domingo, 13 de abril de 2008

Vou morrer tentando não chorar

Nós estranhamos quando o Buda não apareceu na Saideira do Comida di Buteco. A Saideira era um ritual nosso, um programa sagrado. Nada nos faria deixar de ir à Saideira. Ou quase nada.

No dia seguinte, ele nos telefonou logo cedo: queria saber se o Bola não poderia tentar agendar uma tomografia de urgência pra ele. A voz não estava boa e o Buda assumiu que estava sentindo muita dor. Quem atendeu o telefone fui eu. E foi a última vez que ouvi a voz do meu amigo. Um mês depois nós estavamos no velório dele. Era tudo tão ruim, tão triste, que não parecia real. Eu custava a acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Mas a pior parte era saber que eu não ia acordar nunca daquele pesadelo. Meu amigo se fora. Exatamente dois meses depois do aniversário dele. Havíamos preparado uma festa surpresa. Ele adorou. Tinha sido surpresa de verdade.

Quase um ano depois, fui surpreendida com uma mensagem do yahoogrupos: “Lembrete de aniversário. 11 de abril. Quinta-feira. Buddhakhan.” O Buda era o moderador do nosso grupo e quem assumiu depois dele (conhecíamos tanto nosso amigo que descobrimos a senha do grupo na base da tentativa) se esqueceu de apagar aquele lembrete. Ou faltou coragem. Quem sou eu pra condenar. Até duas semanas atrás o e mail do Buda ainda estava registrado na minha lista de contatos e mesmo assim foi estranho apertar a tecla “del”. Eu tinha a sensação de que apertar aquela tecla seria o mesmo que deletar o meu amigo e isto era inadmissível. Comentei com o Breu que aquela mensagem tinha acabado com o meu dia e vi que ele também tinha ficado péssimo com a mensagem. Saímos pra almoçar juntos no dia 11 de abril de 2007. O Breu, eu e um silêncio lacerante. Sabíamos que dali a dois meses estaríamos no sentindo péssimos de novo e assim foi.

Lembro-me de que, no desafortunado dia 11 de junho de 2007, data em que completaria um ano sem o Buda, não consegui segurar minha onda. Cheguei em casa no fim do dia e chorei feito criança. Saudade dói demais. Principalmente quando metade da sua vida, das suas lembranças, têm a presença de alguém que já não está mais presente. Quando o Bola ligou na hora do almoço, ficou rodeando, mas acabou falando que estava com um nó na garganta, que parecia que toda a tristeza do dia do enterro havia voltado. E havia mesmo. Choramos juntos a perda de um amigo. Um grande amigo, um irmão.

Mas o tempo passa, a saudade permanece, a lembrança continua, mas tudo pára de doer. Não sei se ficamos insensíveis ou se a vida é assim mesmo. Me consolo lembrando que o Buda jamais ficaria feliz de nos ver num luto eterno.

A tristeza acabou dando lugar à saudades, às boas lembranças, à alegria de ter sido amigo até o fim. O que o Buda pôde esperar de um amigo, ele teve de nós quando estava vivo. Nunca tratamos o Buda como um coitado porque ele era gordinho (ah, estes eufemismos... ainda vou me livrar deles). O Buda nunca teve nada de coitado, aliás. Mas era tímido, precisava exercitar a auto estima e, infelizmente, morreu antes que isso acontecesse. Quando o Buda foi promovido, foi pra gente que ele contou. Quando viajava, era pra mim que ele trazia chocolate suíço, era pro Bola que trazia Jack Daniels. Quando bebia, era no meu ombro que ele se amparava. Era conosco que o Buda comentava sobre um novo livro que tinha achado fantástico e foi por causa do Bola que ele decorou a primeira página de “Cem Anos de Solidão” inteira. Quando o Bola decidiu me pedir em casamento, foi pro Buda que ele perguntou o que ele achava de fazer uma surpresa. E o Buda, amigo, aconselhou o Bola a me perguntar primeiro. Não que ele duvidasse do meu sentimento pelo Bola, mas eles dois haviam se tornado grandes amigos e ele não queria que o Bola se expusesse ao risco de ouvir um “ainda não” em público. O Buda me conhecia bem. Dizia que se demorasse mais dois dias pra eu nascer, eu teria nascido homem. E foi o Buda quem se responsabilizou por colocar pra tocar “Todo Sentimento” na hora em que o Bola me pediu em casamento. Foi no meu ombro que o Buda chorou quando o Galo caiu pra segunda divisão. E foi comigo que ele passou vergonha na praia da Pipa quando o fiz entrar comigo numa festa particular achando que era um local público. Como nos divertimos eu e o Buda e depois eu, o Bola e o Buda. Temos muita história pra contar.

É por isto que nunca voltei naquele cemitério. Porque acredito que temos que aproveitar as pessoas enquanto elas estão entre nós. Não adianta chorar em lápide, se arrepender de ter sido ausente, de não ter feito o melhor, de não ter se dado por inteiro. O que já foi, já foi. E foi por isto também que este ano, quando recebi aquele lembrete de novo, tive vontade de matar o moderador do grupo (que nem sei quem é mais), porque não tinha nada a ver aquele e mail. Primeiro porque não precisa de lembrete pra se lembrar do Buda, segundo porque já se passaram quase dois anos desde a morte dele. Mandei um e mail meio desaforado pro grupo: “Que merda, hein? Alguém podia tirar este lembrete daí porque isso não vai nos trazer o Buda de volta!”

A ausência de comentários deixou claro que o pessoal ficou puto comigo. E, quer saber? Azar de quem ficou, se é que ficou. Ficar eternamente chorando as mágoas por uma perda não traz ninguém de volta, não recupera o tempo perdido. Eu não tenho arrependimentos. É claro que eu me lembrava do aniversário do Buda, mas a matéria não existe mais. Existe a lembrança. E não são necessárias datas pra se lembrar de uma pessoa querida. A gente lembra, esteja ela entre nós ou não, justamente porque gosta, porque ama.

Então, quem ficou puto comigo, não espere um pedido de desculpas meu. Não espere que eu me retrate. Não espere me encontrar aos pés daquela lápide fria, chorando a morte do meu amigo. Porque a ausência dele não faz parte da minha vida. Fez sim num primeiro momento, no calor das emoções, na dor da tristeza. Mas já não faz mais. E não porque eu não o amasse, porque não sinta falta do seu abraço, do seu beijo e da sua risada, mas porque as lembranças dos bons momentos que tivemos juntos nunca deixou de me acompanhar.

Laeticia é sincera quando diz que seu luto já passou, mas de vez em quando ainda não consegue segurar o choro. Lembra-se do seu amigo a todo momento, desde que ele se foi. Mas tem a consciência tranqüila de que se o Buda teve amigos, ela certamente foi um deles.

8 comentários:

Angel disse...

Imagino como deve ser difícil perder um grande amigo.

As lembranças boas devem sempre nos acompanhar. Não chore, pense no bem-estar dele e reze!

Bem vinda de volta Maria!

Bjos!

Silvia disse...

Como sempre mais um texto brilhante, mesmo que falando de sentimentos nem sempre felizes. Minha mae usar dizer que "saudade sangra", e sangra mesmo. Me lembro de quando viajamos e fomos visitar a casa do Papai Noel, eu, meu pai e minha mae (a Ana, como sempre, ficou em Nova Lima), e la nos podiamos pedir para que ele o Santa Claus nos enviasse uma carta no Natal. Bom, claro que nos pedimos ne, inclusive para o Bill. Vc se lembra dele? So que infelizmente quando voltamos de viagem a Ana nos contou que o Bill havia falecido e que ela, a coitada, teve que providenciar tudo. Pra coroar a situacao, quando chegou o Natal a cartinha dele apareceu la em casa, foi muito ruim, eu e minha mae nao conseguimos nos conter. Ate hoje temos um sentimento de que algo foi mal resolvido, por que nao estavamos aqui.
E com certeza a saudade ainda doi demais. Beijos, Silvia.

Renata disse...

Nossa! Teu texto mexeu lá no fundo... Nem faço idéia do que deve ter mexido contigo pra escrever, mas tá bem bonito mesmo... Que bom que ele tem amigos assim, que superam (na medida do possível) a barreira da matéria e se apegam ao sentido que se dá às coisas, às atitudes e às pessoas.
Bem vinda!
Bjs!

Mariana disse...

ai, leleca... nem fala... to aqui, aos prantos... penso no buda todos os dias da vida tb... e sinto ele sempre tão perto, q ate hj eh dificil acreditar no q houve... beijo grande.

Carla disse...

este comentário de cima foi meu, não sei pq sai como anômimo

Carla disse...

Leleca,

Sinceramente não acredito que alguém tenha ficado puto com vc. Acredito que todos sentiram a dor da perda novamente, como aconteceu comigo. E acredito que ninguém quis render assunto para não estender a tristeza. Não sei o por que, mas ainda tenho o número dele no meu celular, ainda não consegui apagar.

A saudade, a vontade de sentir o cheiro, de dar um abraço, de rir das coisa engraçadas que ele dizia e fazia. Lembro do Buda todos os dias, agora morando no sítio mais ainda, pois tem ele aqui em todos os cantos. E tem dias q a saudade dói. Que o choro vem. Mas as boas lembranças vão ficar para sempre. Estou chorando agora, não sei lidar com perdas e nem imagino se um dia vou aprender, pq se dependesse de mim não perderia ninguém, nunca mais. Foi o segundo amigo q perdi na vida e descordando de vc, a dor não acaba nunca. Ela diminui sim, mas não acaba.

Espero que um dia eu consiga falar dele sem chorar....

Beijos minha amiga e saiba que te amo demais mesmo estando afastada....

Laeticia disse...

Quem conheceu o Buda de perto, como a Carla e a Mariana entendem bem o sofrimento, porque o delas é o mesmo. Cecília e Sílvia acompanharam meu sofrimento de perto. Foi foda. Aliás, ainda é foda. Não dá pra não sofrer. Aqui em casa tb tudo tem a cara do Buda, as viagens, as fotos, até as as cadeiras da minha sala, porque foi ele quem deu de presente de casamento. Minha casa tem a cara do Buda nela. Ele ajudou na mudança, trocou lâmpada, mexeu na fiação, trouxe cerveja gelada e comemorou conosco. Esteja onde estiver, meu amigo, vc tb sempre estará aqui conosco.

Rosi disse...

O texto me fez lembrar de um amiga que também se foi e como ele era importante e presente na vida de toda a minha família.
Parabéns pelo texto e pela sensibilidade.
Muita força.

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