quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Primeiro Sobre Ciência

Como minha área de atuação é pesquisa, um assunto que me interessa muito é Ciência. O avanço tecnológico sustentável e os benefícios que possa trazer para a humanidade me fascinam! Sendo assim, acredito ser este o primeiro de uma série de textos sobre o assunto.

Dia desses estava assistindo TV e vi uma reportagem que me chamou atenção. Kevin Warwick, cybercientista declarado, pesquisador chefe do Instituto de Robótica da Universidade de Reading, Inglaterra, está testando o implante de chips no próprio corpo com o intuito de comandar uma casa em um estalar de dedos. Até aí, tudo muito interessante e louvável, pois a finalidade que vejo é auxiliar pessoas que estejam limitadas permanente ou temporariamente e que não consigam realizar determinadas tarefas.

No entanto, o cybercientista disse que, em pouco tempo, será possível implantar chips no cérebro para interagir com computador e acionar máquinas. Ele anuncia que crianças com chips implantados no cérebro aprenderão em segundos o que levariam anos para aprender na escola.

Um momento... Eu sou cientista, doutoranda em Engenharia e Tecnologias Espaciais no
INPE. Estou acostumada com o quão somos dependentes de computadores e máquinas! Mas tenho plena consciência de que se um software falhar, o erro foi do homem por trás da máquina, que “lhe deu vida”, dotado de inteligência, criatividade, capacidade de interagir com outras pessoas e de se ajustar para resolver problemas. Porque uma máquina não pensa sozinha, não é capaz de decidir a melhor opção, a menos que, previamente, tenha sido carregado em sua memória um programa que reproduza o pensamento humano, incluindo aí faculdades do raciocínio humano, como a tomada de decisão.

Agora, eu me pergunto? Qual o futuro de nossas crianças? Eu não quero ter uma máquina em casa em que eu programo o que quiser e controlo da maneira que bem entender. Apesar de não ter certeza da minha vocação materna, se tiver um filho, eu quero que tenha habilidades e dificuldades, personalidade, que passe pela “aborrecência”, que precise de mim ou tenha vergonha de me dar um beijo perto dos coleguinhas de escola. Eu quero uma criança que ame, chore, não goste, tenha ídolos e medos, enfim, desejo criar uma pessoa única, com seu caráter e suas características inconfundíveis - a minha criança apenas!

Será que transferir conhecimentos por meio de um chip realmente poupa as crianças do “terrível” processo de aprendizagem escolar e leva a adultos melhores? Para mim, não! Acredito ser fundamental conviver com outras crianças e adultos, aprender a se socializar, saber que seu direito acaba no momento em que esbarra no direito do outro, entender que precisa agir para alcançar seus sonhos, a lidar com vitórias e com derrotas e uma série de enriquecimentos que só são aprendidos com o outro. E mais, creio que para tudo existe a hora certa. Não adianta ensinar hoje o que a criança só aprenderá amanhã. O processo de aprendizagem é complexo: é necessário maturidade para assimilar a nova informação, destruir o estado confortável em que se encontra e reconstruí-lo, incluindo tal informação, para finalmente compreender o que foi ensinado.

Para mim, isto é viver! Isto é crescer, amadurecer, ser feliz, ser humano! Quando eu quiser um computador, vou a uma loja de informática e compro um com as especificações que desejar. E se tiver um filho, ele será sim apresentado à tecnologia, mas àquela adequada a sua idade e que o auxilie a ser alguém melhor. Afinal, não vivo no tempo das cavernas, não se preocupem...

Conversamos novamente na próxima quarta feira. Fiquem bem!


Paula é doutoranda em Engenharia e Tecnologia Espaciais, tem verdadeira compulsão por sapatos (parece uma centopéia) e cura sua culpa quando come uns docinhos a mais com muita academia. Escreve aqui toda quarta-feira.

12 comentários:

vanandram disse...

Paula,
eu tinha assistido a alguam coisa a respeito e também fiquei chocada.Tive medo, para falar a verdade. Enquanto educadora e mãe eu só posso mesmo é concordar com você em gênero, número e grau.
Um abraço,
Vanessa.

Débora disse...

Paula,
Concordo plenamente com vc!Quero uma criança de verdade!bjs

Queila disse...

Quando você me mandou um e-mail sobre o Blog, fiquei pensando: "meus 30 já passaram há tempos". Mas, como é bom ter 30 e mais de trinta e, como eu, bem mais de 30. Melhor ainda é ver vocês, jovens, com idéias e ideais tão bonitos e amadurecidos, não pela chegada dos 30, mas porque vocês tiveram berço, mães que passaram valores, aprendizado que foi bem captado. Parabéns a todas vocês aqui do Blog. E, quanto a esse tópico, nada melhor, Paula, do que ter filhos que não são robozinhos controlados remotamente e sim, pestinhas correndo pela casa e te dando carinhos e falando "eu te amo você muuuto mamãe". E, quando crescem um pouco mais têm idéias próprias baseadas no ensino que adquiriram em casa e na vivência de amor e calor humano.
Maternidade é a ciência da alma feminina e ter filhos, apesar de poder ser uma escolha, é sempre uma grande vitória.
Eu, como sou PhD em filhos (pra quem não me conhece tenho 4 mais 3 agregadas), adoraria sim ter um robô, mas daqueles que fazem todo o serviço de casa. Beijos.

Aline Bahiense disse...

Concordo!! Que graça teria o ser humano se perdesse sua essência? Como professora defendo todo o processo que leva a aprendizagem e a formação do cidadão.

nafoffy disse...

Paula... adorei seu blog... Parabens!!!!Vou ficar esperando na próxima quarta.. hehehe... Beijinhos Nadjara

Fafá disse...

Paula, espetáculo o seu texto!!!

Também assiti a essa reportagem... impressionante do que é capaz a mente humana...

Beijinhos!

Fafá

Paula disse...

Vanessa, nós que nos preocupamos com educação e sabemos da importância dela, temos consciência de que o processo de aprendizagem não pode ser desprezado.

É isso mesmo, Débora, se for para embarcar na maternidade, o baby deverá ser único, não é? rsrsrs

Como sei que é PhD em maternidade Queila rsrsrs! Obrigada pela visita!

É isso mesmo, Aline, sem essência não somos nada!

Oi Nad! Que bom que gostou! Fico te esperando semana que vem então!

Obrigada Fafá. Fico impressionada com a capacidade da mente humana também, mas ao mesmo tempo com medo...

Simone Maia disse...

Felizmente, ao menos por enquanto, tais avanços tecnológicos estão anos-luz de se tornar uma realidade em nosso país. E, neste sentido - e apenas neste - espero que o Brasil seja sempre atrasado!

Abraço!

Gisele Lins disse...

Eu quero muito filhos fofos e ranhentos, correndo pelo quintal e com joelhos esfolados.
Mas adorei ver transformers (paula, por favor não se ofenda, fora da vida real robôs autônomos são bem legais).
Muito bom o texto, parabéns!

Paula disse...

Pelo menos este atraso, Simone, concordo com você: é benéfico para nós (pelo menos para nossas crianças)!

Claro que não me ofendi Gisele! Eu também adorei transformers! É como você disse: fora da vida real é o máximo mesmo! Bjs.

Milena disse...

Voto no robô para passar roupa e lavar o banheiro.
Talvez cozinhar um pouco também.
Mas só isso.

Me preocupo muito com chips e engenharias genéticas e sempre que leio algo do tipo me lembro de Huxley em "Admirável mundo novo". Recomendo a todos.

Em tempo, ótimo texto Paula!

Paula disse...

Concordo Milena, um robô doméstico seria tudo de bom! Menos para cozinhar, que adoro. Minha mãe diz que adoro porque só faço isso em esporádicos finais de semana rsrsrs!

Compartilho da sua preocupação e assino embaixo sua recomendação. "Admirável Mundo Novo" devia fazer parte da cartilha da escola!

Bjs.

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