domingo, 25 de maio de 2008

Encontros

Que a vida é feita de encontros e desencontros, nunca tive dúvidas. Minhas dúvidas giravam em torno da minha própria capacidade de reconhecer os verdadeiros encontros, aqueles que fazem a diferença, criam momentos mágicos e unem pessoas para sempre, mesmo que seja por poucos minutos. Eu me perguntava se saberia reconhecer os encontros dos quais está sendo construída minha vida no momento me que acontecessem ou somente depois e temia minha reação diante da percepção de que havia havido também os desencontros. O tempo foi passando e confesso que percebi poucos desencontros. Mas guardo comigo cada um daqueles momentos em que me tornei uma pessoa melhor, mais capaz de compreender – ou pelo menos de sentir e aceitar – o novo, o diferente, o outro.

Nestes trinta e um anos experimentei esta sensação de me tornar uma pessoa melhor quando mudei de colégio, fiz intercâmbio, comecei a trabalhar, entrei na faculdade, fiz trabalho voluntário, conheci meu marido, adotamos a Laila, o Buda morreu, minha cara entortou e depois voltou ao normal, todas as vezes que recebi apoio em momentos ruins, voltei a escrever, comecei a correr e, finalmente, chutei o pau da barraca e larguei a advocacia. E houve encontros. Muitos encontros.

Ao mudar de colégio, encontrei a mim mesma. Descobri que dentro da menina insegura havia uma menina capaz, forte, determinada, sonhadora e sensível. Encontrei a música, reencontrei a dança. Encontrei amigos, alguns dos quais ainda sonho em reencontrar.

Durante o intercâmbio, encontrei pessoas que abriram as portas do seu lar pra uma estranha. Alguém que eles não conheciam, que entrava em sua casa, tirava-lhes a liberdade, mas que, ao longo do tempo, acabou se tornando um membro da família. Houve sim amigos neste período, mas o encontro verdadeiro ocorreu com a família.

De volta ao Brasil, comecei a trabalhar e este foi um encontro diferente. Encontrei uma realidade mais dura; encontrei a vida adulta. Horários, prazos, metas, colegas, chefes, muito trabalho, pouco dinheiro, contas pra pagar e cansaço. Cansaço físico, porque cansaço mental só fui encontrar muitos anos depois.

Quando entrei na faculdade, encontrei sonhos, esperança, vontade de mudar o mundo. Encontrei o idealismo, a certeza de que eu faria a minha parte por uma sociedade mais justa, melhor pra se viver, com menos desigualdade e mais solidariedade. Encontrei também alguém que julguei um dia ser um grande amigo, mas com quem depois encontrei a decepção. Parando pra refletir, percebi que havia encontrado também a humanidade, a imperfeição e parei de julgar meu amigo.

Meu marido, encontrei por acaso. Este foi o grande encontro da minha vida. Não me faltam palavras para descrever este encontro, mas prefiro guardar algumas só para mim. Mas digo que, com ele, encontrei amor, companheirismo, amizade e respeito; encontrei riso, sorriso, gargalhada, choro, grito; encontrei paixão, carinho, tesão; encontrei colo e proteção e capacidade de retribuir; encontrei gula, arte e diversão, literatura, cinema, televisão. Encontrei minha cara metade, aquela que eu tinha certeza não existir e que me provou que certezas são subjetivas.

No voluntariado, encontrei superação. Encontrei a miséria, a dificuldade, a violência, o crime e a punição. Encontrei famílias separadas, destruídas por alguém em um momento de loucura, medo, desespero e desilusão. Mas encontrei mãos estendidas para amparar aqueles que estavam caídos. Encontrei pessoas capazes de atos de solidariedade e compreensão dos quais imagino jamais ser eu mesma capaz. Conheço meus defeitos, reconheço minhas limitações. Encontrei a humildade, recusei os julgamentos, consegui ajudar algumas pessoas a reencontrarem a si mesmos. Valeu a pena.

Com a Laila, reencontrei o amor incondicional, a lealdade e a compreensão silenciosas. Reencontrei a confiança cega, a certeza de proteção. Mas também reencontrei o medo de perder isso tudo outra vez. A Laila chegava, mas eu nunca me esqueceria da Germana, das Saras e das Isoldas que me haviam dado tudo aquilo sem pedir nada em troca, só comida, água e um pouco de atenção, e que haviam partido como a Laila também irá um dia.

No enterro do meu amigo Buda, encontrei a solidão, o sentimento de perda, a dor, a frustração. Mas reencontrei a amizade, o apoio, o carinho e o consolo de haver vivido uma amizade verdadeira.

Quando adoeci, encontrei a impotência diante da vida, o desespero da falta de controle sobre mim mesma, o medo de não voltar ao normal, a revolta por ter ficado doente, e, finalmente, o alívio que traz a certeza da capacidade de superação. Encontrei carinho, amor, abraço, beijo, calor. Encontrei-me frágil e indefesa, sofri, mas reencontrei a menina de antigamente. Eu estava com saudades dela.

A menina sonhadora, então, encontrou o que lhe pareceu na época, o meio de realização dos seus sonhos. Mergulhou de cabeça, sem medo, mas encontrou uma pedra. Desta vez a ferida foi mais profunda e encontrei a angústia, a incapacidade, a tristeza, a certeza de estar trilhando o caminho errado. Encontrei forças para voltar atrás e tentar um recomeço. Neste meio tempo, reencontrei o prazer da redação. Abandonei temporariamente meus textos técnicos, encontrei mulheres como eu e me deitei num divã coletivo. Encontrei as mesmas dúvidas, as mesmas angústias, os mesmos medos, as mesmas alegrias; encontrei muitos sonhos como os meus e reencontrei os meus próprios limites.

Decidi superar alguns destes limites, comecei a andar, trotar e, por fim, já estava correndo. Encontrei força de vontade; reencontrei uma amizade que eu julgava perdida. Encontrei mais alegria do que eu sempre tive e reencontrei o sorriso que andava meio escondido. Eu já havia me desiludido com a advocacia e havia reencontrado a vontade de mudar. Eu estava pela segunda vez na vida reencontrando a mim mesma.

Muitas pessoas presenciaram poucos ou mesmo nenhum destes encontros, poucas pessoas presenciaram todos, mas algumas pessoas presenciaram em pouco tempo encontros muito importantes. Hoje eu conheci pessoalmente algumas destas pessoas. Eram pessoas que dividiam comigo um espaço importante, dividiam o divã virtual. Eram mulheres de trinta que se encontravam, algumas, fisicamente pela primeira vez. E também pela primeira vez encontrei rostos, olhares, abraços, sorrisos que virtualmente dividiam tantas emoções que este não parecia um encontro simplesmente, mas sim o reencontro de quem estava unido pelas mesmas emoções.


Laeticia esteve no primeiro dos muitos encontros das Mulheres de Trinta e lembrou-se de Vinícius novamente: a vida é mesmo a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nesta vida.



8 comentários:

Angel disse...

Os Encontros é que valem e, admiravelmente, às vezes, nos prendemos ao desencontros. Por que será?

Que nossos encontros sejam mais intensos e mais frequentes que os desencontros.

Bjos!

Carla disse...

Delícia de texto... cheio de sentimentos como vc sempre é!!!

Pena ter perdido o encontro das balzacas, mas tenho certeza q será o primeiro de muitos!

Espero que seu reencontro consigo seja maravilhoso e que vc encontre o amor sempre!!!!

beijos

Lyn Monroe disse...

Lindissimo texto!
Emocionante.
Que todas vcs sempre tenham bons encontros.
em todos os sentidos.
Encontrar ao vivo amigos virtuais é algo muito especial.
Beijos e uma otima semana!

Patrícia H disse...

Tbm acredito naquele encontro que só acontece depois de muitos desencontros...tem um gosto diferente, de "nova chance" e uma vontade de valorizar ainda mais o que por tanto tempo nao deu certo.Foi assim comigo, depois de muitos desencontros, o encontrei e me encontrei!
Parabéns pelo texto, lindo!

Milena disse...

Sensacional Laetícia.
Que saibamos atuar com maestria nessa arte do encontro.
Beijos!

Renata disse...

Laetícia, também tive a sensação de reencontro ao ver todas vocês!
É um prazer dividir o "divã virtual" com esse grupo!

Beijão!

vanandram disse...

Nossa, Laeticia, que lindo o seu texto! É pra ler ouvindo a Maria Rita cantando "lalalauelalalalala..."
Um abraço, Vanessa.

Rosi disse...

Lindo, lindo. Muito inspirador esse texto. Quantas coisas passarem em minha cabeça ao lê-lo.
Parabéns pelas belas palavras.

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