sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Não vou pedir desculpas

Tinha dois textos prontos pra hoje mas queria escrever outro, mais leve, mais feliz, retratando como eu estou me sentindo. Aí alguém apareceu e conseguiu o que parecia impossível: me azedar. Ainda estou feliz com as perspectivas que estão aparecendo. Mas tenho que colocar esse azedume pra fora antes que ele me contamine.

Fui privilegiada em muita coisa na vida. Tive acesso a coisas que a grande maioria das pessoas não tem. Pude viver e ver muitas coisas que a minoria tem acesso. Estudei em boas escolas, pude me dedicar totalmente à minha formação. De alguma forma sempre soube que queria ser acadêmica, mesmo antes de saber o que isto era. Me lembro que ainda criança falei com minha mãe que queria trabalhar de alguma coisa que estudasse pra sempre. Acredito que nenhum país cresce sem pesquisa. Acredito que nenhum país tem futuro sem ensino. Gosto de pesquisa e sonho estar em uma sala de aula. Não me importo de viver de bolsa enquanto me preparo em tempo integral para isso. Mas se surgir alguma oportunidade de já começar a colocar a mão na massa, também vou adorar. Tenho corrido atrás disso (da forma possível estando longe) e tenho perspectivas interessantes para 2008. Se tudo der certo, vou melhorar ainda mais minha formação. Acho que aos poucos estou chegando perto de cumprir minha missão nesta vida, que eu acredito que esteja ligada à educação. Vai ser minha forma de devolver ao mundo tantas coisas boas que recebi e recebo. Eu me sinto privilegiada de acordar todos os dias pra fazer o que gosto. Não me importo de abrir mão de coisas materiais pra isso. Aliás, sou mais desapegada de coisas materiais do que deveria. Pra mim, felicidade é poder fazer o que amo e contribuir com aquilo que acredito: Ciência e Educação.

Acontece que tem muita gente que ou não gosta, ou não teve as mesmas chances, ou não quis estudar. Alguns mesmo assim conseguem um bom emprego, muitas vezes são competentes no que fazem. Mas acham bobagem alguém se dedicar ao conhecimento, como foi minha opção. Por favor, sei que vou parecer arrogante aqui, mas não queiram comparar a formação de quem fica anos se preparando pra área acadêmica com a formação de quem trabalha o dia inteiro e se matricula numa faculdade Unisquina (aquelas universidades que abrem todo dia em cada esquina) à noite e mesmo assim se esfola pra passar em matérias que alguém minimamente preparado tiraria de letra. Nada contra trabalhar e estudar, pelo contrário. Sou contra Unisquinas. Não comparem quem passa o dia inteiro debruçado em cima de livro e pesquisa com alguém que vai ao PROCON denunciar uma faculdade porque foi reprovado “e se eu paguei tenho direito” (sim, isso aconteceu em São José dos Campos, um professor que me contou). Se a pessoa se realiza num chão de fábrica, com a mão na massa, ótimo. Vai fazer isso. Mas não desdenhe quem abriu mão de conforto material pra fazer aquilo que acredita, pesquisando em um país onde pesquisa não é valorizada. O trabalho de alguém que trabalha em indústria não é nem melhor nem pior que o trabalho de um acadêmico. Da mesma forma que eu respeito um técnico ou engenheiro, e reconheço o valor do trabalho deles, exijo que o meu trabalho também seja no mínimo respeitado. De preferência valorizado.

Tão deprimente quanto isso é alguém querer contratar um doutor ou quase doutor para dar aulas particulares e querer pagar 10 reais a hora. A gente vê o quanto professor é tratado como lixo quando ouve uma pessoa comentando que perguntaram pra ela “quando você formar, vai trabalhar ou dar aula?”. Eu me pego pensando onde vai parar um país onde um professor universitário é massacrado para aprovar muitos alunos que não sabem nem matemática básica, senão perde o emprego.

E da mesma forma que eu fico revoltada com essas coisas, fiquei muito triste quando comentei hoje com uma amiga algumas perspectivas que estão surgindo na minha vida e ela comentou que “já está na hora de você trabalhar e colocar em prática tudo que estudou”. Fez o comentário como quem diz “Nossa, que legal, você se preparou tanto e agora vai ter chance de se realizar”, mas com sentido de “vai trabalhar, vagabunda”. O quê se há de fazer se ela não acha que produzir ciência (ainda ganhando uma miséria) é trabalho? O quê se há de fazer se alguém não acha que o dinheiro que invisto em livros, material, curso de alemão, entre outras coisas não é bem empregado? O que eu tenho de mais precioso é aquilo que ninguém vai nunca tirar de mim: conhecimento. Eu tive várias oportunidades que pouca gente teve, e elas me trouxeram até aqui: estudei nos melhores lugares, inclusive nos que precisei competir com os melhores por uma vaga, falo três línguas fluentemente e estou aprendendo uma quarta, estou tendo minha segunda experiência de morar no exterior, e somado a tudo isso, eu faço o que amo. Se as oportunidades que minha mãe me deu e as escolhas que fiz me trouxeram até aqui, sinto muito, mas não vou pedir desculpas pra ninguém por ter a vida que eu sempre quis.


Sisa fica muito triste quando vê alguém desvalorizar aquilo que ela acredita. Ela não desvaloriza o trabalho de ninguém, desde o lixeiro, o porteiro, o padeiro, até engenheiros, administradores, médicos e advogados.


7 comentários:

Sisa disse...

Essa madrugada quando escrevi este texto estava triste. Agora eu tou mesmo é PUTA! Que venham as pedras, se alguém quiser jogar. Mas agora tou com tolerância ZERO com certas coisas!

Paula disse...

Cecília,

A vida que escolhemos nem de longe é fácil; se bem que qualquer vida, com empenho em fazer o melhor, não é fácil. Podemos ser bons ou "meia-boca" a vida inteira, o que pega mesmo é a consciência na hora de dormir.
Eu prezo muito o conhecimento também e, assim como você, fiz a opção por esta vida acadêmica (embora mais pesquisadora e menos professora). Quando saí da Academia de Polícia e falei o que ia fazer, todos me desdenharam. Hoje, posso ganhar menos que meus ex-colegas, mas sou mais feliz que a maoiria deles...
Eu me engasgo mesmo com a falta de valorização que conhecimento, educação e ciências têm neste país. E o mais triste é que muita gente que se diz letrada não tem idéia do que é pesquisa, aprender com afinco e se esforçar para desenvolver algo sobre tudo aquilo aprendido... Onde vamos parar assim?

Beijos.

Débora disse...

Cecília,

Quando casei, o Mário ainda fazia doutorado, ouvi várias vezes de alguns ignorantes: "Mas ele não trabalha e já tem 30 anos?"Do tipo, ele é vagabundo...O Mário queria morrer e eu tbm, fiquei puta várias vezes e ele mais ainda!! Mas tudo tem seu tempo, hoje o Mário com certeza ganha muito mais do as pessoas que falaram isso!Dou toda razão pra vc estar puta!!Também sou contra as Uniesquinas e saio do sério quando ouço de alguém que faz esse tipo de faculdade: "Só preciso do papel do diploma pq já sei tudo dessa área!" Nossa! eu quero morrer de tanta raiva, se essas pessoas acham que a faculdade não acrescenta nada, então qual a qualidade desse ensino? O triste é saber que esse é o tipo de profissional que o Brasil está colocando no mercado...

bjs

Angel disse...

Poderia falar sobre esse assunto a noite inteira: escolhas, educação, ser feliz fazendo o que se gosta, etc, etc. Vou tentar não ser muito chata.

Como sabem estou cursando a segunda falculdade, mais por necessidade do que por paixão. Falo de paixão pela profissão que abraço agora. Não tenho. Gosto, mas seria mais feliz se fosse a Relações Públicas que sonhei ser e não deu...

Paixão por estudar eu sempre tive, adoro estar lá, na faculdade, aprendendo, mesmo que passando muita raiva. Raiva com os professores, eles estão deixando muito a desejar... E raiva com algumas das minhas colegas. Parece que eles não sabem o que é estudar, querem tudo fácil, na teoria do "pagou passou" mesmo. Isso me enoja, me deprime até...
Valorizo muito a sua escolha e sei que seu caminho não será fácil, mas amar o que se faz é fundamental para vencer obstáculos. E estou certa de que você receberá elogios de seus alunos, fico imaginando, deve ser a glória... alguém te reconhecer como mestre, aprender algo real com você.

Você vai viver isso e todas as dificuldades serão bem menores que o prazer de educar.

Obs.: Tem certas coisas que nem precisam entrar por um ouvido para sair pelo outro...Delete o comentário dessa "amiga".

Beijos!

Huguinho disse...

Puxa, legal e motivador o seu texto!!! Na minha opinião, conhecimento é tudo e não há nada que pague o valor que ele tem. O importante é fazer o que gosta. Curti muit quando escreveu que pretende retribuir por tudo o que recebeu. Uma vez li num livro uma coisa mais ou menos assim: "A Arte guardada para si mesmo é morta"
Abraços, menina!!!

Thiago disse...

Bom, meus comentários sobre este texto você tem lido faz muito tempo pelo msn. Dividimos a mesma paixão, apesar de meu caminho ser um pouco diferente. Mas no fundo tenho certeza que estamos certos, seria injusto termos todas estas oportunidades e não aproveitarmos para o nosso bem e o bem do próximo. Não tô muito inspirado hoje, mas amei seu texto, como sempre. Tava com saudades do blog, vai levar um tempinho pra eu ler todos os textos que perdi...
Beijos!

Um homem disse...

Prezada Sisa
Sei que não sou isento quando se trata de minha filha, mas vá lá: tenho uma filha de 7 anos que é (estou sendo isento!) inteligente "acima da média". Ou pelo menos apresenta uma inteligência do tipo "acadêmica" desde cedo: gosta de ler (chega a pegar um livro para dormir com ele ao invés de uma boneca), gosta de matemática, quer aprender música, etc. Dia desses comentou comigo e com a mãe dela que queria ser professora. Pensei e comentei depois com a mãe (que é coordenadora pedagógica): coitada, professor é a profissão mais importante que existe e a menos valorizada.
Quem quiser ser professor no Brasil precisa ser idealista como você é. E quem quer ser idealista não pode ser "people-pleaser" ou, se for, tem que mudar de atitude. Não viva para agradar os outros, viva para atingir o seu objetivo. Se acharem que você é "vagal", paciência. Você não precisa provar nada para ninguém. Lute pelo seu objetivo. As pessoas falam demais, falam do que não entendem e acabam falando besteira. Persiga seu objetivo não importa o que as pessoas dizem. Se você fosse minha filha (e talvez minha filha siga o mesmo caminho que você) eu diria de boca cheia: minha filha, tenho muito orgulho de você.

Sucesso em 2008.

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