sábado, 29 de setembro de 2007

Seu Zé e os Dagobertos

Ando tão voltada para o meu “mundo interior” ultimamente que as cenas do cotidiano têm passado batidas. É nestes momentos que percebo o quanto é fácil nos acostumarmos com a realidade ao nosso redor, e com episódios horríveis, que mereciam respostas, reações, atitudes, e, no entanto, passam a fazer parte do nosso dia como um cenário, como uma paisagem.

A primeira vez que tive consciência da minha anestesia de realidade foi em Porto Alegre, há alguns anos atrás. Lá, na minha infância mendigos eram figuras folclóricas, conhecidas pelo nome, ou por um apelido qualquer. Eram semi-adotados pelo bairro e passavam a vida por ali, fazendo um ou outro bico e curando a ressaca das madrugadas de porres e cantorias que povoavam a minha imaginação. Uns dez anos foram suficientes para modificar completamente este cenário. Dez anos que eu não vi passarem. Um belo dia, andando pelo centro, eu olhei em volta e perguntei-me por onde andaria o Dagoberto? Foi quando eu vi que dezenas de outros Dagobertos estavam por ali. Só que agora eles eram mais jovens, e vinham com a família. Suas Dagobertas mais jovens que eu, com braços musculosos e tantas marcas de brigas quanto eles, carregavam bebês no colo e dormiam ao relento, reunidas para diminuir o frio do Minuano, o seu e o dos rebentos.

Esta cena se espalha hoje por todo o centro de Porto Alegre, e por muitas partes da cidade. Pensando nisso eu me dei conta que o que me fez pensar no Dagoberto foi ter que passar por cima de um transeunte que ao invés de estar de passagem, como eu, havia resolvido se instalar ao longo da calçada, pelo jeito fazia tempo, e impedia completamente a passagem.
Por onde eu andei nestes dez anos que não vi o Dagoberto indo embora (o primeiro, o de verdade) e tantos outros chegarem? Em que mundo eu estava que achei tudo normal (ou achei nada, porque nada vi)? E o Dagoberto? E aquela vez que eu quis lhe perguntar se ele já teve alguma profissão, ou se queria ter, mas não deu tempo porque tive que ver a sessão da tarde? Será que se eu tivesse perguntado teria feito alguma diferença? Não sei, nem nunca vou saber. Por onde anda o Dagoberto?

Eu lembrei do(s) Dagoberto(s) apenas porque hoje eu tive certeza de que anjos também são maltratados e esquecidos neste planeta. Seu Zé, o anjo em questão, estava na minha lista dos temas que eu gostaria de escrever a respeito. Eu queria descrever uma pessoa mágica que encontrei aqui, no interior, na minha nova vida. Ele é um velhinho com o olhar dos mais cheios de compaixão e sabedoria que eu já vi. Dedicou vinte anos da vida dele trabalhando na empresa onde trabalho. Já fez de tudo, mas em função da idade muito avançada, ele cuidava dos peixes e dos cães, e ajudava nas plantas e nos jardins. Os cardumes andavam atrás dele no lago, era incrível, e o Rottweiler que o levava para passear (sim era o cão que levava o Seu Zé para passear), virava um filhote bobalhão quando com ele. Só por isso já merecia todo o meu apreço, mas ele era muito mais. Conversar com ele transmitia uma paz, era uma injeção de ânimo. Ele é daquelas pessoas que te deixam com vergonha de reclamar da vida. Um dia em que eu estava muito triste por um probleminha bobo qualquer ele chegou em silêncio, olho nos meus olhos e disse, sem me perguntar nada:

- A tristeza e a felicidade andam de mãos dadas neste mundo, minha filha. Uma não existe sem a outra, cabe apenas a nós escolher para quem a gente quer virar a cara. Escolha olhar para a felicidade, escolher a tristeza não vale a pena não, e não nos leva a lugar algum. E foi embora. Pasmei. Muito, muito mesmo, e passei a ter um respeito para com essa pessoa muito forte.

Pena que nem todos pensam assim. Seu Zé se aposentou. E hoje eu soube que ele apanhou feio do genro que provavelmente quer o dinheiro da sua aposentadoria. E soube também que não foi a primeira vez que isso aconteceu.

Não quero deixar isso passar em branco e daqui a dez anos ver que seu Zé não está mais aqui, como o Dagoberto, e que eu nem o vi partindo, muito menos tentei fazer alguma coisa para evitar tamanha barbaridade. Como alguém pode ter a coragem de bater em um anjo?

E se naquele dia que Seu Zé me disse uma das coisas mais inesperadas e lindas que eu já ouvi, ele também achasse que não valia a pena tentar modificar a minha situação? Não quero mais achar que sou impotente e seguir passando pelos anos protegida pela minha redoma de “menina classe média educada e futuro do país”, que não é capaz de olhar à sua volta e ver o que anda realmente acontecendo no seu mundo, que é o mesmo do Dagoberto, e o mesmo do Seu Zé. Não sei mais onde anda o Dagoberto, e ainda não sei o que fazer, mas quero ter certeza de que continuarei sabendo onde anda o seu Zé, e o João, e o Barrilhas, e o Bentinho que ainda hão de aparecer por aqui.



Gisele Lins anda desconfiada de que pode ser mais responsável do que imaginava pelas coisas que não gosta deste mundo, e também de que poderia fazer mais do que faz a respeito delas. Escreve aqui aos sábados.

7 comentários:

Aline Bahiense disse...

Gisele, adorei ler seu texto, lindo! Vou torcer muito para que você consiga ajudar Seu Zé, pois a luz que ele te deu já se espalhou e chegou até aqui.
Bjs

Angel disse...

É Gisele, às vezes insistimos em olhar para a tristeza e não para a felicidade, como bem disse Seu Zé. Como muitas coisas na vida nascem da pática, vamos praticar olhar para a felicidade...eu tb preciso disso.
Bjos

Renata disse...

Gisele
Que bom que seu estado anestesiado acabou e você pôde perceber que nós sempre temos escolha. Melhor ainda que foi por um anjo, que estão sempre ao nosso redor e na maioria das vezes a gente nem vê!
Um abraço
Renata

Paula disse...

Gisele, fiquei emocionada com seu texto. Às vezes, para que a gente possa enxergar o que há ao redor, são necessários os momentos de introspecção. Você acordou na hora em que estava preparada para encarar o tipo de pessoa que você quer ser!
Sorte sua que um anjo a guiou pelo caminho certo!
Admirável!
Beijos.

Sisa disse...

Lindo e triste. A gente fica sem saber o que fazer né? Triste.

Laeticia disse...

Triste mesmo. O Seu Zé me toca mais porque uma sociedade que não sabe respeitar suas crianças e seus idosos não tem futuro nenhum. Muitas vezes a gente deixa de defender alguém próximo por achar que estamos nos intrometendo na vida alheia. Mas talvez tudo que o indefesa precisa de da primeira ajuda pra reunir forças e não se deixar vitimar de novo. Entrar literalmente no meio eu não entro até porque isso é pouco eficaz. Mas já chamei polícia e promotor pra muito covarde que bate em mulher, criança e idoso. Na maioria das vezes, apesar da polícia e do promotor terem tomado providência, não deu muito resultado porque essa nossa desigualdade social impõe muita coisa aos menos favorecidos. Mas se algum dia eu souber que umzinho desses eu ajudei de verdade, todos os meus telefonemas já terão valido a pena.

Milena disse...

Concordo com você 100% Gi. E admito que precisamos sair dessa analgesia social compulsória...

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