quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Lady Palmira

Ainda lembro de quando ela tinha bem poucos cabelos brancos. Isso já faz muito tempo, eu ainda nem tinha aprendido a falar. A primeira coisa que prendeu minha atenção nela foi o riso. Ela é uma pessoa muito séria, e muito recatada, que eu sabia que vinha me visitar de muito longe, e que eu fazia rir. Não que eu me esforçasse para isso, era ela que me achava engraçada, e como isso me divertia. Ria porque eu caía, e ria porque eu falava, e ria das minhas coxas gordas, e ria porque eu abraçava demais, pedia colo demais, o que ela sempre me dava. Até hoje ela ainda ri de mim, como eu acho que deve ser toda a avó que se preste.

           

A seu modo minha avó é uma guerreira, destas que transcendem o tempo. De família humilde, nascida e criada no interior, descendente de alemães, bugres e provavelmente mulas, dado o grau de teimosia de nossa família, não se sabe de onde vem um ar de imponência, de realeza que paira sobre ela. Minha mãe, minha irmã e eu até herdamos um pouco desta postura, mas assim, mais com ar de damas da corte desastradas. Quando ela nasceu uma fada estava passando, meio entediada, e resolveu dar o talento das mãos para a menina que batizaram Palmira, mas que todo mundo conheceu depois como Dona Dica, não sei o porquê. Ela não apenas usou este talento, ela viveu dele, distribuiu-o e encantou o mundo com as coisas que, com ele, ela fez.

           

Palmira foi costureira exímia. Disse-me que já fez onze vestidos de noiva. Culparei eternamente a minha mãe por eu ter chegado atrasada. Ela costura roupas para mim desde antes de eu nascer. Até aí, tudo bem, quem não o faz? Quero ver transformar uma manga de camisa em uma blusa linda! Quero ver cuidar para os desenhos dos tecidos encaixarem, para o pano não ficar “enviezado”, para o acabamento ser perfeito, imperceptível. Quero ver guardar retalhos mínimos e com eles costurar para as crianças carentes durante o ano inteiro, levando sacolas e sacolas de vestidinhos bordados, com bolsos, laços de fita, frufru combinando para o cabelo, mini-camisas com debrum colorido na borda da gola, sapatinhos e afins para alegrar o natal das mamães que muito pouco tinham. Detalhe. Ela nunca jamais, seria capaz de doar uma roupa faltando um botão, ou com um raladinho no tecido, tudo era recuperado, reformado, limpo e entregue cheirosinho e com muito amor. A foto dela está lá, homenageada no corredor do hospital para crianças.

           

Eu amava visitar a minha avó. Com ela aprendi a usar as agulhas antes de aprender a ler. A destreza e velocidade dela sempre atrapalharam um pouco meu aprendizado, pois vinha ela com a agulha de crochê e fazia tictictictic. Viu? Entendeu? É claro que não, vó, faz de novo mais devagar? Lá ia ela e fazia igualzinho. Viu? Entendeu? Segura direito essa agulha, guria, não é assim! Ela fingia não ter paciência, mas repetiria tantas vezes quanto fosse necessário (geralmente eram muitas) para eu conseguir o básico. Não teve preço lá pelos sete anos, chegar com a minha maleta de couro (que é óbvio foi Dona Dica que providenciou) e sacar dela coleções inteiras de roupinhas da barbie feitas por nós. Minhas barbies usavam lingerie! E tinham fantasias, biquíni de crochê e vestidos de gala muito antes de inventarem os guarda-roupas da boneca, que vinham prontos e insossos. Melhor ainda era falar de cós, franzido, avesso, viés, caimento e pregas como se fosse uma sumidade da alta costura (aos seis!). Há, como faz falta o talento, mas mesmo assim, hoje me viro bem com as artes manuais e com a criatividade pra inventar coisas por causa dela. É pena eu ainda não ter o tempo que eu gostaria para ter muito mais deste prazer, mas um dia eu chego lá, nem que seja também como avó.

           

E quem pensou que a Dona Dica era uma dondoca está redondamente enganado. Trabalhava como um burro de carga na costura pra ajudar na renda familiar apertada. Mantinha a casa a ferro e fogo, cozinhando, limpando e mandando, mas de um jeitinho que o mandado nem percebia que estava fazendo exatamente o que ela queria. E ainda sobrava tempo pra me levar para cozinha e me deixar mexer, com a cara cheia de farinha, na massa de bolo, ou em qualquer outra coisa divina que ela estivesse fazendo, e que se tornou uma das minhas grandes paixões, a cozinha. E também tinha tempo para me ensinar a mexer nas plantas, e a fazer um jardim com caixas de ovo, ou para providenciar os materiais necessários (tesoura, papéis de presente, retalhos, cacos de vidro e o que fosse) para eu fazer o teatrinho ou a experiência que ensinavam no caderno para crianças do jornal, que toda semana ela guardava para mim. Ainda quando eu peguei piolho, e devo ter passado um ano inteiro piolhenta (é, naquela época era assim), era ela que me colocava de cabeça para baixo, puxando fio por fio do meu cabelo para resolver a situação, depois da minha mãe quase me matar intoxicada com Neocid e o lenço na cabeça para dormir. Eu não assumia, mas no fundo, adorava ter piolho e ter que correr para o cafuné da minha avó.

           

Dona Dica me ensinou muito mais! A honestidade exagerada, da qual me orgulho. Ensinou-me persistência, atenção aos detalhes, o recato, a não andar desalinhada, a falar baixo e manter a coluna reta quando entre pessoas com pouca intimidade. Ensinou-me a não corrigir e não responder com grosseria os mais velhos, a batalhar muito para o que se quer e a dar muito valor para o que se consegue. Lady Palmira ensinou-me a ouvir suas histórias e a ouvir meu coração quando estou com dúvidas (ou seja, sempre). Coisas que eu nem sempre consigo seguir, mas que ela me ensinou com primor.

           

Por fim, a danada vem nos ensinando a ser uma Fênix mais uma vez. Ela quase morreu há uns dois anos atrás, quando praticamente definhou por falta de sódio no organismo. Quando descobrimos o que era, ela ressuscitou em poucas horas, firme e forte. Depois disso participou da festança de seus noventa anos que fizemos, decorada com centenas de balões, porque ela nunca antes tinha tido uma festa com balões. Há poucas semanas ela ficou muito mal de novo, e eu achei que o último “boa noite” que eu dei a ela seria o último nesta vida, pois ela não conseguiu falar comigo ao telefone. E não é que a danada está melhor e possivelmente retorne para casa no próximo final de semana? Vó, eu já disse isso milhões de vezes, mas repito, e repito, e repito, quando eu crescer eu quero ser que nem tu. Eu sei que tu estás cansada, e que este mundo se tornou estranho rápido demais para ti, mas espera mais um pouquinho porque eu ainda tenho muito que aprender contigo e quero muito te apresentar teus bisnetos, com muito orgulho.

 

Gisele Lins, mais orgulhosa do que nunca de Lady Palmira e rezando para poder falar logo com ela.Escreve aqui às quartas-feiras.

3 comentários:

Milena disse...

Lindo, lindo Gi.
parece que vejo Lady Palmira enquanto leio suas palavras.
Fala pra ela que quero conhece-la =)
bjo grande!

Anônimo disse...

Gigi,
Que texto lindo!
Só quem teve o privilégio de conviver com esta digníssima senhora pode entender o que a gente sente em relação a ela né!
Com certeza quando ela passar pro outro plano vai deixar muitas saudades e belas recordações de momentos inesquecíveis.
Um beijo da mana,
Giane

P.S. vou copiar e guardar tá?

Angel disse...

Esse convívio com avós é precioso. Tive pouco tempo para aproveitar a lucidez de minha avó. E só conheci ela.

Adorei o texto!

bjos!

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