sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Dueto

Tirando minha família, ele é certamente o meu relacionamento mais antigo. Mas nunca nos levamos muito a sério, sabe? Estamos juntos a tanto tempo que não me lembro se um dia estivemos separados.

Meu mesmo, assim, só meu, ele foi o primeiro. Não sei se a recíproca é verdadeira. Não me importo. Afinal, somos bem mais do que "posses" um do outro.

Ele nunca foi prioridade na minha vida, mas sempre esteve lá. Já foi trocado pelo basquete, pelas baladas, pelas amigas, pelos amigos, pelos estudos, pela preguiça. Mas juro que ele é tão perfeito, mas tão perfeito, que nunca fez sequer menção de reclamar.

Uma ou outra vez me fez sofrer, fingiu partir, "emburrou", se acanhou, emudeceu. Tudo fruto do meu desleixo, admito. Mas voltou para mim todas as vezes, envelhecido ou rejuvenecido, tanto faz. Sempre melhorado.

Somos parte um do outro. Continuação. Prolongamento. Extensão do mesmo corpo. De uma só alma.

Consigo imaginá-lo rindo de mim quando me apaixono: "De novo você com essa música"? E ele é certamente quem mais sabe das minhas paixões. Divido com ele minha angústias, minhas faltas, minhas ausências, meus anseios. Ele também sabe das minhas tristezas, pois é para ele que sempre volto quando a saudade diminui meu coração até que este se perca na imensidão do meu peito.

Ele estava comigo nas poucas serenatas de madrugada. Ele viajou comigo de ônibus, desconfortável, nas muitas mudanças que fizemos. Ele estava comigo nas suítes, nos brejeiros, adágios, andantes, allegros. Ele estava comigo quando eu cantei e alguém se apaixonou pelo som. Não o som da minha voz, nem som que saía dele. O nosso som. O som que resulta da união de nós dois. O som do nosso dueto.

Ele, o meu violão. Outrora radiante com a cor do pôr-do-sol, agora negro como o ébano. Mas na essência ainda o mesmo. Cortante. Presente. Sonoro. Macio. Meu.

Não existe objeto no meu mundo nem meramente parecido com ele. Afinal de contas, ele é o único que sempre esteve lá. E sei que sempre estará.

Para ele vão as palavras abaixo. Roubadas, mas perfeitas para a ocasião:

Viola e Vinho Velho - Almir Sater

"Quem tem viola não carece de transporte, se for pra mode ir se embora dos sertões, mundão afora ele desce de carona, dos sonhos sob a lona o requinte faz canções.

Se por ventura lhe oferece a boa sorte um passaporte pro além dos rumos seus, vai sem demora dorme hoje sob a ponte que ao longe do horizonte amanhã se prometeu.

Viola acha graça, se o dono se apaixona, mas assim que ele sara, ela estranha e semi-tona.

Deitado agora em quarto de hotel sem ter mais véu pra lhe servir de cobertor, um vinho velho lhe conforta o calafrio e a canção sai no feitio de um poeta fingidor.

Saudade é o diploma de quem tem boca e foi a Roma, tristeza é mula brava corcoveia mas se doma."


Milena é uma apaixonada incorrigível por música e pelo seu violão - que agora se chama "Seu Jorge" - que escreve aqui agora às sextas.

12 comentários:

Carolina disse...

E vc muda o dia e nem avisa!
achei lindo o seu texto, semana passada mesmo te falei né... seu dom pro violão!
Milena & Seu Jorge!
Beijos e bom final de semana!

SM disse...

Essa foi a história de companheirismo mais linda que já li. Que seu amigo violão lhe acompanhe sempre, traduzindo suas alegrias ou tristezas em lindas melodias.

Beijoca e bom final de semana!

Kimera Kenaun disse...

Qdo comecei o texto achei q falava de algum amigo de infância... rs rs
Linda linda essa declaração pro seu violão...beijos!
brigadim por lincar o Kimera!

Débora disse...

Que declaração de amor hein??Gostaria de ter te visto tocar, pq depois de uma declaração dessas certamente deve ser o seu dom!Muito bom o texto! Parabéns! bjs

Paula disse...

Oi Milena!
Que bacana esta sua história com seu violão e com a música.
Eu gosto muito de música também, mas meu instrumento favorito sempre foi o piano. Fiz aula alguns anos, mas depois parei. Hoje já nem lembro mais! Quem sabe não retomo e não ganho um companheiro? Menos presente, claro, em função da logística rs.
Beijos.

Angel disse...

Adoro música, até tenho um violão mas nunca toquei. Eu sei que é pecado dizer isso, mas é verdade...
Aproveite e se prepare pra tocar no nosso encontro de balzacas.
Beijos
Angel

Renata disse...

Adorei seu texto! Só fiquei curiosa pra te ver tocar!
Bjs

Sisa disse...

Eu já ouvi! Inclusive em CD! Ai que lindo!

(estou de volta, vou comentar todos agora! Eu e Hector, Hector e eu, nós 4. Nada como ter um filho novamente em seus braços.)

Andréa disse...

Milena,
Que linda declaração de amor pelo seu violão! Quanta sensibilidade nestas palavras! Adorei. Eu também toco violão e também tinha deixado o coitadinho de lado fazia alguns anos. Agora voltei a tocar e é simplesmente delicioso. Tem coisas que a gente não devia deixar de fazer nunca na vida...

Laeticia disse...

E pensar que eu também tive esse companheiro por um bom período da minha vida. Minha inaptidão foi mais forte hehe O que me salvou é que na realidade nós não éramos uma dupla, mas um trio: eu, o violão da minha mãe que eu adotei e minha caneta. Escrever é libertador!! Mas só agora estou tendo coragem de divulgar algumas de minhas mal escritas linhas :-)

vanandram disse...

Ei, Milena!
Hoje li seu texto e como sempre adorei! Ganhei um violão quando fiz quinze anos. Nunca fomos nem colegas!!! Coisas da minha mãe... Hoje ele está nos braços da minha irmã ou do meu marido, ou de quem queira dar-lhe vida. Não há nada mais triste do que um instrumento musical calado. Que bonita a sua relação com Seu Jorge!
Abraços,
Vanessa.

Louise disse...

Oi Milena,
Nunca tive muito jeito pra tocar violão mas sempre fui fã desse instrumento!!
Ficou linda a sua declaração de amor pelo "Seu Jorge". Adorei, espero te ver tocar um dia!!
Bjs!

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