sábado, 25 de agosto de 2007

Entranhas e expectativas

O que te move, camarada?

O que te faz acordar pela manhã e ter ânimo para sai-da-cama-escova-dente-banho-rua-transito-chefe? Não vale dizer o pão, o teto ou o pano, nem suas derivações.

O que tem na curva da tua entranha? Que te faz pular como um gato quando pisam no teu calo (ou no teu rabo)? Que te faz levantar a voz quando não esperavas, levantar o dedo na cara errada, levantar os olhos marejados, sem ter vergonha?

O que te dá nó na garganta, gana no pescoço, que te faz rosnar feito um lobo?

Que tal a Espera, camarada?

A espera por fazer a surpresa, provocar uma risada, pelo sorriso que derrete, perninhas que esperneiam, cachinhos esvoaçantes, brinquedo solto no chão, sorvete derretendo, cara lambuzada, algodão-doce no cabelo. Espera pelo dente que cai e pelo cabelo que cresce.

A espera pela recompensa. Não o grato-atenciosamente-formal, mas o olhar, só o olhar. A espera pelo ter, pelo aprender. Espera por estar grato, para engrandecer.

Espera pelo conseguir, pelo superar, pelo alcançar.

Esperar para ver a lua. Esperar pelo chegar logo, esperar pelo retorno.

Esperar pelo sonho e para ter o que sonhar.

A espera (espero) pelos olhos. Os que atravessam e nos deixam nus vestidos. Espera pelo calor da pele, no segundo antes de tocar, pelos pêlos eriçados do maxilar, pelo arrepio de doer porque não vai embora. Espera pelo frio na espinha, que corre pelo corpo como se vivo, como se bicho, apostando corrida com o suor. Espera pelo beijo, pelo quente da respiração na pele, dor de barriga boa, pernas fora de comando, explosão, fusão. Espera pelo silêncio.

Espera por alguém.

Não é isso, camarada, que te move?

Não me digas, então, que “há que se viver sem expectativas, pois assim o que vier vem bem e o que não vier nem era esperado mesmo”. Mentira! Eu também já tentei me enganar assim. Vivemos de entranhas, camarada, e entranhas são expectativas e estas, muitas vezes, valem mais do que o próprio motivo da espera. Sim, mais uma vez, eu não daria a face à ignorância, mas certamente eu poria a cara para bater, e tantas quantas eu tivesse, eu poria, pois eu quero entranhas e expectativas.

Gisele é uma mulher com expectativas medianas e controladas, e ao mesmo tempo uma menina que se dedica e se entrega quase exclusivamente às entranhas de suas expectativas.

9 comentários:

Paula disse...

Espetacular seu texto, adorei! Parabéns!
O que me move? O desejo absoluto , porém raro, de atingir um ideal, normalmente um segredo entre mim e meu interior. Se estiver focada, nada me tira do trilho e qualquer coisa que tentar me atrapalhar, eu atropelo...
Beijos.

aline_bahiense@yahoo.com.br disse...

Que texto maravilhoso! Já tinha pensado nisso, mas como você colocou tão perfeitamente em palavras! Adorei a leitura!

Milena disse...

O que me move?
O desejo de não ser mecânico.
O desejo de fotografar tudo ao meu redor com a mente e guardar para sempre no fundo do peito.
O desejo de envelhecer e, ao olhar para trás, sentir que faria tudo de novo.

Lindo mesmo Gi.
As palavras certamente se movem para você.

Nanael Soubaim disse...

Isso é a vida, companheira. A vida expressa em letras e talento com fina desenvoltura.

Simone Maia disse...

Seu texto é o que há, Gisele. Parabéns!

Abraços

Gisele Lins disse...

Paula acredito que, quase sempre, o que nos move mesmo, lá no fundo, é sempre um segredo, ou pelo menos, os outros desconhecem a intensidade que isto pode ter para nós!

Mí, olhar para trás e sentir que faria tudo de novo talvez seja o melhor termômetro de estarmos ou não vivendo com nossas entranhas!

Aline, Nanael e Simone, obrigada companheiros. Ano sentindo-me um pouco incompreendida... É muuuuito bom ver que algo nosso "bate e volta"!

Abraços!

Sisa disse...

Oi Gi,
Nao sei o que me move. Mas move. E muito. Sinto tudo isso q vc falou... beijos!

Laeticia disse...

Essa espera é que me faz meter a cara, quebrar, colar e meter a cara de novo. Tenho esperança de um dia me atirar e não quebrar a cara. Mas também não ligo de carregar comigo as marcas de quebra e cola, pelo contrário, tenho orgulho de minhas cicatrizes, porque são elas que na realidade mostram que eu vivo plenamente e não apenas passeio por aqui.

Laeticia disse...

Acabei de ter um insight pro meu próximo texto!

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