sexta-feira, 14 de setembro de 2007

“SUPER” notícia

Daria em todas as bancas de jornal, inclusive naquele jornalzinho sensacionalista que tem por aqui, na grande BH: aluna mata professora na porta da escola. Seria algo que causaria um abalo geral, principalmente na classe em questão, mas logo passaria. Sempre passa.

Talvez o Fantástico noticiasse, como noticiou índios queimados vivos, ônibus também incendiados, domésticas e aposentados apanhando de marginal de classe média. Talvez isso agregasse um certo glamour à cena dantesca, nada fantástica; talvez fosse uma morte célebre, talvez rendesse apenas piadinhas do tipo: “Cê viu só?! A professora não deu dez, acabou dezmaiada!!!” Mas não teve graça.

Triste. Foi assim que me senti esta semana, após anos de atuação no magistério. Uma aluna ameaçou me “pegar” e disse isso assim, na lata, em linguagem de todo dia e toda hora, com todas as letras, sem tirar nem pôr, na frente de outros tantos alunos. Fiquei com medo. Ela não podia ter feito o que fez, mesmo porque, mais que professora, sou , ou pelo menos procuro ser, EDUCADORA. Quem estava matando aulas no banheiro para fumar era ela, saindo de casa uniformizada e deixando de entrar na escola era ela, ficando infreqüente nas disciplinas era ela, levando alunas menores de idade a fazerem o mesmo, era ela.

Bom, ao fazer um levantamento da freqüência dos alunos, fiz uma lista com os nomes dos faltosos e pedi para que um contato com os pais fosse feito. Muitos alunos haviam evadido, mas alguns pais descobriram, horrorizados, que seus filhos fingiam que vinham para a escola e ficavam na rua. Isso é muito sério e a escola tem uma parcela muito grande de responsabilidade nesse assunto. Achei que era a minha obrigação, o meu dever avisar os pais e foi o que eu fiz. Claro que vários alunos ficaram sabendo que a escola ligou porque eu alertei a direção. Claro que eu fiquei exposta e alarmada. Não era uma operação policial, mas o público noturno é complexo, desconfiado, vive na defensiva. Enfim, a notícia, através da rádio peão, chegou aos ouvidos da líder, que me falou o que vocês já sabem.

E doeu ouvir o que eu ouvi, mesmo sabendo que a razão me acompanhava de braços dados. Doeu porque foi uma falta de respeito comigo enquanto ser humano. Fiquei desassossegada, inquieta. Alguém me ameaçou e não parecia estar brincando. Justo eu que sempre procurei ter uma relação bacana com os meus alunos. Muito triste. Essa menina precisa saber, que a única pessoinha no mundo que tem o direito de me tirar as noites de sono, e olha que isso quase nunca acontece, é a minha paspatinha. Só ela, mais ninguém...

Uma mãe me agradeceu muito, com lágrimas nos olhos. A filha voltará a freqüentar as aulas e será acompanhada de perto pelo vice-diretor da escola. Outras voltaram, ainda que de cara fechada, mas a líder ainda não apareceu. Também não mandou recados e eu não a tenho visto. Estou tomando certas precauções e isso inclui marido levando e buscando no trabalho. Não inclui fluoxetina.


Vanessa é educadora e ama incondicionalmente o que faz. Sabe que é preciso acreditar no ser humano, mesmo quando ele não acredita mais em si mesmo. Está triste, mas isso passa, que nem piada sem graça!



13 comentários:

Louise disse...

Parabéns pela sua persistência, o Brasil agradece!!!
Precisamos de mais professores que sejam educadores.

Sisa disse...

Oi Vanessa,
Lembro da gente na sexta série, conversando sobre o que a gente queria ser quando crescesse. Cada dia uma queria uma coisa. Todo dia você queria a mesma coisa: Ser professora. Umas foram fazer técnico, outras científicos, algumas, por imposição ou falta de opção, Magistério. Você foi a única a fazer magistério por amor. Depois, por amor, foi fazer licenciatura em Letras. Desde que começou a trabalhar, é o ensino que está sempre presente na sua vida. Pessoas com esse dom fazem a gente ter esperanças que nosso futuro pode não estar perdido.
Beijos, e parabéns pro não se intimidar. Eu não sei se teria a mesma coragem.

Paula disse...

Vanessa...
Admiro sua coragem; são professores com a sua postura que me fazem crer que ainda é possível corrigir o rumo de nosso país... Afinal, educação é o único caminho possível.
Não desista jamais de seu sonho! Mas mesmo assim, tome cuidado, de verdade.
Tudo de bom!
Beijos.

Carolina disse...

O Vanessa,
entendo sua tristeza. Como também trabalho em escola, vejo que crianças e jovens já não tem noção de respeito e de limites. Também, com os exemplos que eles têm tido, isso não é de se estranhar. Mas continue firme, seja forte...o país de sua filha precisa mudar e vc está fazendo a sua parte.

Angel disse...

Vanessa,
Admiro que escolhe ser professor, ainda mais por amor. Deve ser um prazer ser sua aluna. Não se chateie com quem ainda não aprendeu que aprender é maravilhoso. Deixe que seu coração sinta mais a alegria nos olhos de quem entende o que você diz.
Beijos
Angel

Aline Bahiense disse...

Vanessa,
senti um misto de revolta, medo e tristeza quando li seu texto. Também sou professora e é incrível como a própria população está tentando acabar com a educação. O caso de ameaça, é caso de polícia. Deve ter queixa apresentada. Uma pessoa como você não merece viver sob qualquer tipo de ameaça. Isso não é justo! Torço que essa estória tenha um final feliz. E que essa infeliz comece a enxergar alguma coisa além de um palmo do próprio nariz.
bjs

Eduardo 7ª C.E.S.T.A disse...

Vanessa, muito bom seu texto...
Pena que você, que faz de tudo pra agradar os alunos, com todos os seus micos, enfim, tudo que você pode você faz pra agradar os alunos...E até mesmo aqui no São Tomás, apesar de nao existirem ameaças, existe um desrespeito fora do comum, por parte de alguns alunos (não que desrespeito seja comum).Essas piadas sem graça estão igual ao "engraçado" laço laçado de Stéfane.Enfim, espero que melhore, e que os alunos do poli, e até alguns daqui do C.E.S.T.A. tenham uma postura melhor com você e outros professores.

Júlia disse...

Vanessa..fiquei triste ao ler seu texto..tinha que ser vc???Logo vc uma professora,que quer ajudar todos..??Realmente essa menina não deve te conhecer direito..ou entao é maluca..
Nao fica triste assim..eu sei que ouvir alguem falando que irá te pegar nao é facil..mas pensa nos outros alunos que vc tem..Que apesar de vc xingar ..nos sabemos que vc quer é o nosso bem..por isso vc xinga...
Pode ter certeza que vc tem uma aluna..que nunca vai te falar que vai te pegar..ate porque ele te adora.. e adoro quando vc conversa com ela..da conselhos...quer saber que???nem precisa dizer que sou eu ne:????
bjos Julia..

vanandram disse...

Nossa,gente, quantos comentários bacanas! Isso levanta o astral, não é?! Agradeço especialmente aos meus queridíssimos alunos, Júlia e Eduardo, por serem quem são, do jeito que são. É um prazer enorme trabalhar com vocês e por vocês!
Sinceramente, vocês são um ESPETÁCULO!!!
BEIJOS,
VANESSA.

Gisele Lins disse...

Oi, Vanessa! Entendo sua frustração, às vezes o que nos magoa vem de onde a gente menos espera... Mas ainda acredito que vale a pena batalhar pelo que se acredita, e que as bênçãos eventuais que chegam por isso ainda estarão em maioria.

Parabéns pelo texto lindo!

Milena disse...

Eu to tão chocada que só consegui comentar uma semana depois...
Que tristeza isso.

Minha mãe dá aula e lá em Franca o povo tem uma mania de ir até os radialistas da AM falar mal dos professores, diretores, etc.
Dia desses ela - que é uma santa - perdeu a paciência com uma menina e acho que deu um puxão no braço ou algo assim. Na mesma hora ela se arrependeu e já imaginou a cena de ser maldita na "mídia".. hehehe
E voce não acredita que, para surpresa dela, no outro dia a tal menina apareceu com a mãe e a mãe a fez se desculpar?
Ainda existe gente que quer educar, e temos que nos mirar nestas pessoas.
Beijo grande e que vc fique bem.

Júlia disse...

VAnessa..tbm é muito bom aprender com vc...Vc com certeza é um ESPETACULO....
TE adoro muito....

Rosi disse...

Tudo se resolve.
Muita força.

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