sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Rapariga

De acordo com o Michaelis:
Rapariga: ra.pa.ri.ga - sf 1 Feminino de rapaz. 2 Mulher nova; moça. 3 Mulher no início da adolescência, ou no decurso dessa idade. 4 Moça do campo; moça rústica. 5 V donzela. 6 pej O mesmo que amásia, concubina, meretriz. Aum: raparigaça, raparigão, raparigona.

Quando eu estava em Portugal, achava muito estranho as pessoas se referirem às moças como “raparigas”. Eu sabia que “rapariga” é feminino de rapaz, mas, embora atualmente não se use muito a expressão, aqui no Brasil todos nós sabemos a carga que ela traz. Quando fala “rapariga”, a gente pensa logo na mulher da vida difícil (na minha opinião, de fácil não tem nada), quenga, prostituta, vadia e outras palavras do tipo.

Então, se eu ouvia algum português se referia a mim como rapariga, embora eu soubesse que para ele era absolutamente comum, aquilo nunca deixava de me incomodar. Por fim, aos amigos mais próximos, eu explicava que aquilo me incomodava, explicava o significado, só pra não deixar passar em brancas nuvens o incômodo que aquilo me trazia. Era apenas um incômodo, já que eu sabia que não havia nenhuma intenção de ofender por trás.

Um dia, recebi um e-mail de um professor brasileiro da Universidade onde eu estudava, enviado com cópia para mais de 30 pessoas. O fato é que no e-mail ele se referia ao INPE mais ou menos assim “... é a instituição de onde vem a Maria Cecilia, esta rapariga que está a trabalhar com a Profª Drª Fulana...” e eu não acreditei naquilo. Eu li, eu reli, e quanto mais eu lia e relia, mais impressionada eu ficava. Minha colega de sala percebeu minha cara, e perguntou se tinha acontecido alguma coisa, e eu disse. Ela explicou (e eu já sabia) que “rapariga” é apenas o feminino de rapaz. Eu falei que sabia, mas que aqui no Brasil, embora seja uma expressão que não se usa faz tempo, que remetia a outro significado. E eu achava que ele, como brasileiro, sabendo que eu sou brasileira, não precisava ter mandado um e-mail pra tanta gente me chamando de “rapariga”. Eu sabia que nenhum dos portugas ia se dar conta disso. Eu sabia que pra eles era absolutamente normal. Mas eu senti aquela palavra junto do meu nome, “rapariga”, como uma afronta. Quem escreveu era brasileiro, conhecia a carga daquela palavra pra mim, e mesmo assim usou. Meu impulso foi dar um “responder para todos” e escrever apenas “rapariga é a rapariga que te pariu”, mas o bom senso falou mais alto e eu simplesmente fingi que achei normal.

Depois fiquei pensando se não foi frescura minha me sentir assim agredida, afinal eu estava inserida em uma cultura que tinha aquilo como normal. Mas com todos os brasileiros que eu já comentei isso, há unanimidade: ele, sabendo o peso que a palavra tem pra gente, na nossa cultura, podia ter me poupado disso e usado algum sinônimo. Concluí que o que importa não é o gesto de uma pessoa, já que eu não me sentia agredida se isso saía de um portuga. O que importa é ela conhecer o significado daquilo dentro da sua cultura e mesmo assim escolher ter aquela atitude.

Por quê estou falando disso? Porque esta semana ouvi uma pessoa contar uma situação que ela tinha passado que para nós, brasileiros, é apenas uma grosseria. E quem fez sabia que pra ela, pela cultura dela, aquilo era um gesto horrível, a pior coisa que se pode fazer com alguém. E mesmo assim fez, sem se importar se depois a pessoa ia ter que juntar os frangalhos dela pra tentar tocar a vida mesmo assim. E tem dias que eu estou pensando que se um simples “rapariga” em um e-mail me despertou algo tão ruim, esta agressão dela deve ser de um sofrimento que a gente não é capaz de imaginar. Quando se prega por aí respeito ao próximo, as pessoas deviam entender que respeito à cultura também é algo essencial.


Sisa está torcendo pra esta amiga se reerguer rápido, de forma menos dolorosa possível, mesmo sabendo que nunca vai conseguir entender totalmente o que ela está sentindo.

2 comentários:

Lekkerding. disse...

São os choques da vida moderna, são as mentes frias das pessoas. E é a diferença.

A pessoa que não é mais pessoa vai agora funcionar no mundo alheio como uma máscara de pessoa - porque afinal o mundo não se interessa pelo que acontece, desde que se cumpram os papéis de todos - e assim vai arrastar a existência.

Por mais mórbido e feio que seja, é assim, nesse mecanismo de fingimento, que a não-pessoa vai conseguir. É apenas lógico: ela põe pra fora e segura o marionete de gente. Ele aparece pra todos. E ninguém sabe que na verdade o ventríloquo é um fantasma de alguém que nunca morreu. Ele simplesmente não está lá, e nunca vai poder estar enquanto nesta vida não lhe devolverem a própria.
Segue o corpo debilmente animado. A nave vazia.

"Você, o mundo rejeita a partir de mim."
Sentença crua e cruel.
Autos conclusos no confinamento da mente brilhante. O réu encontra-se encarcerado no campo límbico da tela de vidro.E diariamente tenta racionalizar sua condição, para que o mundo veja a normalidade.

ocean soul disse...

Tava lendo e lembrei dela mesmo... mas no caso dela é como eu disse a ela, uma coisa fora da nossa imaginação... no ocidente sempre existe o jeitinho, o depois eu conserto, e no oriente existe o definitivo. São outros valores... é difícil entender. =\

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