quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Janelas

Janelas, pois sim, adoro-as. Molduras de pequenos mundos, gramofones de pensamentos.

Janelinhas de avião fazem sentir um pouco como Deus. Começam mostrando um pontinho de luz aqui e ali, logo viram sopa de estrelinhas e logo pó de purpurina derrubado sem querer que tomou a forma de onde caiu: morros, costas recortadas, buracos negros de águas e florestas. Pensamentos escassos pela falta de chuva no milharal juntando-se à reza para a prova de física amanhã e para que a baixa da bolsa não interfira nas ações, para que fulano não me esqueça, que se juntam ao pensamento em coro pelo grito de gol do timão e que se fundem num burburão, que vira silêncio. E é nele que às vezes escuto meus próprios pensamentos.

Se adorar janelinhas de avião e o barulho de seus pensamentos já é bom, o ápice da minha adoração é as janelas privadas. Caladas elas já me bastam. Ali mora uma moça e seu cachorrinho. Eles vivem sós e ela às vezes dança nua pela sala. Ali tem uma criancinha que se esconde atrás da planta quando o pai chega, para não apanhar. Ali mora o casal de velhinhos que inspirou o Google no dia dos namorados. Ali mora o moço que toca sax e a namorada gorda, que vem nos finais de semana.

Nem sempre as janelas coloridas e modernas abrigam os lares mais quentes, mas sim, muita tralha chique com muito espaço lá de dentro vazio. Ali naquela cortininha simples de chita, no entanto, mora um fogo descabelado que às vezes grita e é muito quente e espaçoso, mesmo quando a mesa está vazia. Porém, na cortininha simples ao lado desta mora o moço triste que matou o amigo.

O que o dono da janela quer mostrar geralmente é a forma como ele gostaria que o mundo o visse. Quando ele não está olhando a janela se rebela e o mostra como ele é. Nos segmentos conjuntos silenciosos observando as janelas alheias às vezes consigo encontrar a minha própria no meio delas.

Gisele Lins em um de seus momentos de contemplação cigana fora de sua rotina, exercitando o estranho hábito de observar janelas alheias. Escreve aqui às quartas-feiras.

4 comentários:

Rebeca Rocha disse...

nossa.. muito interessante a idéia de vocês, gostei demais :D
parabéns pelo blog!
bjos pra todas =p

Angel disse...

As janelas parecem separar mundos mesmo... parecem encantadas.

Adorei o texto!

bjo!

Valeu Rebeca! Visite-nos sempre! bjos!

Renata disse...

Bem legal o texto Gi! Meio vouyer essa coisa! Hehehe!
Brincadeira!
Bjs!

Lilian disse...

Gigi,
Lembra-te quando passeávamos pelas ruas, na penumbra, imaginando as personalidades das pessoas que lá, por detrás daquelas janelas estudavam, namoravam, trabalhavam, dormiam e sonhavam?
Demais!!!
Beijos amiga!
Lila

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