quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Carta à minha filha

Tenho pensando muito em ti. Meus sentimentos oscilam entre dois caminhos: em um deles há um certo alívio por tu ainda não fazeres parte deste mundo, tão diferente do que eu esperava para mim, o que dirá para uma filha; no outro existe culpa por eu ter apostado em coisas que não têm valido a pena, sob as custas de tu ainda não estares aqui comigo. Nos dois casos quero falar-te. É, sim, piegas uma mãe dizendo para a filha não cometer os erros que ela cometeu, mas prefiro fazê-lo antes que meu coração se endureça demais e eu não tenha mais condições de percebê-lo. Ainda assim, prometo nunca acudir os resultados de tuas escolhas, sejam eles bons ou ruins, com algo que soe como um “não te falei?”.

Nosso mundo anda estranho, querida. Todos querem muita coisa, e poucos estão dispostos a arregaçar as mangas e fazer a sua parte. Afinal: ema, ema, ema. Vai levar tempo pra você entender isso, pois, sendo minha filha, tenho certeza que tua crença de que é possível mudar, de que no fundo todos têm a intenção do melhor, de que lutar vale a pena, vai te levar pela parte mais bela da tua vida: o tempo da ignorância, a maior bênção que alguém pode ter. Tu vais crescer, ter amigos, fazer festas, sofrer desesperadamente, com grandes paixões que duram dois anos ou duas semanas, ter muitas dúvidas sobre o que vais ser quando crescer (sem saber que isso não acontece nunca), se lascar estudando pelas madrugadas com amigos incríveis, ter uma grande festa de formatura onde eu serei a mãe mais orgulhosa. Então, tu, ainda uma jovem mulher muito segura de si, e sem muita certeza de onde vai, mas convicta de que chegará lá, vais estar pronta para começar o que chamam de uma vida de adulto, feliz pelas tuas conquistas.

Sinto muito dizê-lo, querida, mas é aí que cai o pano. Cai a máscara e teus sonhos passam a ser tão ridiculamente ilusões que tu não terás sequer coragem de pensar neles. Vais descobrir que o ego alimenta mais que um cardápio inteiro e que tantos estão ávidos por ele. Vais ver que muitos que admirastes tanto, não agiam pela ideologia, mas apenas pelo reconhecimento. E quando passares a ser uma ameaça para esta ilusão, quando uma perna de verdade saltar da tua boca, o que tu não saberás evitar por um bom tempo, pois sempre terás dito o que pensas, eles te virarão as costas. Tu vais buscar o teu sustento, decerto em uma grande empresa, draga dos jovens de nossa sociedade, de seus sonhos, seu tempo e sua saúde. Lá tu vais descobrir que todos nós vivemos sobre regras inventadas por pessoas iguaizinhas a ti e vais ter que começar a inventá-las também, mesmo não se sentindo preparada e com a tristeza de não poderes escolher o que tu acharás que é certo, e melhor, mas sim o que beneficiará alguém que pode mais e certamente, ganhará mais. Há, e sim, vais ficar muito feliz por poderes pagar tuas contas e sustentar teus pequenos luxos. Isso, eu concordo, é maravilhoso e vai me deixar também orgulhosa. Mas a sensação de realização, de estar colhendo os frutos por esforços anteriores, eu sinto muito, mas provavelmente não virá. No lugar dela tomará conta de ti um senso se obrigação, um medo de não dar conta e uma revolta cada vez maior por sentires que o mundo exige que tu sejas perfeita, eficiente, pontual e ainda sorria, enquanto que qualquer coisa que tu precises, passando da Internet, à companhia telefônica, ao banco, ao policial, à uma alimentação decente, à tua segurança, ao garçom do boteco, à carteira de motorista e ao presidente da república, simplesmente não funcionam e ninguém se responsabiliza por isso e ninguém mais tem saco, muito menos tu mesma, de reclamar, de botar a boca, de tentar resolver, de tentar mudar.

Há tempos, minha filha, achou-se ruim quando disseram que o mundo era um moinho. O mundo, meu bem, não é mais um moinho, é agora uma grande privada, onde alguém puxou a descarga e lá estamos todos nós, rodando, rodando, rodando, mais rápido do que o possível para fazer algo que preste, e sem conseguir nos darmos a mão para diminuir o medo de não sabermos para onde estamos indo. Não perde o tempo da tua doce inocência, como eu fiz minha filha, querendo estar logo onde eu estou hoje. Não te deixes levar pela desesperança generalizada que envolve este mundo, e ainda me revolta, mas que eu vejo que está conseguindo me engessar. Não escolhas abrir mão da tua paz, dos teus amigos, do teu tempo, das horas perfeitas junto ao teu amor, da tua família (a de antes e a do porvir), do tempo de reflexão contigo mesma, em prol de uma carreira, uma bandeira ou alguém. Não te abandones, meu bem, achando que te encontrarás neste mundo, pois assim esquecemos muito rápido de olhar pra dentro, de quem somos e de que lá fora, nunca haverá ninguém.

E se por estas linhas tristes, pelas escolhas tortas da tua mãe, ou por algum outro motivo qualquer, tu nunca chegares a vir para este mundo, para provar que eu estava errada e que tu és capaz de chegar lá, de ser feliz, como eu desejo muito para ti e como eu um dia acreditei poder eu mesma, peço-te perdão, minha filha.

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras.

5 comentários:

Milena disse...

lindo texto gi.
triste também.

D.Ramírez disse...

Mas tudo isso faz parte!!! Legal aqui!!

Mariana disse...

lindo! lindo!

Lilian disse...

O que esta a acontecer em tua vida ai distante para te amargar a escrita?
Quero saber de ti e por que estas questoes estao aflorando...
Nao desista, ainda acredite que vale a pena... se deixares de crer todo o resto perdera a razao.
Quero falar contigo!

Renata disse...

Texto lindo! Triste, mas lindo!
Beijos!

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