quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A síntese da quadragésima casa

A casa não tinha nada de engraçada, era linda. Tinha teto, sim, e todas as coisas espalhadas embaixo dele. Todos os amigos sinceros podiam entrar lá quando bem entendessem, e sentar nas cadeiras espalhadas ou no chão de madeira, tão esperado. A rede amarela estava lá para ser dormida e ainda se podia escolher em qual parede dependurá-la. Penico não tinha não, mas banheiros lindos com água quentinha abrigavam qualquer pipi ou superbanho relaxante. Dela foi feito um lar com muito esmero e, certamente com muito amor, mesmo que ficasse na Rua dos Bobos, número zero.

A casa passara a ser o terceiro membro desta pequena família. Foi muito procurada, esperada e querida. Ficou à espreita, esperando que eles fizessem as pazes com aquele lugar e só então apareceu toda exibida, como se enfim eles a merecessem.

A casa foi testemunha de muitos momentos, que são os melhores dentre os temperos da vida. A casa viu amigos sentados no piso ainda vazio, mas felizes pelos dois, viu amigos passando aperto para carregar seus pertences, palpitando sobre onde iria o sofá e escolhendo em qual quarto iriam dormir quando se passassem no vinho, ou apenas tivessem vontade. Ela viu amigos de longe e ouviu sotaques estranhos. A casa ouviu barulho de gente reunida, trilha sonora e muitas risadas. Sentiu cheiro da graxa na brasa, de fermento de pão, de ervas frescas e de comida de mãe de vez em quando. Sendo casa, fazia barulhos, rangia o chão, batia uma porta pra dizer que estava ali, que também estava bem e que estava tão viva quanto os outros dois. Ela viu os temperos do jardim crescerem, e as pequenas flores coloridas darem o ar da sua graça. Estranhou quando o filhote de cão peludo chegou e, de início não gostou da novidade barulhenta, mas depois ficaram grandes companheiros.

Ás vezes alguém que não estava muito feliz entrava na casa trazendo sentimentos estranhos e desejando viver no lugar dos que viviam lá, mas a casa esperta não deixava que seus pensamentos interferissem no ânimo dos dois, e ainda mostrava à pessoa que também havia lugar para ela lá. Casa e anjos se davam muito bem.

A casa riu quando ela perdeu a aposta e teve que fazer muitos cafunés nele porque jurou que na casa não havia bidê. A casa vibrou quando ele saiu e voltou em seguida, percebendo que ela não queria ficar só, mesmo chateada. Ela comemorou junto com eles suas pequenas vitórias de todo dia e não lhes virou as costas quando as coisas não iam bem, lembrando-lhes de que ela própria era uma vitória deles. Ela ouvia o sagrado silêncio confortável de quem se ama e os abraçava ao fim do dia, quando exaustos iam dormir de conchinha.

Os três (quatro quando veio o cão) não foram felizes para sempre juntos, porque isso é chato e porque o mundo muda muito rápido nos dias de hoje. Mas quando os três foram embora eles tinham certeza de que foram muito felizes e viveram em paz.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Nesta semana faceira, mesmo no meio do caos, por precisar de armários para a cozinha, uma boa mangueira e uma escada comprida.

2 comentários:

Milena disse...

Os quatro + os amigos né??
rs
amei o solar dos G!
bjo

Lilian disse...

Cao? Meu Deus, que cao e esse????

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