar amanhã cair e simplesmente você pode escolher não viajar.

Simples, não? Deveria ser, mas não é o que o plano de saúde que ela paga há 38 anos acha. A tal cirurgia preventiva é praticamente uma mágica da medicina moderna e hoje em dia tem um montão de gente que faz. Ela funciona por cateterismo, ou seja, o doutor faz um furinho no seu quadril, coloca um caninho por ali, que vai se deslocando até o cérebro e lá coloca uma “capinha” no aneurisma. Pronto! Anestesia geral, poucas horas de UTI para a recuperação, três dias no hospital, algum desconforto no quadril (mas possivelmente nenhum na cabeça) e pronto! Existem duas outras opções: deixar como está e torcer para as bolinhas de sangue nunca se romperem, ou fazer uma cirurgia tradicional, onde se abre o crânio para grampear os aneurismas, o que resulta em todos os riscos hospitalares e de infecções envolvidos, além do tempo de internação ser, no mínimo, quatro vezes maior. Alguém aí escolheria alguma destas opções? Hã?

Pois sim, o Sr. Plano de Saúde, que não autorizou a cirurgia, que seria feita na semana passada. Ele exigiu, um dia antes do procedimento, que fossem realizadas novas consultas, que um especialista em fazer o procedimento que abre o crânio emitisse um laudo, que fosse comprovada a urgência. Eles alegaram que a cirurgia que abre o crânio era mais em conta, ACREDITA? É lógico, não era a mãe deles, né? Imagine a sua cara, agora, naquele caso do avião, se de repente lhe dissessem que, na verdade, você não pode desistir daquele vôo que tem boas chances de cair, pois para eles garantir um pára-quedas meia boca pra galera é mais barato, sabe? Isso é o cúmulo do absurdo! Não têm vergonha, não? Todos os dias se vêem histórias parecidas, mas infelizmente o bicho pega mesmo quando é com a gente que acontece.

Cirurgia em stand by, passagem aérea cancelada, malas desfeitas e tensão total da minha mãezinha (e da galera lá de casa), com o coração na mão pra resolver logo este perrengue. Sorte que lá em casa o povo entra na fila duas vezes pra nascer raçudo e minha mãe foi atrás de tudo, sozinha, e rebolou pra resolver todos os empecilhos esdrúxulos que eles impuseram, ou convencê-los com jeitinho e sorrisos de que não era necessária tanta parafernália. Enquanto a estressada aqui catava advogado, liminar e muque, pra dar na cara do primeiro Sr Plano de Saúde que aparecesse na frente. Não foi preciso, sete dias depois e cá estamos, malas prontas, passagens aéreas, cirurgia autorizada, mãezinha mais calminha e o papinho aquele com o Cara-Lá-De-Cima em dia.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Nesta, faz uma pausa de sua eterna revolta com o mundo para ficar com sua mãezinha e conversar com Deus.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O pesadelo

Sonhei que acordava numa vida diferente e estava em paz, e radiante.

Cabelos longos, trançados, saia ampla, rasteirinha, cara limpa. Acordava cedo, saía para correr sentindo o pulsar da cidade grande, na volta lia o jornal, tomava o café preparado pela secretária e seguia a pé para a livraria, a minha livraria-café. Escolhia a trilha sonora do dia, fazia uns telefonemas para finalizar a organização do lançamento do livro que eu estava produzindo de uma escritora-mirim. Zapeava os e-mails, atualizava o blog e a agenda do site da livraria, fazia aula de francês on line. Recebia uma querida amiga que viera almoçar comigo no café da livraria (ela morava no mesmo continente, no mesmo país, no mesmo estado, na mesma cidade que eu, é lógico). Recebia alguns fornecedores e fazia algumas encomendas. Então ia para o atelier, continuar a criar e executar as bolsas artesanais que iriam para a exposição da Bélgica. Fazia um draft da bolsa que estava planejando para o presente de aniversário da minha irmã. Ia encontrar com o maridão na quadra de tênis e voltava exausta e faminta, achando ótima a idéia de jantar no tailandês. Curtia a lua abraçadinha no quintal, tomando um vinho. antes de ler um pouco e ir dormir.

No meu sonho eu sonhava que acordava numa vida diferente e estava em paz, e radiante. Era uma executiva que trabalhava com patentes para uma indústria emergente no interior do país.

Nãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaoooooooooooooooooo!!!!!

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A porta que bate

Das duas às cinco: oitenta e oito vezes a porta do escritório bateu.

Antes de chegar a contar tentei música clássica nos fones;

tentei concentrar mais;

tentei lembrar que é só uma porta.

Não deu.

Na primeira contagem lembrei do cartaz

“por favor não bata a porta”.

Eu mesma fiz, não autorizaram.

Não deu.

Na segunda contagem lembrei: foi proibido sentar na grama.

Na terceira que minha unimed é uma droga.

Na quarta que a comida é ruim.

Na quinta que o sindicato é pau mandado do patrão.

Então pensei que revistam os carros;

que revistam as bolsas;

que as britas acabam com meus saltos;

que engordei.

Daí eu lembrei que estou há milhas da civilização;

há muitos meses da pós-graduação.

Não quero saber de prestação.

Nem a pau encaro pedreiro e construção.

Pensei nos amigos ao longe.

No tempo em que tinha sonhos.

No tempo em que tinha tempo.

Na porta que bateu outra vez.

Não deu.

Não dá mais.



Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Esteve preste a surtar, mas nada como um bom psiquiatra e uma boa manicure nesta vida. Esta semana ouviu que “não punir os maus ofende os bons” e não pára de pensar em “e quando os bons é que são punidos?”.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Querer pela metade

“Não há coisa pior do que querer pela metade”.

Tem coisas que deveriam ser obrigatoriamente impossíveis se não por inteiro, como meio querer, meio amar, meio viver. Mas um belo dia você descobre que elas existem e, com elas, ainda consegue explicar o porquê vivemos com uma sensação perene de que falta alguma coisa. É lógico que falta! A outra metade!

Não é que eu seja insegura, ou demore demais pra decidir as coisas. É que me falta a outra metade do querer. Nesse mundão onde se pode tudo, se quer tudo. Como não há espaço (nem tempo) para ter tudo, começamos a querer pela metade, para poder querer mais coisas ao mesmo tempo.

Considere ainda que é possível querer muito algo pela metade, e será o caos. Eu quero MUITO trabalhar em um lugar com melhores condições humanas, mas eu gosto das atividades que eu faço hoje, então, também quero ficar. Eu quero MUITO morar mais uma vez fora do país, conhecer outra cultura, experimentar ser um profissional em outro lugar, aprender outra língua, mas justo agora o Brasil parece que vai bombar no meu ramo, será que não vou perder o bonde? Eu quero MUITO organizar mais a vida, fazer exercícios com regularidade, cuidar da alimentação, mas é tão bom chegar em casa cansada e fazer uma pestaninha, ler um pouquinho, ficar abraçadinha no sofá vendo besteira na tevê, sentar no quintal e tomar um vinho. Eu quero MUITO ir embora deste fim de mundo onde tem tantas limitações, mas aqui eu tenho uma casa legal, acordo com passarinhos cantando, durmo no silêncio absoluto, faço coisas triviais por um preço absurdamente barato, levo 12 minutos para estar no trabalho, não tenho trânsito (tirando o dia em que o trator vai na padaria na mesma hora que eu)...

E assim, vou permanecendo onde estou... Alguém sabe onde encontrar as outras metades de querer, que podem nos levar pra frente (ou para trás, mas ao menos para algum lugar) mais rápido?

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras.

Um pouco chocada com a constatação de verdade tão simples e cruel, mas feliz por ser esta a primeira frase a incluir no Cérebro, seu novo caderno de vida, que mora na Mafalda, sua nova capa de patchwork para caderno-livro onde mora a vaquinha mais linda do mundo. Presentes de Milena.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Lobotomia em série

Não sou fã de aplastar em frente à TV, nem tenho TV paga em casa, mas veio a acontecer de eu ficar super fã de um seriado: Heroes. Ta eu sei, é meio retrô para os dias de hoje, assim como não ter Twitter, bluetooth ou alguma nano-engenhoquinha que toca música e filme. Essa sou eu, fazer o quê?

Passei este carnaval lobotomizando com trabalho ou com as duas últimas temporadas inteiras de Heroes. Delícia. O personagem que eu mais gosto é um japinha chamado Hiro que consegue parar o tempo, ou se teletransportar para o passado e o futuro, é super ingênuo e vive se ferrando.

Eu queria viver neste seriado. Pra começar que, como nas novelas, ninguém trabalha e todo mundo mora num casão bem bonito que está sempre limpo e arrumado, ou é destruído por alguma explosão, incêndio, alagamento, mas não tem problema, no próximo episódio, como num passe de mágica, lá está o belo casão de pé.

Todo mundo tem algum poder especial. Antes eu queria ser este Hiro, e me interesso particularmente na possibilidade de parar o tempo. Já pensou, que delícia? Poder parar o tempo para fazer tudo o que é chato e ter todo o resto pra curtir? Só que na última temporada apareceu uma moça com a habilidade de ver o verdadeiro eu das pessoas, seu interior e seus anseios. Já pensou? Meu coração ficou dividido, mas como não tenho tido muitas pessoas ao redor acho que ainda prefiro o Hiro.

Nestas séries as pessoas são boas ou são más, sem meio-termos (que seríamos todos nós os reles mortais mais ou menos pra tudo). Aspectos emocionais ridículos são responsabilizados por comportamentos heróicos ou catastróficos, então, eventualmente os personagens viram a casaca completamente, tornando-se maus ou bons por motivos quase banais, como não ter tido a atenção de alguém. Daqui a pouco mudam de idéia e voltam a ser o que eram, sem muitos rancores. Já pensou? Que fácil!

A briga-mor está em impedir que o segredo destes poderes seja revelado ao mundo para preservar os especiais, ou divulgá-lo, para pesquisá-los e beneficiar os humanos comuns. Ao menos isso se parece com nossa reles vidinha, onde decidir entre seguir tentando se encaixar ou mandar tudo às favas é o que passa pela cabeça na maior parte do dia. Pena que quando sai da cabeça, geralmente não tem volta, como num seriado de televisão.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Ultimamente possui o incrível poder de pintar os dias de cinza.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A complaint full world

Contrapondo a idéia de que “focar nas coisas boas que se têm pode atrair mais coisas boas” (a complaint free world) eu ando preferindo a filosofia de que “para chegar lá é preciso saber o que se quer”. Será que também vale saber o que NÃO se quer (a complaint full world)?

O que não quero na minha família: ser manipulada, ou não poder dizer a verdade.

O que não quero no meu trabalho: que seja uma via de mão única, que seja uma mera fonte de renda ou meio de vida, que seja inflexível (deve ser tanto flexível quanto eu me disponho a flexibilizar por ele), que seja distante de onde “as coisas acontecem” e me deixe chupando dedo ao querer me envolver com atividades, cursos, grupos de discussão, pós-graduações que não estejam ao meu alcance; que divulgue que os recursos humanos são seu maior bem apenas como marketing, que me faça perder horas no trânsito, que fique num fim de mundo, que pague mal.

O que não quero no meu amor: que seja a única fonte de sorrisos ou o único depósito de lágrimas.

O que não quero nos meus filhos: que eles aprendam a me manipular, que eu os superproteja, que os faça dependentes ou mimados, que com eles acabe minha liberdade ou meu casamento.

O que não quero na minha casa: que seja escura, úmida ou fria; que permita a entrada de falsidade ou inveja; que seja a casa da mãe Joana; que nela eu me sinta só.

O que não quero para minha saúde: continuar sendo tão sedentária; ser hipocondríaca, ter que tomar boletinhas.

O que não quero para meus amigos: a distância, a rotina por demais atribulada, a falta de tempo, a falta de notícias, não saber diferenciar conhecidos de verdadeiros amigos, a lâmina fria de cobranças.

O que não quero para o meu futuro: mágoa, medo, chorumela, doença ou vergonha.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. A pulseirinha não deu certo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A complaint free world

Saí caminhando no sábado pela manhã com uma lista de coisas para fazer ou comprar na cidadícula que eu moro. Porém, as limitações daqui são ilimitadas e quase três horas depois de entra e sai de loja, vencendo um mar de gente, não consegui resolver / comprar quase nada. A individua aqui bufava e praguejava de raiva, sentindo-se uma idiota:

1º) por ainda ter a ilusão de que dá para resolver alguma coisa por estas paragens.

2º) porque perdeu uma bela e rara manhã livre de sábado para NÃO FAZER NADA.

Pra não desperdiçar o momento totalmente, eu entrei praguejando numa livraria-café bem fofa que tem por aqui, querendo comprar um livro e ficar por ali até me acalmar. A espuma já acumulava no canto da boca, ao perceber que, apesar de fofa, a livraria anda tão árida quanto tudo neste lugar, pois basicamente tinha biografias de celebridades instantâneas, livros espíritas ou evangélicos e livros de auto-ajuda. Já tinha passado a abelhar os carimbos coloridos, pois ALGUMA COISA legal eu TINHA que levar pra casa, quando bati o olho num livrinho: “Pare de reclamar e concentre-se nas coisas boas”.

Meu sangue subiu. Aquilo era uma afronta! Uma agressão imperdoável para o meu grau de TPM. Arranquei aquele livro da prateleira como se fosse possível dar um soco na fuça dele, e comecei a folhear aquela porcaria procurando a cara do infeliz que escreveu aquilo. Achei. E parei.

Não é que era interessante? É incrível como os editores brasileiros conseguem avacalhar com a tradução / adaptação de títulos de livros e filmes. Fui descobrir que o original (A complaint free world*) nem é tanto um livreco de auto-ajuda do tipo “como tornar um escritor rico gastando seu dinheiro com sua imbecilidade literária”. Ele conta a história de Will Bowen um tipo de pastor, ministro, líder espiritual de uma comunidade em Kansas City, Missouri, que percebeu que o grau de reclamações da tal comunidade era muito maior do que o aceitável.

Então, ele mostra toda uma análise, bastante simplista, mas muito verdadeira, das motivações que levam as pessoas a reclamarem tanto no seu cotidiano, dos “ganhos invisíveis” que ingenuamente os reclamões acham que obtém (como atenção, empatia, pena, ou poder manter a superficialidade que nos protege de um olhar mais profundo sobre nós mesmos) e pior, do quanto quem só reclama acaba atraindo mais catástrofe na sua vida, não por uma mágica força eletromagnética, mas porque desaprende a enxergar a vida com mais perspectiva e deixa passar as oportunidades de aproveitar melhor os bons momentos.

O livro propõe um desafio: passar 21 dias radicalmente sem reclamar. É lógico que algumas reclamações, as que resultam em algum resultado, são essenciais. As que contam para o desafio são as lamúrias, nhem nhem nhens, sarcasmos, maledicências, fofocas, frescuras, aiaiais que proferimos o dia inteiro apenas para encher o saco das pessoas ao nosso redor e piorar o nosso próprio saco cheio. Para “auxiliar” neste processo deve-se escolher alguma coisa física que represente sua intenção de não reclamar. No caso do livro, por exemplo, é uma pulseira roxa, que devemos mudar de braço cada vez que “escapar” uma reclamação, quando a contagem do tempo deve reiniciar. Também pode ser uma moeda, ou a carteira, que se troca de bolso, a aliança que se troca de dedo, ou o que for, desde que possa ser representado por um objeto.

Levei o livro pra casa, confesso que bem envergonhada por estar comprando aquilo, mas parei para refletir sobre o meu dia, a minha semana, o meu último ano. Putz. Resolvi aceitar o desafio, mas tendo que acatar com a sugestão do Sr. Puko, depois de quase desistir por recomeçar a contagem umas vinte vezes no mesmo dia: passos de bebês, comecei vencendo 21 minutos, passei para duas horas e dez e agora estou tentando vencer 21 horas. A pulseira muda tanto de braço que não sei se consigo os tais 21 dias no próximo milênio, mas honestamente, tentar ao menos ter meu mundo livre de reclamações tem feito muito bem, acho que inclusive aos que convivem comigo.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Entrando na fase II do bota-fora: livrar-se do lixo interior. *http://www.acomplaintfreeworld.org/

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Sacode a poeira

Comecei o ano resolvendo me dar um presente diferente, o de me livrar de tudo aquilo que eu sequer desconfie que não tem mais significado para minha vida. Não prometi nada, não fiz plano nenhum, não fiz listas, a ÚNICA coisa que eu defini é que este é o meu ano de bota-fora e só depois disso é que o meu 2010 vai começar, ainda que eu passe o ano inteiro nesta maratona e pule direto para 2011.

Eu sempre tentei fazer isso, mas nunca consegui ir até o fim e revirar TUDO o que tenho pra ver se merece ainda permanecer lá. Agora parece que vai, e algumas dicas que auto-inventei talvez possam ajudar os interessados em adentrar numa “jornada de purificar a alma se livrando de tralhas” (ou quem sabe assim eu mesma não fico com vergonha se não cumpri-las?).

- Tire do lugar tudo aquilo que você deseja arrumar (só fazer um “catadão” por cima não resolve).

- Agrupe suas coisas. Para cada categoria (roupas, livros, papéis, cosméticos, arquivos do computador, fotos, lembranças, amigos, pensamentos, etc.) divida os itens entre os que com certeza você quer, os que você não sabe e os que você com certeza quer jogar fora. Separe os que você quer jogar fora imediatamente e coloque longe do resto, para eles não voltarem para a pilha do “não sei” depois. Já vá guardando o que quer manter bem espaçado no armário (ou equivalente) pra você logo perceber o quanto tem de “coisas”. Deixe para analisar a pilha do “não sei” em outro dia.

- Interrompa imediatamente o processo quando encher o saco, e recomece outro dia, pois quando isso acontece a tendência de guardar de volta tudo que ia fora é grande.

- Ajude algum amigo a se mudar de supetão e imprima, a cores, em sua memória o trabalho que dá ter muitas coisas quando se quer ter mobilidade. No “mundo ideal” queira ser capaz de, a qualquer momento da vida, poder “levantar acampamento” e ir embora de onde estiver, em no máximo dois dias. Invente que há uma oportunidade aguardando e que ela precisa disso para chegar.

- Guarde cartas, fotos e pequenos objetos que lembrem pessoas e momentos queridos. Arranje um pequeno baú ou caixa para isso e se comprometa a ser este o seu baú do coração, mas quando ele encher, para alguma coisa entrar nele, outra tem que sair (imagine que seus netos vão detestar quando você vier toda boba mostrar suas memórias se elas significarem pilhas e pilhas de quinquilharias).

- NÃO GUARDE presentes que você não usou, roupas que não usa mais, mas não quer jogar fora porque foi a avó quem fez ou alguém querido que deu, livros que você não terminou de ler, livros técnicos muito específicos, roupas que não servem mais esperando você emagrecer, coisas quebradas que vão dar trabalho oi sair caras para arrumar, tralhas de hobbies que você não tem mais. A MEMÓRIA dos momentos e sentimentos que estas coisas trouxeram é que importa. Guardar coisas para se lembrar é burrice, pois se a caduquice chegar, você não vai mesmo saber o que significava este raio desta tampinha guardada tão embrulhadinha no lenço que você quer muito assoar o nariz.

- Junte em um mesmo lugar (quarto, canto, mala) todas as coisas separadas para ir embora, imagine que cada uma delas leva junto um quilo de sua banha acumulada e, por fim, evite ao máximo colocar as coisas no lixo, tentando encontrar um fim mais útil para o que você não quer mais (mas não deixe de colocar nada fora por não saber o que fazer com a coisa).

O melhor de conseguir colocar fora é ter que exercitar a fé de que o que quer que seja necessário, no futuro você terá condições de ter.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Rumo a ter aulas de tênis e fazer o passeio de balão assim que (um dia...) estiver mais leve.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Oração para os 31

Pai, protege-me desta nuvem escura de melancolia que parece já ter nascido comigo.

Abre meus olhos e meu coração para que eu não apenas veja, mas viva com a consciência de quão pequenos são meus problemas.

Extirpa de minhas entranhas esta urgência em tentar organizar, listar, arrumar a vida, perdendo meu precioso tempo de tentar viver melhor.

Arranca, Pai, do meu ser esta eterna sensação de ser e estar inadequada para tudo.

Remove meus pensamentos repetitivos tão recheados de medos e inseguranças, que franzem meu cenho e tornam-se amarga e pessimista.

Concede-me a dádiva da perseverança, para que eu não mais me decepcione por não conseguir o que preciso, apenas pelo fato de não ter tentado um pouco mais.

Não permita que o cansaço abra as portas para as ites entrarem, mantendo-me longe das sistites, amigdalites e gastroenterites. Sou muito grata pela minha saúde física de ferro, e já abusando, peço-Te um pouco mais de equilíbrio para minha saúde mental.

Permita-me ter boas noites de sono e que durante elas eu visite apenas lugares e seres de luz. Arranca de mim este eterno sono, torpor e a preguiça que me privam de tantas coisas.

Ensina-me a Te encontrar mais facilmente em pequenos momentos do dia, lembrando sempre que sou parte de Ti e ensina-me a meditar de verdade, acalmando meu cérebro inquieto para que possamos conversar mais de perto eventualmente.

Não permita que eu perca meus amigos, nem que me distancie deles. Ajuda-me a aprender a ser mais disponível. Ilumina meu coração, Senhor, para que eu saiba valorizar de verdade as pessoas ao meu redor que merecem ser valorizadas e para que eu saiba identificar e evitar com respeito e gentileza, mas com firmeza, aqueles de quem não tenho condições de aprender ou ensinar.

Ensina-me, meu Deus, a andar devagar pela vida, apreciando a paisagem, e ajuda-me a evitar ser apenas engolida por ela.

Leva embora meu orgulho, minha empáfia, meu silêncio e traga um pouco de humildade para seus lugares. Permita-me, Pai, que eu consiga ser menos crítica para com os outros e para com meu próprio umbigo.

Que o meu amor nunca se contamine com meus defeitos e minha amargura. Que ele saiba manter-se equilibrado e um porto seguro, como sempre foi. Que nunca nos falte diálogo e a intenção de vestir os sapatos um do outro e que para cada momento de preocupação e estresse que ele passe comigo, que eu seja capaz de proporcioná-lo muitos outros momentos que valham a pena.

Senhor, traga mais sorrisos para este mundo e para todos que nele estão. Amém.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. No sábado saindo de seu inferno astral pré-aniversário e adentrando um pouco mais a era balzaca.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Esquisitice é utilidade pública


Andei tendo uma overdose de filmes esquisitos. Começou com a 24ª reprise de Amélie Pouland (meu filme favorito, que tenho em VHS!) e terminou com tal de “Simplesmente Feliz” que o Sr Puko me trouxe esta semana.

Imagino que o Sr Puko anda me achando meio melancólica, então, tenta dar um jeito de me alegrar (para ilustrar a profundidade deste gesto dele, eu diria que ele me trazer super empolgado, um filme tipo iraniano, é o mesmo que eu chegar em casa super empolgada com a assinatura de uma TV com 450 canais e um controle remoto só para ele, com pilhas novinhass). Se bem que também pode ser apenas uma campanha frustrada pró-Playstation na residência.

De Amélie Pouland, sem comentários. Sr Puko diz que ela só não é igual à mim porque ela não faz listas e planilhas pra tudo (tenho certeza que faz, mas não coube no filme).

De “Simplesmente Feliz”, pai do céu... O filme se passa em Londres, o que já era pra ser garantia de que eu vou gostar. Conta a história de uma doida de trinta anos, professora primária e destrambelhada, com a família também destrambelhada, que resolve ter aulas de direção com um nazista maluco. A guria tem por princípio básico ser feliz como algo inerente, como uma escolha, não importando a M ou o paraíso que se encontrar a vida dela. O filme pode ter um Globo de Ouro (= o Oscar de filmes esquisitos, meus preferidos), mas é uma bosta.

Detesto filme, novela, músicas e afins que retratam o cotidiano de um modo real demais. Destes que querem te provar que todo mundo é meio perdido, meio maluco, meio sem rumo, que anda meio que tateando no escuro, sem ter certeza do que quer ou do que é certo. De realidade já basta a de cada um. Será que o roteirista deste tipo de filme imagina que observar a desgraça ou a bagunça alheias faz alguém se sentir mais aliviado por encarar sua própria bagunça como algo mais “normal”? Ou mais culpado porque não vê o mundo como a Polianna, quando tem gente passando por situações piores que as tuas? Eu heim?

Só sei que surpreendentemente estas drogas de filme funcionam. Andei capturando alguns momentos que não combinam com minha eterna melancolia, como pensar imediatamente que “eu sou maior que isso” quando alguma porcaria acontece. Ou ainda, depois de uma grande porcaria que aconteceu no trabalho, largar essa: “olha gente, temos duas chances com esta M do cão: usá-la pra valorizar tempos melhores que vamos ter, aqui ou em outro lugar, ou aproveitá-la pra nos fazer mais casca-grossa, para agüentar coisas piores que podem vir, aqui ou em outro lugar.”

Eeeeeuuuuuu falando Polianamente no trabalho? CARALEO (parafraseando Laeticia) eu achava que era só eu, mas o mundo tá perdido! Filme ruim servindo de auto-ajuda é o Ó! Mas bem que funcionou.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Redemoinho

Cansei! Assim uma exaustão de andar tão megera, velhaca, bruaca.

Cansei de reclamar, ranzinzar, reivindicar.

Cansei de me cobrar por não fazer exercícios, não parar de fumar, não achar tempo.

Cansei da minha cara de cansada, de dizer que odeio isso ou aquilo.

Cansei de guardar coisas e de me obrigar a ler livros que não gostei.

Cansei de organizar, arrumar, arrumar, arrumar.

Cansei de dobrar sacolas e calcinhas, de dormir tarde, de ter olheiras.

Cansei de subir na balança, de subir à cabeça, de descer do trem.

Cansei de me preocupar com o que pensar, cansei de querer agradar.

Cansei de perguntar quanto custa e de pensar se vale a pena ou tem desconto.

Cansei de cabides, de gavetas e de plantas secas.

Cansei de adivinhar pensamentos e antecipar respostas.

Cansei de remédios, de horários, de rotinas, de banho quente, do medo do mar.

Cansei de sete ondas, lentilha embaixo da mesa e sementes de uva ou romã.

Cansei dos milhares de pequenos fantasmas girando vinte e quatro horas por dia ao meu redor e sussurrando “tem que fazer isso!”, “tem que fazer aquilo” (Rainhas de Copas e seu “cortem-lhe a cabeça” ecoando como zumbido depois de balada).

Eu quero o ócio. Quero acordar quando acordar. Quero roçar de pernas e ver estrelas cadentes. Quero a preguiça. Quero não apenas ter um amor, mas amar, muito e ainda mais. Quero mais perto os amigos do peito. Quero parar para ver o dia bonito, a borboleta, a pose do cão, o caco de vidro colorido. Eu quero mais poesia, mais música, mais cor, mais alegria. Quero colocar fora, coisas, sentimentos e medos velhos. Quero comer o doce e repetir. Quero andar de patins, andar de balão, andar a cavalo, andar de novo no fundo mar, andar.

Aos que também cansaram de mim, ou comigo, que um novo ano nos faça novos, e traga desejos frescos, caminhos com orvalho, idéias de pimenta e hortelã.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

De repente, 100

De repente 100 posts no De repente 30...

Caramba, de repente mesmo! Quase três anos por aqui?

Cheguei de gaiata, ainda no primeiro mês, e assim fui ficando, espiando, vendo o desabrochar de fases das balzacas queridas que aqui dividem um lugar no mundo.

100 inspiração inúmeras das vezes.

100 vergonha por todas as ausências.

100 noção post sim, post não.

100 desculpas pelas vezes que ofendi, ou que trouxe aqui as nuvens negras do meu sarcasmo, da minha revolta, de sentimentos, memórias ou textos confusos, de pieguices exageradas, egoísmos, de falta de talento, de olhos voltados para o lado negro da força (não foi com intenção, eu sou mesmo 100 noção). 100 dúvida cada desabafo valeu por várias sessões de terapia.

100 palavras pela gratidão de vez por outra poder dividir coisas boas, grandes ou pequenas, minhas, dos que amo, ou ainda dos que admiro.

Mais que 100% grata por ainda estar por aqui, com algumas das balzacas desde o início e com outras que, como eu, foram agregadas pelo caminho e por aqui foram ficando.

100pre, 100pre, obrigada!

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Bem ou mal, há 100 quartas-feiras (licença poética porque já foi do sábado).

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Soco na cara

Moro numa casa com quintal (tudo lajotado, uma beleza na concepção daqui e um horror pra mim, que daria tudo por uma graminha fresquinha e uma árvore).

Ganhei de casamento um presente super legal: uma mega blaster piscina, daquelas com a borda inflável (estas mesmas, de videocassetadas), que comporta mais de cinco mil litros de água e, pelos meus cálculos, umas oito pessoas dentro. Fomos nós que incluímos a belezinha na lista de presentes. Não vai ficar o máximo no meu quintal pelado e quente?

Pois é, só que a Pantufa minha SRD peluda dog tamanho médio amor da minha vida, vai dividir o quintal com a piscina. Então, a instalação da mesma está terminantemente condicionada à compra de uma mega blaster capa para a piscina, pois não quero correr o risco de chegar em casa e ter uma sopa de cão amor da minha vida. Junto tem que ter uma lona pra colocar embaixo, serviço completo.

Quem disse que se acha as tais capa e lona? Depois de peregrinações árduas por todas as lojas de piscinas, acessórios de jardim, materiais de construção, material para camping, lojas de 1,99 que estavam ao nosso alcance (dentro do perímetro entre nossa cidadícula e a metrópole mais próxima), apelamos para uma ferragem, que tinha uns rolos de lona na vitrine.

- Moça, a senhora vende lona a metro?

Contextualizando: uma zinha, balconista de uma ferragem, numa cidadezinha, no fiofó do mundo.

- Vendo sim, tem estas aí.

- Qual é a largura delas?

- É de quatro metros.

- Não tem mais grossa que estas?

- Tem não.

- Sabe onde posso achar?

- Há, mais grossa é difícil, heim? Tem já cortada com ilhós, mas é mais cara, sugiro comprar dessa aí mesmo e dobrar no meio. Desculpa a pergunta, mas pra que é mesmo?

- Pra colocar uma piscina inflável.

Longa pausa e cara de nádegas...

- Não é que eu não queira vender, não, mas, porque vocês não se associam num clube?

Depois não sabem porque as pessoas cometem crimes hediondos.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Ela e o digníssimo SÃO sócios de um clube bacana. Não se conforma de ter respirado fundo e segurado a TPM

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Janela digital

Andei perguntando-me por onde andavas e como seria sua vida. Já faz mais de dez anos que não a vejo agora.

É estranho, não? Naquela época você era uma menininha que parecia tímida, ciente mas alheia à morte de nosso pai. Pouco lembro de sua voz, mas lembro bem do quanto eu identificava coisas minhas em você, traços do rosto, traços do corpo, a forma como meu pai a tratava. Eu sou a caçula e você também, coisas dos tempos de hoje, ou daquela época.

Hoje o Google me contou que você passou no vestibular para Relações Internacionais e que deve começar a estudar no ano que vem. Também me mostrou uma foto de uma moça muito bonita que eu acho que é você.

Que gênio você terá? Será tão curiosa e mimada como eu? E carinhosa e teimosa? E frágil, sentimentalóide, sonhadora, que vive transitando entre seu próprio mundo cor-de-rosa e a realidade às vezes bem diferente? Será que também detesta ser melancólica, mas o é tanto?

Pelo pouco que soube hoje, temos algo em comum: você deve gostar de estudar, ou teve a sorte de herdar a inteligência de nosso pai (tão nova passando no vestibular) e deve andar querendo mudar o mundo (Relações Internacionais?).

Não tivemos culpa do que passou, havia tantos interlocutores entre nós que prefiro pensar que nossas mensagens se perderam e acabaram se tornando comunicados, frios e distantes, hoje amarelados, apagados ou mesmo esquecidos pelo tempo.

Que estes anos tenham passado para você tornando-a não apenas uma bela mulher, mas uma pessoa forte e ainda sonhadora, apesar de tudo. De longe, muito de longe, eu rezo por você e torço que esta nova fase, este mais um recomeçar da sua vida seja lindo.

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Prá sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus...

Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome...

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...

Trecho da Música Esquadros

Composição: Adriana Calcanhoto

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Às vezes de longe, muito longe.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Uma pausa na vida.

Tinha a certeza de já ter se sentido assim antes. Após algum campeonato, após alguma formatura, após a morte de alguém. Sempre depois de algo importante. Achava que devia até mesmo ser uma reação fisiológica à adrenalina de um momento muito intenso, a calmaria depois da tormenta.

Não sabia bem se gostava ou não da sensação. Uma espécie de saudosismo, a falta de não se sabe o quê. É como se tivesse perdido algo. Não algo que se foi, deixando um vazio, mas algo transbordado, deixando uma plenitude um pouco apavorante.

Uma pausa na vida a assustava, ainda que breve, onde não havia nada que queria muito, ou nada que fosse para ontem. Era como uma folha branca de papel, mágica pelo convite de que tudo ali pode ser criado, mas trágica para o criador, em seu medo do que pode vir a criar.

Um silêncio oco como trilha sonora, deixando espaço para verdadeiramente ver pessoas e situações que antes também estavam ali, mas não havia espaço para elas. Sente suas dores, vibra com suas conquistas, surpreende-se como uma criança com emoções sentidas pelos outros, tomando o lugar das emoções há pouco reservadas apenas para si mesma.

Pensou ser um tipo de tédio, mas não, um tipo de apatia, mas não. Apenas desligou o automático. Desligou-se das listas. Desligou-se das opiniões, de preocupar-se em corresponder ao que desejavam dela. Desligou-se de dar explicação quando não compreendida. Desligou-se de surtar quando o esperado resolve se atrasar, ou simplesmente não acontece. Desligou-se de analisar infinitamente se a decisão, ou a ação, era a mais correta, a mais adequada, como um cão correndo atrás do próprio rabo.

Pensou ser um tipo de preguiça, e descobriu que era mesmo. Preguiça de sua natureza ávida por novos caminhos. Preguiça de si mesma. Assustadora, mas deliciosamente preguiçosa, decidiu que queria permanecer assim, esbanjando este sentimento estranho que não era novo, mas era raro.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Procurando rascunhos, com preguiça de páginas em branco.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Pílulas baianas

Uma das primeiras coisas que um baiano diz ao te conhecer é que é para não estranhar que baiano tem talento: “tá lento” pra tudo.

No primeiro dia na pousada descobrimos que no meio do mato deveríamos pegar quatro canais da TV a cabo. No nosso quarto só pegavam três. Pedi para darem uma olhada. Resultado: agora só pegam dois.

Pra cobrar os olhos da cara por qualquer coisa, no entanto, o baiano é bem ligeirinho... R$ 3,00 por um côco? R$ 45,00 por um peixinho na brasa pescado lá mesmo? R$ 10,00 pra sentar no guarda-sol? Ligeiros, heim?

(homem com a filhinha em loja de artesanato de madeira)

- Que bicho é esse moça?

- É um apito!

(a pessoa aqui procurando para um amigo uma encomenda de um negócio azul pra usar no pescoço, daqueles “de religião” que esqueci o nome)

- Moça, como é o nome disso aqui?

- Colar (!).

Não acredite imediatamente no que um guia turístico baiano te diz. As chances de ele estar tirando onda com a sua cara são de 90% e dele estar inventando são de 10%. O bom é que ao menos até o fim do passeio ele confessa.

Se você é como eu e discorda do que todos dizem a respeito de frutas que causam prisão de ventre (como goiaba, caju e jabuticaba), não tente jamais comer subseqüentemente oito cajus, mesmo que pareça irresistível comê-los na Bahia, direto do pé. Isso não é uma boa idéia.

Puko me ajuda! Não tem nada passando na minha cabeça, e agora?

Quando algum passeio reservado com muita antecedência for cancelado, não se preocupe. Use o tempo extra pra questionar a três guias diferentes os motivos do cancelamento e receba três histórias estapafúrdias totalmente distintas como explicação. É divertido.

Se você for fazer um batismo de mergulho em alguma piscina natural com mais ou menos sete metros de profundidade e desconfiar que seria ridículo você lá, de long, nadadeiras, máscara, pesinho na cintura e cilindro, enquanto passa uma bonita só de biquíni e snorkel por baixo de você, pode ter certeza de que é exatamente isso que vai acontecer.

Cuidado com os hippies baianos. Eles têm a incrível habilidade de te vender tranqueiras por um preço absurdo. Pior é que você ainda sai achando que fez um bom negócio, até perceber que foi praticamente roubada, e ainda por um doidão.

Na Bahia (pelo menos no pedaço onde estamos), não toca mais Aché, nem tem fitinha do Bonfim, e é difícil achar um acarajé. Baiano não é mais lento, os gringos invadiram, turista brasileiro é quase ignorado e aqui, a inflação forte ainda existe. Mas mesmo assim, a Bahia continua linda, maravilhosa, e perfeita pra esquecer o mundo lá fora.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Nesta, em lua-de-mel e de férias na Bahia, super em paz, super relax, super light, cheia de amorzinho e com muito “tá lento”.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Bridezilla – o fim da saga

Este não é mais um post de uma noiva desvairada às vésperas do casamento. É o último deles, graças a Deus.

Miss planilha virou meu apelido nos últimos meses. Sem brincadeira, foram mais de trinta planilhas, chutando por baixo, em diversas versões, envolvendo “organizações”. Listas de orçamentos, convidados, convites já entregues, crianças na festa, músicas, mais músicas, músicas ainda, quem quer van, quem quer cabeleireiro, hotéis, confirmações de presença, deduções de ausência (pois descobri que ninguém confirma que não vai), presentes que queremos ganhar (que fizemos sob ameaças múltiplas, pois eu não queria as tais listas), presentes que ganhamos para agradecer. Quem vai ficar com quem em que mesa, quem não quer ficar com quem em que mesa, doces que gostei de cada doceira, doces que gostei dentre todas as doceiras, listas de compras, de providências, de não esquecer.

Miss Pití foi meu auto-apelido, pois foram muitos e agora ainda ando tendo que agüentar os dos outros, com cobranças do que ainda não está resolvido, decidido ou pronto. Estou quase atendendo o celular dizendo que “não, não, este número não é desta fulana”.

Nem tudo saiu como o planejado. Sorte é que este “momento” nunca foi mesmo muito planejado, então, conseguimos ser bem flexíveis. Porém, descobri que muita coisa na vida de um casal de noivos não se escolhe, se adota e pronto, e de preferência se escuta, mas não se processa quanto vai custar (em dinheiro, tempo ou dedicação), ou então a desistência virá.

Descobri muitas outras coisas inesperadas, que têm valido a pena nem sempre por serem boas, mas pelas suas lições. Descobri que resolver comemorar um evento deste “porte” é um teste de quanto se está consciente da própria vida. Você vai convidar mais gente do que gostaria, vai se preocupar muito com o que fulano ou beltrano vai pensar por ser ou não convidado (mesmo que isso seja absolutamente contra sua filosofia de vida), vai mudar de idéia muitas vezes. No fim, se você tivesse desde o início pensado, não no dever social, mas no que seu coração dizia, teria economizado muito trabalho e dinheiro, pois os que lá estarão, tirando algumas exceções por motivos de força maior, serão aqueles cujos corações têm uma linha direta com o seu. Você vai descobrir que algumas pessoas que você considerava muito não estão nem aí para você. E vai se surpreender com outras que merecem muito mais valor que você tem dado.

Não descobri, pois eu já sabia, mas confirmei o valor da minha família, e valor da nova família que estamos formando e dos novos laços que estamos criando que, sim, passam a ser diferentes quando a convenção casamento se concretiza, mesmo antes do altar.

Mais do que tudo, descobri que entrar nesta “maratona” a dois, e passar tantos momentos de discutir escolhas e gostos, juntos, exercitando nosso respeito, nossa tolerância e nosso amor, e ainda conseguindo se divertir e ter muita satisfação com cada detalhe, cada conquista, cada meio termo, cada resolução, foi o melhor de tudo.

Desejo a todos que escolhem passar por todos estes rituais de dividir a vida com alguém e formar uma família, quer isso tenha ou não sido um grande sonho, que no fim, o objetivo primeiro se mantenha: olhar para aquele cara vestido de pingüim, ou para aquela doida vestida de branco e ter o coração acalentado e a paz da certeza do que se quer.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. “Bridezilla” é a divertida definição dos australianos que certamente melhor se encaixa ao seu atual momento. Deu trabalho, mas valeu a pena.

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