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quinta-feira, 16 de abril de 2015

Papo calcinha ou drink de vampiro

Eis que aos trinta e tal você descobre que não sabe nada sobre menstruação! e olha que a essa altura você já passou pelo menos dois terços da sua vida sangrando, todo mês.

E não me venha com esse papinho de que menstruação é boa e tal. Não é. É uma meleca, por mais cuidadosa que você seja, tem um cheiro ruim, você se sente suja, desconfortável, enfim. Até que de curiosa você decide comprar um copinho de silicone medicinal de custa setenta reais - o tal do coletor menstrual - e aí você descobre que não sabe de nada, inocente! Menor que um vidrinho de esmalte, com a forma de uma tulipa. Já tinha lido vários relatos e sempre achava todos exagerados e sempre pensava: ok, deve ser legal mas não exagera né galera! Ele não há de fazer a menstruação deixar de ser um sofrimento!

Absorvente comum é uma merda, você fica com um colchão, uma fraldinha entre as pernas e lá aquele sangue velho apodrecendo entre as suas pernas. Pois é, não é azul e lindinho como mostra na tv. É sangue. E em contato com o oxigênio e abafado na sua queridinha as bactérias se divertem. Aí é que fede, coagula; e vaza, mancha sua roupa, sua cama. Você acorda parecendo que vai afogar de tanto sangue. Espirrar, nem pensar! Absovente interno também é péssimo. Parece que você tá uma rolha entre as pernas. Aquilo além de absorver o sangue absorve também todo a lubrificação natural que existe dentro de você. E incomoda pacas. Sem falar no tanto de lixo que ambos geram né?

O copinho (nome íntimo do coletor menstrual) é super flexível, molinho. Aí você dobra ele (existem vários tipos de dobra) e dobradinho ele fica do diâmetro de um absorvente interno. Aí você coloca ele lá dentro de você - esse era meu medo! Mas não é láaaa dentro! O absorvente interno fica bem mais "lá no fundo" do que o copinho. Então lá dentro (logo ali na entradinha) ele se abre e forma tipo um vácuo que faz com que ele fique firme lá. Enquanto isso você vai ser feliz, espirrar, abaixar, nadar, dá até pra esquecer que você está menstruada, pois não dá pra sentir ele dentro de você! Dá até pra dormir sem calcinha! A cada 12 horas você tira, lava e coloca de novo! É nessa hora que tudo muda! Primeiro que você olha pra aquele copinho antes de colocar e pensa que vai encher aquilo em 3 horas! Mas na verdade por mais que seu fluxo seja intenso, os 30 ml (média de capacidade dos coletores que existem no mercado) são mais que suficiente! Eu usava absorvente noturno e meu copinho nunca passou da metade! Depois você percebe que não tem aquele cheiro de menstruação. Não tem cheiro de nada. Quando muito um cheiro (suave) de ferro. E o aspecto não é nada daquele drama que a gente vê no absorvente! É um sangue fluido, vivo! Ouso até dizer: lindo! Revolucionário!
Achou nojento? Véi, na boa... nojento é essa fraldinha aí que você usa!

Mariana está perdidamente apaixonada por seu copinho de sangue e mudou totalmente a sua relação com a menstruação desde que começou a usá-lo assim como mudou sua relação com o lixo quando adquiriu uma composteira. 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Eu não visto 38, e daí?


Ao longo dos meus 33 anos eu nem consigo mais lembrar quantas dietas eu fiz. Já passei aos 100 quilos algumas vezes. Me senti um lixo em ambas. Sofria porque estava gorda, comia pra me sentir melhor, engordava mais, me sentia um lixo, comia mais e o ciclo nunca acabava. Na loucura adolescente tomei anfetamina. Já fiquei sem comer carboidrato. Me sentia era feia, horrorosa e diferente. 

Todo dia sites, revistas, tv tem uma reportagem sobre alguém que se tornou vitorioso e iluminado e perdeu 40 quilos e agora é feliz. Eu gostaria que os sites, revistas e tv dedicasse a mesma quantidade de páginas sobre pessoas que tem graves distúrbios alimentares como anorexia e bulimia como dedicam àquelas que “mudaram de vida” porque emagreceram. Eu gostaria que eles escrevessem sobre os riscos dos suplementos alimentares como escrevem sobre os riscos do açúcar. Mas principalmente, eu gostaria de ver pessoas acima do peso deixando de serem tratadas como doentes. Quando uma pessoa está emagrecendo ela só recebe elogios. Muitas delas conseguiram isso de forma nada saudável. Gente magra também perde o fôlego porque é sedentário. Gente magra não necessariamente é saudável, não necessariamente come bem e cuida da saúde. Ela é só magra.

Na verdade, eu queria sites, revistas e tv mais honestos. Quantas daquelas mulheres mais felizes e magras não sofrem com distúrbios? Ou por anos estão se matando com remédios para emagrecer? 

Eu sigo lutando contra a balança e meu metabolismo lento (de quem passou dos 30) de quem toma 50mg de hormônio pra hipotireoidismo por dia. Mas eu hoje me acho bonita, coisa que não me achava aos 15 anos, mesmo vestindo mais que 46. Também tenho consciência bem maior sobre a minha saúde, meu bem estar. Nado, faço RPG, tento me manter tranquila, comer as coisas que me fazem bem, sem paranóia. Sou mais leve, em todos os sentidos.






Mariana escreve esporadicamente e atualmente se sente leve, bonita e saudável! Mas mesmo assim não consegue comprar um biquíni que caiba no seu corpo e no bolso ao mesmo tempo. Enxerga no espelho e sente no corpo bem menos do que a balança lhe diz - e ainda assim é feliz pra dedéu!

sábado, 29 de março de 2014

Mulher Maravilha


Ter saúde, ter paciência, ser linda, beber e não ter ressaca, ser pontual, ter pele boa, ser espirituosa, ser criativa, correr, alongar, nadar, meditar, depilar, cozinhar coisas saudáveis e gostosas, responder todos os e-mail, aguentar assédios de gente sem noção, dançar loucamente, aproveitar enquanto viaja sem pensar que vai acabar, segurar o choro quando precisa transbordar, não ter medo de errar.

Mariana escreve esporadicamente e por vezes sente que ser mulher hoje em dia é coisa de heroína.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

trans-FORMAÇÃO


Vamos combinar, esse ano não foi fácil pra absolutamente ninguém. Não há um amigo se quer que diga que foi um ano tranquilo. O fim dele se aproxima, chega o momento do balanço. Pra mim foi um ano de profundas transformações. Exceto pelo que carnaval que foi indescritivelmente transcendental, o primeiro semestre foi marcado uma enorme infelicidade profissional. A angústia era tanta que sugava minha energia vital, não sobravam forças pra cuidar das plantas, muito menos de mim. Por mais que não quisesse, isso se refletia em todas as instâncias da minha vida. Foi um ano de perda de pessoas queridas, mas também de chegada no mundo de pessoinhas tão amadas! Foi acima de tudo um ano de muita luta! Luta política, ideológica, luta contra a balança, luta contra valores que já não me cabiam mais, luta por justiça, verdade, luta por amor (principalmente o próprio) e por sabedoria. Vi muito fogo, choro, grito e guerra na careta capital que eu vivo – a cena das bombas caindo do céu e o cheiro (bem como os efeitos) do gás lacrimogênio nunca vão sumir da minha memória.

Mas é comum a vida imitar a natureza. Tudo seca e queima no outono pra depois vir a primavera transformando tudo com beleza, cor e perfume – sábia natureza! E como é difícil imaginar a calmaria em plena tempestade! A primavera trouxe pra minha vida uma avalanche intensa de transformações. Hoje sou uma pessoa melhor, não uso relógio, muito menos despertador. Trabalho meio horário, pertinho de casa. Vivo minha sexualidade com liberdade, responsabilidade e leveza. A luta contra a balança talvez nunca chegue ao fim, mas estou de bem comigo e com meu corpo – nado, faço RPG, cuido da alimentação (tudo sem paranoia). Me sinto capaz, madura, valente. Tenho tempo pros amigos, pra família, pras plantas, pro cachorro e principalmente pra mim. Nesse exato momento eu sou a melhor versão de mim mesma, só tenho a agradecer a vida pelo processo natural de transformação. Axé.


Mariana escreve esporadicamente e esse é seu último texto do ano. Ela não vai fazer listinha de propósito para o ano que vem pois não há o que pedir, só a agradecer.



sábado, 28 de setembro de 2013

Sonhava que estava sonhando


Não há como negar, estou numa fase de transição. Pela primeira vez na vida, estou desempregada. Por enquanto isso ainda não me preocupa. Mas ao mesmo tempo, sei que já é bom começar a botar a cachola pra funcionar em busca de uma solução.

Essa noite sonhei que voava (morrendo de medo – igual a Carla) de João Pessoa pra cá num avião poc-poc. No meio do caos aéreo, tive um sonho dentro de um sonho. Nele sonhava que comprei uma máquina de sorvete, um freezer e comecei a viver vendendo sorvete! Mas eram sorvetes criados, experimentações gastronômicas, pouco açúcar, pouca gordura, muito amor – delícia cremosa!

Mas essa transição não é apenas profissional. Tudo muda mesmo pra quem tem mais de trinta!



Mariana escreve esporadicamente e anda pensando se é idiota celebrar dez anos de vida do seu adorável cão e em como ela escreve de maneira desconexa.


sábado, 22 de junho de 2013

Violência

Me desculpem se eu estiver jogando gasolina em alguma fogueira por aí...

Sou contra a violência. Mas prefiro carros queimados a índios queimados. Prefiro depredação do patrimônio público do que remoção forçada de ocupações urbanas. Prefiro vândalos no centro do que policial dando tiro na cabeça de adolescente na periferia. Prefiro o trânsito parado por uma manifestação do que pelo excesso de carros. Às vezes você precisa escolher um lado. O movimento das ruas não é uma micareta com transmissão ao vivo pela Globo. O embate é político e ideológico. Não se engane. Sou contra a violência.


Mariana é bisneta de índio, apóia as Brigadas Populares, é educadora de adolescente da periferia, não tem carro, planta alface na janela do apartamento, chorou segunda-feira respirando muito gás lacrimogênio, tem se interessado cada vez mais em conhecer seus direitos e dorme toda noite com a consciência tranquila sobre seus atos.



sexta-feira, 26 de abril de 2013

Providências para o outono



-passar a noite no telhado examinando o céu;

-arrumar as gavetas e armário;

-convidar alguém para tomar chá;

-sair do emprego;

-perder o equilíbrio;

-tomar sol com as tartarugas;

-atualizar as vacinas;

-correr para pegar o ônibus;

-amarelo, azul, o vento, astronomia, pôquer, carpintaria, os jardins;

-sair para comprar couve;

-tomar coragem;

-convidar aquele gatinho pra jantar.



Mariana anda doida que só ela. Pensamentos desconexos, listas fragmentadas.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Foco na Missão



Dentista, RPG, acupuntura, ioga, mamografia, conversar com a chefe. Voltar pra natação, cortar o cabelo, cuidar da alimentação, vermífogo do cachorro, levar vitrola pro conserto. Replantar uns vazos, semear umas sementes, pintar as paredes da casa, manutenção do minhocário, consertar vazamentos no banheiro, cozinha e tanque.

Finda o carnaval, começa o ano. Recomeço da rotina, se reinventando e levando comigo o amor e a leveza vividos nos dias de folia!



Mariana ama carnaval, mas acabada a folia é hora de concentrar e retomar a vida real. Axé pra todo mundo! 



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Grrrrr...


Amiga: - Oi, tá boa?

Mari: - Não!

Amiga: - ...



Mariana escreve esporadicamente, hoje mais azeda do que nunca. Pretende retomar a doçura, mas por hora tá difícil. Anda se cansada, triste, está com cólica e tem se sentido sozinha na multidão. Tudo está irritante – de pernilongos a seres humanos. Promete que vai se esconder debaixo da cama até essa nuvem sair da sua cabeça, pois como está representa um mal pra humanidade. Não tem planos algum pro ano que vem e essa semana não tem sido uma menina boa. Tem tratado mal as pessoas e respondendo ao mundo com intolerância e impaciência. Apesar de tudo, espera que aqui dentro bata um coração, mas hoje só acredita no amor do seu cão. (Tomara que tudo não passe de uma TPM, se for pra ser esse monstrinho que sou hoje, melhor o mundo acabar mesmo!)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Abrindo Caminho


Depois de meu completo desaparecimento, acho que agora finalmente estou de volta. Nesse período esbocei inúmeros textos, tinha vários prontinhos na cabeça, mas cadê forças e tempo pra escrever? A vida andou me pregando muitas peças nos últimos meses! Quebrei dedo, perdi dente. Desapeguei do trabalho, decidi cuidar mais de mim e dedico um tico do meu tempo todo dia a minha horta-jardim (aliás, alguém aí sabe como combater lagartas num pé de maracujá?). Fui do hospital com a mãe ao alto da montanha meditar. Meditar uma ova, me coloquei de castigo isso sim. Sabe quando a gente é criança e colocam a gente num cantinho pra pensar sobre nossas atitudes? Foi exatamente isso que eu fiz. Troquei a miniférias pelo castigo e não me arrependo nadinha. Pois bem, pode sair do castigo nêga. Saia do castigo e recomece, reinvente, se dê uma nova chance.

Nesse processo tenho um balancete parcial: acredito cada vez menos no que diz a TV e no que está escrito no jornal; pela primeira vez na vida me acho bonita; ainda me chateio com a ignorância e egoísmo do mundo (Funai, demarque de maneira digna as terras indígenas? Era tudo deles, tá tudo errado!).



  • Mariana andou perdida entre dentes, lagartas, hospital, montanhas e pensamentos, mas tem aberto seu próprio caminho, sem muita certeza do destino.
  • sábado, 19 de maio de 2012

    Era uma vez um bolo de chocolate

    Oi, meu nome é Mariana, tenho 31 anos e estou aqui pra fazer uma confissão séria: acabei de comer um bolo de chocolate. Isso mesmo que vocês estão lendo, vou repetir, acabei de comer um bolo de chocolate inteiro, sozinha. E não foi daqueles bolinhos pequenos metidos a besta que estão na moda não, foi daqueles bolos a moda antiga, daquelas formas com furo no meio e tal. Há muuuuito tempo mudei minha alimentação e doce (minha grande e universal tara) foi o corte mais radical que tive que fazer. Pra terem noção tenho meio ovo de páscoa até hoje no armário. Realmente me tornei uma pessoa contida e controlada. Mas é que hoje acordei absurdamente gripada, febre alta e não fui trabalhar. Sozinha em casa, doente, puro dengo. A única solução pra isso foi fazer um suculento bolo de chocolate que comi ainda quente. Inteiro. E só pra dar uma culpinha básica, fiz calda – de chocolate, é claro! Agora tô aqui terminando de tomar o litro de chá quente que fiz pra acompanhar o bolo e fazendo as contas de quantas voltas na piscina terei que dar pra compensar esse momento de histeria! E viva o chocolate!



    Mariana escreve esporadicamente. Atchimmm!

    segunda-feira, 12 de março de 2012

    Ar

    Amaciar, amar, apalpar, bigodear, blefar, brocar, burlar, cabritar, carambolar, carnavalizar, cultivar, dar, disfarçar, embaçar, embalar, embromar, embrulhar, empepinar, encravar, enroscar, enrustir, falcatruar, fingir, fumar, galantear, gargarejar, habitar, honrar, iludir, ilusionar, juntar, justificar, lambuzar, ludibriar, marombar, meditar, mentir, mistificar, mocar, nadar, naturalizar, objetivar, organizar, paquerar, pulsar, rabiscar, rosquear, saculejar, saborear, saçaricar, tapear, trair, uivar, viajar, ventilar, verdejar, voar, zarpar.
    Mariana escreve esporadicamente, gosta de brincar com as palavras, não tem nenhum problema respiratório mas está com uma leve falta de ...ar!

    sábado, 18 de fevereiro de 2012

    Era pra ser

    Era pra ser uma carta de amor. Era um pacote de mil fatias de cebola picadas – como fazia lacrimar! Era uma coleção de vírgulas e reticências, o avesso inteiro de um coração, um alagamento irreversível de sentimentos - jorrava, pingava, molhava. Era um buquê de palavras, um contrato entre os países da alma, um frasco inteiro de paz. Era uma verdade bruta feito diamante, uma compota de suspiros. Era pra ser uma carta de amor, mas não saiu uma palavra se quer.

    Mariana escreve esporadicamente, ainda sem coragem de dizer o que sente a quem nem sonha saber ser remetente.

    quarta-feira, 28 de setembro de 2011

    Kombinado

    Há alguns domingos atrás recebemos em casa um simpático casal de chilenos. Havia ganhado algumas espigas de milho, e como não sabia se eram vegetarianos ou não, tratei de fazer uma polenta, mas no lugar da carne, berinjelas. Pra acompanhar arroz, brócolis, pasta de grão de bico, cerveja e música mineira. Felipe e Daniela, jovens como nós, há algum tempo partiram de Santiago a bordo de uma Kombi roxa e bege muito charmosa com um ousado e brilhante projeto de vida: percorrer a América Latina por terra.

    Fizeram um diário de bordo (www.americasintiempo.blogspot.com), registrando lugares, rotas, imprevistos, aventuras e as pessoas que vão conhecendo ao longo do caminho. Do pouco convívio, ficou muito aprendizado. Viver em espaço pequeno, produzir o mínimo possível de lixo, gastar o mínimo possível de dinheiro, ter cabeça e coração aberto. Viver de modo inteiro cada momento, sabendo que nunca mais vai estar naquele lugar na vida e talvez nunca mais veja as pessoas que conheceu. Afeto, respeito, companheirismo e leveza. Mas principalmente desapego.

    Mariana escreve esporadicamente e anda cansada do egoísmo do mundo, mas sorri com micro cápsulas de otimismo e inquietude que a vida às vezes lhe presenteia.

    sexta-feira, 2 de setembro de 2011

    Dados e dores

    Há três anos e meio, um canal. Lá dentro, cinco milímetros de lima. Uma restauração mal feita, anos de infiltração. Uma fratura no assoalho do dente quarenta e seis. Uma extração, duas raízes agarradas, alguns pontos, sete litros de lágrimas e muito, muito sofrimento, nenhum dia de atestado. Três noites sem dormir. Quase enlouquecendo, vontade de bater a cabeça na parede, clínica de urgência. Dez minutos de espera, mais um raio-x, dois cirurgiões. Muitas anestesias, sangue, sete pontos, mais um raio-x. Cinco comprimidos de seis em seis horas, compressa de gelo de hora em hora. Uma semana sem beber, dois dias de atestado, dois dias de repouso. Agora sim, um dente a menos na boca.

    Mariana escreve esporadicamente e a coisa que tem mais medo na vida é dentista. Tem passado por um ano frankstein – quebra daqui, costura de lá.

    quarta-feira, 1 de junho de 2011

    Destruir para recomeçar


    Tem dias que a gente acorda com vontade de brincar de destruir coisas. Jogar uns pratos na parede, esfregar lama em obras de arte, desmanchar as linhas retas da arquitetura careta. Cortar os cabos que conectam as tomadas, desligar a energia central. Deixar no escuro toda a mentira que brilha às três da tarde. Arremessar pedregulhos nas vitrines humanas e fazer sangrar a verdade que cada um esconde no peito. Mas acho que não conseguiria queimar todos os livros de poesia, arranhar os discos e quebrar a vitrola.


    Mariana escreve esporadicamente num constante processo de desapego e transformação; e acha que todo mundo deveria assistir o filme Clube da Luta.

    sábado, 7 de maio de 2011

    Sobre Medo e Coração

    Temo a mesmice. Temo o egoísmo. Temo a falta de se deixar levar. Temo a cidade cheia de individualismo e a falta de tempo. Temo o tempo. A falta e a demasia. E temo ter todo tempo do mundo pra fazer absolutamente nada. Ou melhor: pra fazer exatamente o que quero. Ver é diferente de olhar. E disso já estou farta.

    Mas nesse exato momento, o que menos esperava era conforto. Precisava mesmo era de tempestade, de um redemoinho que a levasse pra onde havia deixado sua essência. Precisava viver sua vida e decidir o que queria comer no jantar. Pois é, ela sabia disso direitinho. Sabia de todos os poréns do seu dia-a-dia e resmungava solitariamente que a partir daquela semana as coisas seriam diferentes. Nada fazia sentido. Nem sua pouca felicidade. Nem o fato de acordar tarde todos os dias implorando pro tempo passar mais rápido. Nem seus não-filhos. Nem a solidão. Nada disso fazia sentido, mas a fazia grande. De alguma forma. E, apesar de continuar ali, naquele vácuo de vida, lembrava da ferida aberta bem no meio do seu coração. A casca caída no chão. Juntou cada pedaço pequenininho e jogou um por um no lixo do banheiro. Ferida. Pele. Casca. Coração.

    Mariana está bem e escreve esporadicamente. Está finalmente curada das feridas do corpo. As da alma permanecem em seu lento, porém progressivo processo de cicatrização.

    quarta-feira, 23 de março de 2011

    Nua Árvore

    Já escrevi sobre o que não sei.
    Sobre o que gosto e, principalmente, sobre o que não gosto.
    Sobre a falta que sinto de você e sobre não sentir nada.
    Sobre comidas e dietas.
    Lugares e poetas

    Sobre rock e samba.
    Experiências vividas ou inventadas.
    Blasfemei inúmeras vezes.
    Escrevi sobre o tempo.
    E é outono; amarelo, laranja e vermelho.

    Das janelas da gaiola a gaivota não conseguiu ver a super lua. Mariana lamenta, escreve esporadicamente e ganhou uma vitrola do seu tio caçula.

    quinta-feira, 17 de março de 2011

    Pele

    Hoje acordei com saudade da sua pele. Saudade do cheiro e do calor da pele da sua nuca – confesso ter uma queda especial por nucas. Foda-se aromas que se compra em frasco. Quando gosto, gosto mesmo é do cheiro da pele.


    Mariana escreve esporadicamente e acordou cantarolando: “deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa...”, de Chico Buarque.

    sábado, 5 de março de 2011

    Já?!

    Amanhã faço 30 anos. Carnaval passado fui pros blocos do Rio arrastada por um grande amigo. Lá o bichinho da folia me picou. Sábado passado comprei um ganzá e ajudei a engrossar o caldo da bateria de um bloco daqui. Há quatro dias descobri que quebrei o pé esquerdo no mesmo dia que comprei o ganzá. Não sei exatamente quando começou meu infernal astral, mas sei que ele existe forte em mim, progressivamente cruel. Hoje urrei de dor no pé durante a noite, acordei me sentindo um monstro e logo depois percebi que além de inferno astral estava também de TPM. A previsão do tempo pra amanhã é de chuva o dia todo. Acho que meus 30 anos chegaram rápido demais, dá pra esperar eu tirar o gesso e o tédio passar?

    Mariana escreve esporadicamente, e sempre sonhou com uma festa de arromba para os seus 30 anos, mas o que a vida lhe deu de presente foi um pé quebrado. Neste exato momento tudo que ela queria era poder dormir de lado ou de bruços.

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