sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Ensaio sobre a Antipatia


Antipatia. Do latim antipathia derivado do grego antipátheia. Substantivo feminino. Aversão instintiva, espontânea; aversão natural; repulsa; ódio. Ou ainda, antipatia (do grego antipathéia, pela junção de anti = contra e pathéia = afeição) é uma aversão ou repugnância de uma pessoa para com outra.

Aversão espontânea, repulsa, ódio ou repugnância, a antipatia é objeto de estudo por várias áreas do saber há alguns séculos, buscando as raízes deste sentimento nos primórdios da humanidade. Fato é que, por simpatia ou antipatia, pessoas são tratadas assim, ou assado, e isto vale para política, psicologia, sociologia, filosofia e blogs em geral.

Dizia Paul Valery que “o estado de espírito de negação precede freqüentemente a ocasião de negar. Antes que tenhas falado, se me és antipático, a minha negação está pronta, digas o que disseres - pois é a ti que eu nego”. É. Parece-me que simpatia ou antipatia dependem muito mais do estado de espírito daquele que nos vê e da pré disposição em não aceitar o outro do que por sermos o que realmente somos. E o estado de espírito das pessoas sofre influência de tantas circunstâncias extrínsecas e, principalmente, intrínsecas que a vítima da antipatia está previamente condenada à negação. E o alvo da simpatia, por evidente, tem garantida a salvação inconteste.

É o princípio da simpatia e antipatia que tende ao máximo a pecar por severidade excessiva. “Tende este princípio a aplicar castigo em muitos casos em que é injusto fazê-lo, e, em casos em que se justifica uma punição, a aplicar a severidade maior do que a merecida. Quer se trate de diferenças de gosto, quer se trate de diferenças de opinião, sempre se encontra motivo para punir. Não existe nenhum desacordo, por mais trivial que seja, que a perseverança não consiga transformar num incidente sério. Cada qual se torna, aos olhos do seu semelhante, um inimigo e, se a lei o permitir, um criminoso. Este é um dos aspectos sob os quais a espécie humana se distingue - para seu desabono - dos animais”. (Bentham).

Há quem veja inclusive a antipatia como uma forma de preconceito. O interesse pelo estudo científico do preconceito, sob a perspectiva psicossocial, surgiu a partir da clássica publicação da obra intitulada “A natureza do preconceito”, por Gordon Allport, em 1954, na qual foram lançadas as bases para as investigações a respeito da natureza de tal fenômeno, assim como dos métodos para a sua redução. Nessa obra, Allport conceituou o preconceito como uma antipatia ou hostilidade dirigida a grupos ou a membros específicos desses grupos, devido a generalizações incorretas. Isto mesmo! Generalizações incorretas. Seriam tais generalizações incorretas o fundo psicossocial da antipatia que um ser humano passa a nutrir por outro à partir de (in) determinado momento?

Chamem os cientistas sociais para responder à pergunta, se quiserem. Eu me contento com o debate saudável entre gente comum e de todo lugar. E tenho cá minhas opiniões a respeito da antipatia. E muitas dúvidas também. Afinal, porque é que nos exigem ser simpático? Será possível ser simpático cem por cento do tempo? Será que o pobre simpático não tem direito a um dia de mau humor, uma TPM básica, uma prisão de ventre? E, se neste dia o simpático não sorrir incondicionalmente, não desejar bom dia com entusiasmo, não se dispuser a ajudar ou não omitir sua verdadeira opinião sobre um tema qualquer? Será o simpático automaticamente convertido em antipático?

Li num blog (*) - muito simpático por sinal - que parece haver algo de moralmente errado nessas pessoas que vão ao supermercado e fazem amizades no corredor de laticínios. São pessoas simpáticas que não colocam cercas no próprio espírito; e a qualquer momento você encontra dois jardineiros, uma manicure e dois borracheiros dormindo na cozinha de sua psiquê. Ser simpático é bom, mas respeitar o próprio mistério é melhor ainda. Cada pessoa devia ser reservada e misteriosa como uma mulher de véu. Era para isso que o véu existia; uma lembrança de que as pessoas devem ser sociedades secretas, não clubes de bingo. Coloque cercas. Coloque muros. Só sorria quando der vontade.

E não é que o blogueiro tem razão? De tanto ser simpático, acabamos vendo nossa vida particular, nossas questões mais íntimas discutidas abertamente no vestiário da academia, no balcão do açougue, no caixa da padaria do bairro. Quem nunca teve um porteiro que dá notícias da vida de todo mundo do prédio que atire a primeira pedra. E atire a segunda quem não concordar que a vida do pobre simpático faz parte do domínio público. Tudo por andar por aí assentindo com todos, rindo e sorrindo, na maior promiscuidade social.

Mas as facilidades rotineiras do ser simpático acabam por atrair mais fiéis. De fato, ser simpático facilita muito a vida sob alguns aspectos e isto explica o esforço sobre humano que muitos fazem para adquirir o status de simpático (**). Já assumir-se como se é verdadeiramente, mesmo que assim você pareça a alguns olhos uma pessoa antipática, embora demande menos paciência, é mais difícil, e exige uma boa dose de auto-estima.

Quando se é simpático naturalmente e, por vezes, naturalmente antipático, fazemos dos sorrisos uma deferência, pois é claro para todos que há na vida momentos bons e momentos ruins e que as reações de cada um são inquestionavelmente subjetivas. O ser normal, por vezes simpático, por vezes antipático, e que trata todos com educação, a despeito dos seus bons e maus momentos, tem na sua distinção um trunfo, pois é ela que lhe dá credibilidade. A credibilidade depende em muito do ser o que se é, sem máscaras e sem faz-de-conta, sinceramente.

Enfim, faço minhas as palavras do blogueiro (**): pela retidão moral, é absolutamente necessário ser (por vezes) antipático – e livre para escolher o momento e o destinatário adequados para fazer florir a simpatia. Muito melhor do que o simpático contumaz, manchado pela desonra de sempre refrear seus arroubos de antipatia, que devem ser tantos...

Laeticia acredita que serem as pessoas o que são de verdade não parece exatamente uma questão de simpatia ou antipatia, mas sim de compreensão ou incompreensão.

(*)
http://www.apostos.com/soaressilva/2003/05/antipatiquices.html
(**) http://andresimoes.wordpress.com/2006/07/20/defesa-algo-interessada-do-antipatico/

6 comentários:

Liz disse...

Esse texto teve muito a ver com meus questionamentos pessoas do momento :)Tava justamente conversando sobre assunto ontem. Essa coisa de que todo mundo tem que ser super simpatico, falante e sorridente...

Sou fã dos seus textos!

Gisele Lins disse...

Um belo ensaio, eu diria. Curti mesmo!
Um beijão pra voce!

Silvia disse...

Como sempre muito bom. Me identifiquei diversas vezes e gostaria de ter me visto noutras tantas, apesar de me achar uma pessoa mais pra emburrada, vi de certa forma minha vida sendo discutida no balcão do botequim e sinceramente não gostei, talvez eu seja mais simpática do que eu imaginei, e tambem não gostei. Vamos lá, a procura de quem realmente mereça nossos sorrisos e casos. Beijos, Silvia.

Giovana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Giovana disse...
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Giovana disse...

Realmente é impressionante como simpatia e antipatia podem fazer a diferença.Na minha opinião ser simpático não implica necessariamente em ser invadido. Cabe a cada um impor seus limites e isso é muito necessário sem dúvida. Infelizmente no meu ponto de vista uma pessoa realmente simpática e normal dificilmente será vista como antipática porque acredito sinceramente que simpatia é uma característica intrínseca e que as pessoas que a possuem jamais se dissociam dela.Conheço simpáticos que até em horas muito difíceis conseguem ser extremamente assertivos. Enfim simpatia é fundamental, antipatia não.

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