quarta-feira, 19 de maio de 2010

Coisas da morte

A morte também ensina.

A primeira coisa é que não se está preparado para ela, seja ela já esperada ou não. Sim, é clichê, mas é a mais pura verdade.

A segunda coisa que ela te ensina, assim que chega, é como acessar uma força que não sabemos que tínhamos, que nos move como fantoches, tomando providências e decisões aqui e ali enquanto anestesia nossos corações. Só que esta força vem na forma de uma cota, que de repente acaba.

Então a morte te ensina que as pessoas, próximas, ou não, que gostam de você ou não, não sabem lidar com ela, Porém, não conhecendo seu rosto, as pessoas traduzem este sentimento como não sabendo lidar com você.

A morte também te mostra o quanto nós somos egoístas, sem exceção. O egoísmo começa com a nossa própria dor, pois a dor não é pela pessoa que se foi, em si (afinal, ela se foi) mas por nós mesmos, pelos momentos que não viveremos com ela, pela nossa própria solidão. Então o egoísmo se estende à dor dos outros que ao saberem que você perdeu alguém que amava, imediatamente pensam nos seus e em si mesmo, e expressam isso sem pudor. O estranho é que de alguma forma (também egoísta) isso te conforta.

Então é hora da morte te ensinar a ensinar os outros sobre como lidar com você. Primeiro você ensina que essa história de “meus pêsames” e “meus sentimentos” é horrível. Tudo bem que ouvir isso de alguém que não te conhece muito bem é até bom, pois a distância fica clara e um espaço que é muito só seu de certa forma se preserva. Você merece, afinal, não desmontar a cada vez que se fala sobre o assunto e estas expressões são a senha para calar. Dos que te amam, porém, o que conforta mesmo é o abraço apertado calado, ou acompanhado de um bom e velho “putaqueopariuquemerdaéessacaraleo???!!!”. Isso é muito confortante.

Então a dita te mostra como funciona a teoria da relatividade. Todos, absolutamente todos os seus problemas do dia-a-dia, sem exceção, passam a não ter importância alguma. Nada. As pessoas te olham assustadas quando, numa situação qualquer em que você viraria bicho, resta apenas seu olhar vazio e calado. Tudo perde a relevância e isso abre um espaço enorme em você que por um segundo até parece ser bom e confortável, depois de tantos anos que você se enche de problemículas estúpidos. Mas logo este espaço vira um grande buraco, quando você percebe que você simplesmente não tem com o que preenchê-lo. E então, você mesmo passa a se sentir um buraco ambulante.

Então, a morte mostra para seu buraco a importância das pessoas na sua vida. Tenha certeza que serão muito poucas as mais importantes, mas que o tamanho da importância delas vai crescer tanto, que elas se tornarão gigantes perto de você. É com estas pessoas que você vai ficar em silêncio, sem perceber. E é o silêncio que você quer, mas você não quer a solidão que ele trás. Você vai querer passar, e vai passar, a maior parte do seu tempo fazendo coisas que te tirem a consciência deste mundo: lendo, vendo um filme, limpando sua caixa com 3500 e-mails, arrumando a gaveta de talheres. Mas ainda assim não vai querer estar só e sua gratidão ao ver alguém, dentre estas poucas pessoas especiais, ao seu lado, será tão gigante quanto ela a seus olhos.

Você aprende também que não há fé que amenize seu sentimento. Não adianta nem ser espírita, acreditar que é só uma passagem, que a separação é impossível, sendo apenas fisicamente temporária. Não adianta. A fé, seja qual for, trará um pouco de equilíbrio, fará você perceber quando estiver surtando sem noção, mas não vai amenizar o que você sente e a sua vontade de que tudo isso fosse um pesadelo do qual você gostaria de poder apenas acordar e dar um abraço muito forte naquela pessoa e dizer o quanto você a ama.

Então, com o passar dos dias, você vai querer honrar a vida daquele que não está mais aqui através da sua vida. Vai querer ter a vida que sempre quis e não pode, ou por algum motivo ainda não conseguiu completamente, pois afinal, de uma hora para outra, de um segundo para outro, você poderá não estar mais aqui também. Então, o desejo de mudar de emprego, de mudar de país, de mudar de problemas, de ter um filho, virá ardendo, queimando a sua pele e você sentirá uma lufada de ânimo e uma gratidão imensa ao ser querido que provocou isso com sua partida. Até perceber que você está juntando todos os caquinhos, todas as suas forças, a cada amanhã, para poder levantar, sair da cama, trabalhar, tentar viver. Até perceber que neste momento você mal tem forças para mudar de roupa, que dirá mudar de vida.

Por fim você aprende a torcer para que o tempo passe logo e que chegue logo a época de sentir saudades sem doer, que é o que todos dizem que acontece mas não é o que você vê. A morte também ensina, mas quem foi que disse que se quer aprender alguma coisa com ela?

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Seus maiores desejos hoje são: 1) que a morte seja mesmo como a carta do tarô, que tantas vezes confortou-lhe ao longo da vida acenando a vinda de uma transformação e 2) que tudo o que sempre acreditou seja mesmo verdade e que seu amor, apesar da dor, possa atravessar mundos e abraçar a pequenininha bem forte, onde ela estiver, levando-lhe ainda toda a sua gratidão.

2 comentários:

Milena disse...

Que seu abraço bem forte leve também o meu.
Que as lições que te ensinou vivam sempre conosco.
Que você e ela encontrem muita paz.

beijos querida!

Alessandra Krusciel disse...

Gi Querida,

Quem morreu? Foi sua mãe?
Meus profundos sentimentos, seja por quem for, quero que consigas encontrar a paz e conforto.

bj, de quem te adora, apesar de TANTO tempo longe. Ale

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