quarta-feira, 10 de junho de 2009

Escolhas de gente grande

Sempre achei que quando crescesse as coisas seriam preto-ou-branco, quero-não-quero, gosto-não-gosto, vou-não-vou. Mas não, cá estão meus primeiros cabelos brancos e fazer escolhas ainda é um tormento dos mais angustiantes.

Adoro ganhar bijuterias, blusas, bolsas, só pelo fato de que quando eu gostei do presente, além do mimo, não tive que ficar eu mesma um tempão para escolhê-lo na loja. Será que é hora de casar, mudar de casa, ter um filho? E de mudar de emprego?

Sempre achei que seria muito fácil largar um emprego que fosse um horror e partir para outro. Mas na vida real empregos simplesmente não são horrorosos. Mas também nem sempre são lá aquilo que esperávamos, ou nossa satisfação é que não é tão grande, mesmo fazendo o que escolhemos e gostamos. Não é insuportável acordar todo o dia e ir trabalhar, mas voltar pra casa todo dia P da vida com muitas picuinhas do trabalho é frustrante. É frustrante perceber que nosso antigo conceito de realização profissional, da época da faculdade, é ingênuo e tolo. Considerávamos apenas a atividade per se: pensávamos que se estivéssemos exercendo de alguma forma digna a profissão que escolhemos, seria suficiente para enchermos a boca e dizermos o quanto nos sentimos realizados e privilegiados, frente a tantos que trabalham para viver.

Quem disse que tínhamos condições de prever que ter um trabalho legal seria quase tão importante quanto a qualidade de vida que conseguimos nos proporcionar com ele? É claro que a grana conta: não resolve, mas facilita. Mas ainda não é tudo. De que adianta viver para trabalhar? De que adianta um emprego razoável, mas que nos toma as horas que sobram do dia com transporte, congestionamento e estresse? Ou um lugar onde você é obrigado a comer bandejão, sendo o tempero num dia larva, e no outro, pedra, quando você achava que já havia chegado a hora de poder escolher o que comer? Ou então, onde você é explicitamente explorado, sendo o resultado do seu trabalho claramente apropriado por outrem? Ou quando você não é compreendido, e seu esforço em fazer o melhor possível é interpretado como dificuldade, e sua independência como arrogância? E quando você, que sempre acreditou que se cada um faz a sua parte as coisas andam, os projetos florescem e até o mundo melhora, percebe que a cultura generalizada não é essa, mas sim a do “se dar bem”, seja às custas do que, ou de quem for? E se você percebe que o trampo é show, mas também consegue ver o potencial que teria de ser muito, muito melhor, e sabe que ele não vai mudar, e que isso independe de você? E se você tem que trabalhar com pessoas sem escrúpulos, sem educação, sem tato, ou que não tomam banho? E se você faz o que gosta, mas não ganha o que sabe que merece? E se você tem que bater cartão todo dia, todo dia, e mora em algum lugar onde tudo fecha na mesma hora que seu trabalho termina? E se você, quando olha em volta, não enxerga as muitas outras oportunidades que sempre teve certeza que estariam lá esperando por você? E quando você percebe que seus conceitos de ética estão mudando mesmo se você não tem certeza de que os novos são corretos? E se você desaprende a desligar a cabeça, por ter tanto dentro dela, e acaba ficando meio lelé? E se você fica doente de desgosto?

É lógico que nenhum trabalho é tão ruim, mas é certo que todos possuem muitos destes elementos desconhecidos para nós, pobres sonhadoras mais ou menos iniciando suas vidas profissionais. É lógico que em qualquer lugar teremos dias ótimos, conheceremos pessoas que valem a pena, nos sentiremos recompensadas, valorizadas e realizadas eventualmente, seja fazendo faxina, pilotando um avião, ou sentada em uma mesa de reunião. É lógico que é justamente tudo isso o principal cenário que nos faz pipocar no óleo fervendo do panelão que é a nossa vida e ter a oportunidade de tentar exercer aquilo que acreditamos que somos, como pessoas, e não como profissionais.

Mas qual é o nosso limite de aceitação? Quando é hora de dizer chega e se mexer de verdade para mudar? E se eu tiver desperdiçando o meu talento, achando que tenho que exercer a todo o custo a profissão que um dia escolhi porque era uma pessoa muito criativa, mas deixando de ser feliz de verdade, trabalhando apenas com arte em sapatos? E se na outra empresa a comida é boa, mas o chefe é um horror? O salário é bom, mas terei que morar num lugar pior? E se eu falir no primeiro ano ao abrir uma empresa para tentar ser mais independente? E se em outro país os direitos do trabalhador forem muito melhores mas eu não agüentar o fato de ser eternamente um estrangeiro? E se eu mudar tudo, virar meu mundo de pernas para o ar, e no fundo, continuar tudo a mesma coisa?

E aí, o que fazer? Não dá para voltar a ser gente pequena e sonhar de novo em ser astronauta?

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Acha que escolher é tão difícil que, inclusive, andou percebendo que perde um tempão tentando fazer escolhas de problemas que ainda nem existem, e que muitas vezes simplesmente nunca virão a existir.

2 comentários:

Lila disse...

Cabecinha pensante... isso pode sim te trazer pensamentos desconfortantes mas ao mesmo tempo e o tempero que te faz ser assim, tao especial!
Voce vive e nao apenas sobrevive como muitas pessoas que vivem no limbo mental.
Admiro-te muito, sabes disso...
Beijos!

Milena disse...

Muito intenso Gi. Assim como a vida. O importante é saber que escolher é difícil e enfrentar a dificuldade com humor.

bjo

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