terça-feira, 20 de novembro de 2007

Intolerância em Quatro Atos

Primeiro Ato – A Entrevista

Nove da manhã, chego ao escritório e me preparo pra entrevistar um candidato a integrar nossa equipe. Antes de continuar, preciso dizer que o mundo jurídico é cruel, não tem essa de carteira assinada, férias e 13º salário. O cara é associado, com todas as desvantagens de ser autônomo e de ser empregado. Mas fazer o quê? É assim que funciona. E é assim que a gente aprende que precisa andar com as próprias pernas ou se mostrar bom o bastante pra virar sócio. Aí a história pode ficar bem diferente. Voltando à entrevista, chega o rapazinho: 22 anos, acabou de pegar a carteirinha da OAB (conta isso como se fosse vantagem, e não obrigação de quem pretende ser advogado), fala inglês e arranha espanhol. CV default: nada demais, nada de menos. E seu português? Pergunto eu (uma das minhas maiores dificuldades tem sido encontrar pessoas que saibam que um texto tem que ter início, meio e fim e que saibam conjugar verbos no infinitivo)? O rapazinho me responde que escreve muito bem, já que lê o jornal todos os dias há mais de um ano. Escondi minha cara de asterix e informei que ele seria submetido a um teste de conhecimentos, expliquei o caso e pedi que ele elaborasse uma defesa. Era coisa simples, mas o que importava realmente não era a defesa, era a redação. Duas horas depois, enquanto eu via minha língua ser massacrada a cada linha (parágrafos com mais de 10 orações, sem um ponto sequer; a cada pausa pra respirar, uma vírgula; verbos utilizados pra significar outras coisas; só faltou nós vai, nós semo, nós fumo), ele começou a me perguntar sobre salário, carteira assinada, férias, 13º salário, só faltou perguntar de licença maternidade. Antes que eu respondesse, falou que era um absurdo estes escritórios que não assinam carteira (ou seja, todos), blá blá blá. Interrompi minha leitura e soltei: MEU FILHO, DEIXA EU TE EXPLICAR UMA COISA. VOCÊ SABE QUE A CARGA TRIBUTÁRIA DESTE PAÍS COME APROXIMADAMENTE 45% DE TUDO QUE É PRODUZIDO? VOCÊ SABE QUE COMO O GOVERNO NÃO VAI MUDAR ISSO, AS EMPRESAS TÊM QUE SE VIRAR PRA CONTINUAR PRODUZINDO? VOCÊ SABE QUE A LEI DE DARWIN AINDA TÁ VALENDO E COM CERTEZA COM MAIS FORÇA? Aí, o menino: Lei de Darwin? E eu: SIM, LEI DE DARWIN!! OU VOCÊ SE ADAPTA AO MERCADO DE TRABALHO OU ESTÁ FORA!!!

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Segundo Ato – A ONG

Amanhã é feriado, pensei, ótimo dia pra ver aquele filme de três horas que eu tô doida pra assistir. Convenci meu marido que estávamos cansados demais pra ir pra rua e que bacana mesmo seria assistir O Julgamento de Nuremberg. Ficamos vendo o filme até 03:00h da madrugada. Ficamos, quero dizer, eu fiquei, porque ele já tava roncando antes do meio do filme. Fui dormir feliz que ia poder dormir até acordar no outro dia. Doce ilusão. Acordei antes de 09:30h com meu marido me chamando: Gatinha, tem uma Simone do TRF querendo falar com você. TRF? TRF? (*) Meu Deus, que pesadelo! Prenderam algum cliente meu!! Atendi na hora, quase infartando. Aí ouvi: “Bom dia, senhora, aqui quem está falando é a Simone da LBV!!” LBV, vocês estão me entendendo? LEGIÃO DA BOA VONTADE!! Aquela mesma que não aceita doação em gênero, só em espécie. “Senhora, estamos fazendo uma campanha por telefone, embora saibamos que hoje é feriado, pra angariar fundos para comprar o remédio x para a senhora fulana que tem 97 anos e não tem família, está desamparada...” ESPERA AÍ, MINHA FILHA!!! VOCÊ ACHA QUE VAI PASSAR INCÓLUME ASSIM POR INTERROMPER O SONO DOS JUSTOS?!! Já perguntei logo qual remédio que era aquele que meu marido era médico e podia conseguir amostra grátis. A infeliz da Simone me respondeu que o médico da dona não permitia que ela tomasse remédio genérico!! PRA CIMA DE MOI, MINHA FILHA?!! EU QUE TRABALHO IGUAL UM BURRO DE CARGA SÓ TOMO REMÉDIO GENÉRICO QUE É MAIS BARATO, PORQUE É QUE UMA DONA QUE PRECISA DA CARIDADE ALHEIA NÃO PODE TOMAR?! Tu tu tu tu tu Acho que a Simone ficou com medo de mim.

(*) Tribunal Regional Federal

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Terceiro Ato – O salão

Pode parecer absurdo, mas toda semana eu arranco daqui de Belo Horizonte pra fazer unha em Nova Lima. Tenho certeza que Deus, quando criou Nova Lima, pensou: é o fim do mundo, mas é aqui que as duas únicas manicures decentes do mundo viverão. Dito e feito. E lá fui eu sexta feira fazer as unhas e de quebra colocar ração pros gatos da minha mãe que estava viajando no feriado. Tô eu lá sentadinha com as quatro patas de molho quando caiu uma coisinha minúscula no meu colo. Achei que era uma sujeirinha, dessas tão pequenas que o vento leva. A sujeirinha andou. Pensei: será mesmo que a sujeirinha andou? Daí a pouco, outra sujeirinha, desta vez na minha perna. Andou e fez cócegas! Pensei: preciso de férias, estou sentindo cócega de poeira em mim. Mais alguns segundos, caiu outra, só que no meio dos meus peitos!! E aí, não só caiu e andou, como me mordeu também!! Dei um grito e a manicure falou: %%¨#&¨esses PIOLHOS DE POMBO não vão acabar nunca com a dedetização porca que a dona mandou fazer aqui!! COMO ASSIM PIOLHO DE POMBO?! Chamei a dona: Fu-la-nááááá!! Fulana, minha filha, como é que você, dona e proprietária do salão que tem as únicas manicures decentes do mundo e da Paraíba me deixa o salão infestar de PIOLHO DE POMBO?! Tem que dedetizar tudo por aqui. E ela: Pois é, meu bem, mandei dedetizar tudo, menos o forro, já que lá ninguém usa mesmo. Não consegui esconder minha cara de asterix dessa vez: Fulana, minha filha, raciocina comigo; eu sei que é um esforço sobre humano, mas tente. Se você está num lugar grande e passa um caminhão jogando fumaça por todos os cômodos, menos um, pra onde é que você vai? E ela: pro cômodo que não tem fumaça, oras. E eu: ENTÃO PORQUE É QUE VOCÊ ACHA QUE O PIOLHO DE POMBO VAI FAZER DIFERENTE?!!! A resposta: sabe que eu não tinha pensado nisso? Eu não sabia, mas os piolhos de pombo deviam saber!

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Quarto Ato – A Casa

Cheguei na casa da minha mãe com minhas lindas unhas vermelhas (Gabrielle duas camadas) pra colocar ração pros gatos. Sabe quando você sente alguma coisa no ar? Eu senti. Infelizmente não era ladrão. Quando abri a porta, quase desmaiei com o mau cheiro que vinha de dentro de casa!! Quase corri e chamei a polícia: devia ter um cadáver em decomposição lá dentro. Ainda bem que não era de ninguém da minha família, já que tava todo mundo fora. Passou a náusea e comecei a ver tufos de pêlo branco e preto espalhados pela casa. O chão da sala parecia ter sido palco de brinquedo do Wolverine, de tão arranhado que estava. Aí (eu ainda estava paralisada pelo mau cheiro na soleira da porta), eu vi a catástrofe, ou melhor, o início dela: tinha cocô de gato espalhado pela casa inteira!!! Menina, já viu coisa mais fedida que cocô de gato? Não tem. Aliás, tem, cocô de vários gatos. Era esse o caso. Parece que algum gato vira lata entrou em casa pra roubar comida dos gatos mimados da minha mãe, brigou e resolveu se vingar praticando atos de vandalismo. Borrou a casa inteira. Chão, parede, corrimão, sofá. Minha vontade foi de dar as costas e sair correndo. Mas minha educação não me permitiu ver tamanha imundície e ficar inerte. Vão-se as duas camadas de Gabrielle, mas fica limpa e cheirosa a casa. Ou no mínimo menos fedida. E dá-lhe balde, água, detergente, água sanitária, desinfetante, rodo e pano de chão. Duas horas depois a casa estava novamente habitável. E Gabrielle já havia dito adeus. Pus a ração, troquei a água dos bichos e já ia indo embora, quando percebi que um vagabundo que fica de plantão na porta lá de casa dando notícia da vida de todo mundo estava me olhando desde o início da faxina. É o que que é Fulano, nunca viu faxina não? FAXINA JÁ, NUNCA VI FOI UMA ADEVOGADA COM A UNHA TÃO FEIA!!!


Laeticia admite que anda muito estressada mesmo, mas que todo o stress piora bastante quando seus hormônios estão em ebulição. Definitivamente TPM devia ser excludente de ilicitude!!


9 comentários:

Sisa disse...

O melhor post desse blog, EVER! hahahahahahaha

Mia disse...

Não pude me conter.. ainda estu rindo aqui e consigo me enxergar nos piores dias hahahahahahaha.
Mas tem gente que não importa a época do mês... faz a gente se sentir numa TPM maior que a do mês passado - ou uma prévia dela. Obs.: Adorei o "cara de asterix". Adorei!! Rsrsrsr

=****

Paula disse...

Muito bom seu texto, Laeticia!
Acabei rindo muito também, desculpe.
Falando sério, tem épocas em que não dá para agüentar muita coisa e parece que o mundo adivinha: chove canivete na nossa horta sem parar, impressionante!
A boa notícia é que a chuva também passa!!!

Liz disse...

Pqp, eu nao sei qual dos' Atos' eu gostei mais... hehe Muito bom mesmo!

Fafá disse...

Laeticia, impressionante como você conseguiu fazer um "trágico" se transformar em um "cômico"!!! Espetacular!!!! :)

Dennia disse...

huahuahuahuahuahuahuahuahuahua
:D
huahuahuahuahuahuahuahuahuahua
:D
huahuahuahuahuahuahuahuahuahua
:D
huahuahuahuahuahuahuahuahuahua
:D
Oi Laeticia!!
Não tenho tido tempo para comentar suas postagens, apesar de sempre lê-las, mas não deu para resistir dessa vez!! :D
Saudades, amiga!!
Bjão

Angel disse...

Maria, vc é impagável! Texto perfeito. Depois de fazê-lo vc se sentiu melhor? Eu me sentiria...
Adorei tudo,principalmente os cocôs de gatos. Adoro gatos, odeio o cheiro de tudo que eles fazem.

Também estou em um momento "Tolerância zero". Eu entendo você.

Beijos!

Laeticia disse...

Ai, gente, que alívio ver que não sou a única estressada do mundo... com certeza me senti bem melhor depois de escrever o texto, mas ando passando por um momento tão delicado da vida que o stress tá me consumindo. Tribuna ou Tablado? Será que escolhi mesmo o caminho certo? Não sei, mas pelo menos valeu o riso das amigas! :-)

Silvia disse...

Só consegui ler hoje (domingo) e o único comentário é: hahahahahaha.... Detalhe, li de trás pra frente, cômico... beijos

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