quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Pantufa Actinoplanis Descabelata

Ela chegou em um dia de chuva, saltitando na empresa onde trabalhamos. É uma delícia quando aparece um cachorrinho por aqui, pois eles chegam apavorados de fome, carentes e loucos por uma brincadeira. Porém, é uma delícia triste, pois sabemos de onde estes cuzcos vêm e para onde eles vão. Eles vêm de pessoas irresponsáveis que encheram o saco do animalzinho depois de descobrirem que ele era genioso, ou que são obrigadas a se mudar repentinamente sem conseguir encontrar um novo lar para o peludo, em ambos os casos abandonando os cãezinhos na beira de uma estrada deserta, esperando que eles morram atropelados ou que alguém se compadeça. Infelizmente o primeiro destino é quase sempre o que acaba prevalecendo.           

Outros peludos tocaram meu coração nesta situação, mas morávamos em um apê, onde ficava bem difícil de recolher um sarnento, carrapatento, pulguento, para tratar e dar carinho. Quando estávamos nos mudando, apareceu um pretinho serelepe que foi bem cogitado em ser levado para casa. Mas não conseguimos pegá-lo. Coitadinho, tinha tanto mede de gente que não deixava ninguém chegar perto.           

Fazia tempo que eu queria um cachorro, e vinha na maior campanha doméstica para que a idéia fosse aceita. Estávamos quase lá, escolhendo raça, quando seria a melhor época e tal. Até que neste dia de chuva, inesperadamente, Pantufa apareceu. Ela correu o dia todo pela fábrica, subindo e descendo o morro, seguindo as pessoas, pulando e arregaçando a barriga para qualquer um. Um segurança retardado mental chegou a apontar uma arma para a bichinha dizendo “que já resolvia este assunto”. Imaginei o fim daquela vira-latinha tão inocente, tão feinha, mas tão esperta e amorosa e não pude resistir. Quando o namorido desceu o morro para bater o ponto eu esperava ao lado do relógio, com ela molhada, enlameada, fedorenta e enrolada em um saco de estopa no meu colo. Já era.           

A cachorra estava tão exausta que largou o peso no meu colo e dormiu instantaneamente no caminho do veterinário. Lá descobrimos que ela deve ter uns cinco ou seis meses, mas ainda age como um filhotinho e ainda tem dentes de leite que cairão. Ela devia estar perdida ou abandonada por pouco tempo, pois ela não era arredia e estava bem de saúde, com o pêlo saudável e com poucos carrapatos. Na primeira noite dormiu como um anjo, e eu achei que esta história de adaptação à casa nova era balela. Na segunda noite ela colocou o quarteirão inteiro abaixo, uivando, ganindo, latindo e destruindo o quintal. Não dormimos um segundo sequer e cogitamos até o absurdo de abrir o portão e liberar na rua o monstrinho Gremlin que tinha surgido lá em casa. Resistimos todos, ela e nós.           

Agora a moça já está se sentindo em casa. Dorme tranqüila e quando se passa, reclamando de madrugada de alguma coisa, cala logo a boca com o grito do vizinho ou uma bronca nossa. Tivemos o grande evento do banho e em cada dia descobrimos uma nova faceta do bichinho. Ela é cinza-preto-branco-cor-de-burro-quando-foge, tem focinho comprido, bigode e orelhas com pêlos espevitados, o rabo comprido, a pontinha das patas brancas e orelhas que viram do avesso. Parece o cão chupando manga deste jeito, mas não é. Ela faz cara de coitada, cara de quem não está entendendo, cara de vítima, já destruiu metade do quintal e os óculos escuros, pula com as quatro patas juntas do chão, adora brincar mordendo um pote plástico enquanto enfia uma pata dentro dele e corre com as outras três, corre atrás do rabo, pesca insetos no ar com a boca e já aprendeu a sentar quando a gente manda. Pantufa Actinoplanis Descabelata. É isso aí, esse é o nome da mais nova moradora do Solar, nossa nova vira-lata, SRD com orgulho. Pantufa para os íntimos e Pam para os muito íntimos. 

Gisele Lins escreve aqui às quartas-feiras. Particularmente contente com a nova integrante da família e moradora do solar.

4 comentários:

Mariana disse...

que delicia! adorei as historias da pantufa! cachorro eh tudo de bom ne? os viralatinhas entao, nem se fale! linda sua iniciativa de adotá-la! parabens! tenho um viralata tambem que se chama Pacote, um charme! beijos!

Milena disse...

Ela bem que poderia se chamar Taz, já que é um demônio da Tazmânia.
Aliás, como todo bom cachorro que se preze deve ser!

Anônimo disse...

Gi!
com certeza a PAM vai fazer vcs rir e chorar...vale muito a pena pois estes 4 patas nos encantam.
saudades de ti guria..
bjs
janaina

Lila disse...

Quero fotos do monstrinhooooo :-)
Te mexe ai que quero conhecer a Pam.
Bjo

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