quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Destrambelhemo-nos

Vinde, irmãos! Juntemo-nos aos bons! Sigamos a luz! Destrambelhemo-nos!

(Ups, eu esqueci que agora estou proibida de usar palavras pejorativas quando me referindo à primeira pessoa do singular ou plural).

Vinde, irmãos! Juntemo-nos aos bons! Sigamos a luz! Passemos tranqüila e desapercebidamente por um ligeiro período de desequilíbrio emocional, tensão traumática, pós-traumática, pré-menstrual, pré-nupcial, TOC, distúrbio do sono, da ansiedade, do humor, da personalidade, alimentar, depressão, mania, hipomania, ciclotimia, demência, medo, pânico, fobia, psicose, esquizofrenia, loucura. Quem nunca teve ou tem? Quem garante que você não terá? Para os que garantem, aguardem, apenas ainda não inventaram o nome do detrambelhamento que cai bem para você, mas eu garanto: ele ainda vai entrar na moda!

Comigo foi assim. Uma pessoa agitada, sempre pensando no amanhã, tanto que esquece às vezes de viver o hoje, organizada demais (quem consegue achar qualquer coisa no seu armário no escuro? Eu! Eu!). Nervosa quando as coisas não acontecem como previa, fazendo mil coisas ao mesmo tempo. Até aí, tudo bem. Pessoa normal. Até começar a chover forte na terra da garoa, as ruas ligeiramente alagarem e ela surtar de medo da entrar água no carro, de morrer afogada, do motoqueiro bater, do caminhão não nos ver, de derrapar na freiada, mas o que é isso, que absurdo, é, sim, absurdo, mas eu to sentindo, como assim, vais perder o controle? Ai meu Deus, eu vou, eu vou, eu vou perder o controle!

Pronto! Destrambelhou. Caput. Do sofá da psicóloga pula para a cadeira do psiquiatra. Quer dizer, mais ou menos. Antes descobre que cadeira de psiquiatra é mais concorrida que concurso público nos dias de hoje. O quê? Só daqui a trinta dias? Idéia: e se eu chegasse à sala de espera simulando uma luta corporal com um alienígena? Sr Puko responde fácil: huuum, pode ser, o duro é que a chance dos outros te ajudarem a segurar o ET por lá é grande, daí já era.

Enfim, depois de uma loooonga conversa escuto: você é horrorosa! Terrível, o fim da picada para você mesma. Tem personalidade obsessiva. O quê? E ele me descreve como um guru, um astrólogo, um vidente, e não como um doutor. É, sim, tudo bem, não é problema. Cada um é cada um. Você deve sair-se muito bem em entrevistas, mas não se dá muito bem com o “querer”: é pra ontem, e tem que ser assim. E quando não dá? Destramb... Ups! Desequilibra! Mas é normal. Toma aí uma boletinha. Uma não, duas, porque uma tira o sono e a outra faz dormir. Equilíbrio, entende?

Então, eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou. Parará tchim bum. Parará tchim bum... ... ... ... Refletir. 

Que coisa, não é? Agora é pegar todo o meu preconceito de achar que gente meio lelé quer é chamar a atenção, cortar pela raiz o meu pânico de remédio (me-di-ca-men-to, afinal, eu sou farmacêutica, a mais anti-me-di-ca-men-to que existe, mas...), avisar os que convivem comigo que eu posso vir a ter comportamentos um pouco estranhos, sentir na pele o preconceito e a descrença de quem acredita que eu não tô sentindo nada, só quero chamar atenção (viiiiiiu? Bem feito! A língua é chicote da bunda!), seguir tomando florais, fazendo terapia, ioga, meditação, relaxamento, Tai-chi... (reparou? Pra cada destrambelhamento existe um anti-destrambelhamento! Legal!) e seguir em frente.

Tudo bem, tem o lado bom, descobrir do dia para a noite que tenho personalidade obsessiva, no momento com distúrbio da ansiedade e com risco de outros episódios de pânico se não tomar boletinhas, tem me deixado calminha, calminha.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Quer dizer, costuma escrever, quando não está por aí fugindo dos marcianos.

5 comentários:

Carla disse...

Que delícia de texto Gi!!! Mesmo destrambelhando não perdeu o humor e a graça!

Já tive o mesmíssimo destrambelhando que a senhora e bom disso é que passa!

E o ruim é que outros aparecem!!!!

Se cuida e toma as boletinhas direitinho e nada de cervejinha!!!!

Beijos

Gisele Lins disse...

Puxa, obrigada, Carlinha!
Quanto á cervejinha, o doutor-vidente escolheu umas boletinhas que poooooode. Só tenho que cuidar porque fico bebinha mais rápido! Melhor né? Gasta mais com boletinhas e economiza na cervejinha, rsrsrs.
Daí só não pode dirigir, mas isso já não podia antes mesmo...
Beijão!

Laeticia disse...

Quem nunca precisou de uma boletinha que atire a primeira pedra!! Maravilhas da ciências, as boletinhas não trazem felicidade, mas quando tudo parece fora do lugar, elas podem nos ajudar a enxergar melhor e a achar as coisas que procuramos no escuro da nossa alma igual você já consegue achar coisas dentro do escuro do seu armário!! Relaxe e vá de boletinhas. Te hora que é preciso. Ninguém é de ferro. Beijos.

Milena disse...

Hahaha
Adorei o texto.
bem destrambelhado =)
igual a dona!
oooops... terceira pessoa pode?

Lila disse...

Soube de mais detalhes por aqui, por incrivel que pareca.
Elas operam milagres mesmo e nos da umma sensacao de liberdade quando chega nosso momento de alforria tbem. Duplo prazer :-)
A proposito, estou livre ja faz quase 6 meses....

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