terça-feira, 23 de outubro de 2007

Infância Perdida

Por favor, me digam que as crianças não são um reflexo da gente. Digam que aquelas carinhas, aqueles olhos não nos dizem nada. Digam que os desenhos da escola são só imaginação. Digam que desenho de criança não significa nada. Digam que eu não sou aquilo que elas refletem. Porque se ninguém me disser isso ou eu não conseguir acreditar, vou acreditar que o mundo está mesmo perdido.

Outro dia recebi um vídeo sobre violência doméstica contra a criança. Foi de doer. Eram imagens de vários mamíferos, sempre a fêmea cuidando do filhote e brincando com ele. No final aparecia uma menininha linda com um ursinho na mão e o olho roxo, amedrontada no canto de uma parede. A mensagem era: algumas crianças gostariam que seus pais as tratassem como bichos.

Anteontem vi no jornal uma reportagem sobre um menino de oito anos que, no meio do tiroteio entre polícia e traficantes na favela da Coréia no Rio de Janeiro, conseguiu entregar um desenho pra um agente. Era um morro cheio de policias e traficantes, um helicóptero do alto, chovendo bala pra todo lado. O menino ainda escreveu que não entendia porque o mundo dele era daquele jeito e que se ele pudesse, ia embora. Mas o que doeu mais foi sem dúvida o sol chorando vermelho.

Tenho uma colega da pós que é promotora de justiça e esteve por um tempo no interior de Minas. Foi ela quem começou a investigar denúncias de exploração sexual infantil e prostituição adolescente. Ela foi ameaçada de morte várias vezes. Tinha empresário, político e até padre envolvido. Mas o pior foi descobrir que os pais de muitas crianças e adolescentes não só eram coniventes, como ofereciam os filhos ao abuso e à violência. Conseguiram tirar minha colega da comarca, mas ainda bem que já era tarde. Prenderam todo mundo. Mas não dá pra voltar no tempo.

Eu fui uma criança extremamente feliz. Aproveitei cada minuto de uma época em que minhas maiores responsabilidades eram ter tomado banho antes de mamãe chegar do trabalho e não deixar brinquedo espalhado pela sala. Enquanto não me dei por gente, eu tinha, no máximo, que fazer o para-casa direitinho e tirar nota boa na escola. Fazendo isso, tudo o mais era festa. No nosso aniversário (era sempre uma festinha só porque eu e minha irmã fazemos aniversário muito perto uma da outra), sempre tinha bolo, guaraná, pipoca, macarrão frito e brigadeiro; tinha muito balão, inclusive uns cheios de água pra gente fazer bagunça. Nossa casa era um sonho. Tinha árvore, terreiro, casinha de cachorro. Mamãe deixava a gente montar acampamento no quarto dos fundos e fazia brigadeiro pra gente comer de colher debaixo dos lençóis brancos dela. De vez em quando me pegava dormindo com a Germana na cama (nossa pastora alemã) e fazia vista grossa. Deixava Cecília deitar no sofá com o Yanaros, filhote da Germana, enquanto ele coube no sofá. E deixava a gente nadar na piscina de plástico junto com os cachorros. Nunca apanhei, só levei uns puxões de orelha e uns tapas na bunda, quase que de brincadeira. Ficava era de castigo no pé de jabuticaba até minha mãe deixar eu descer. Às vezes eu aprontava e ela me proibia de viajar, de ir em festa de coleguinha, não dava o presente prometido e suspendia a brincadeira com o brinquedo preferido. Eu ficava meio brava e se não me engano cheguei a falar com ela uma vez que ela estava me espancando por causa de uns tapas nas pernas bem tomados que levei.

Naquela época, eu nunca ia imaginar que existem mães e pais que realmente espancam o filho até ele ficar roxo, quebrar braço e perna. Nunca ia imaginar que tem criança que mora em lugar que tem briga, quem dirá tiro de fuzil. Não sabia que tem criança que não come danoninho todo dia, que não vai pra aula, que não passa férias na praia. Não sabia que tem criança que sofre violência de todo tipo o tempo todo por qualquer pessoa porque não tem quem a defenda. Eu não sabia que não era toda mãe que cuidava com carinho do filhote.

Há muito tempo tomei consciência de tudo isso: da violência, do crime, da desigualdade social, da miséria humana. Isso tudo me provoca náusea pela minha própria impotência. Tenho feito de tudo pra contribuir pra acabar com isso, mas parece que a cada vez que eu denuncio uma agressão, surgem mais dez crianças agredidas. Não consigo entender um adulto agredir uma criança, se aproveitar da fragilidade dela. Não há nada mais indefeso no mundo. É muita covardia. E os desenhos, estes acabam sendo sim um reflexo do que nós mesmos estamos nos tornando.


Laeticia tem 30 anos e viveu plenamente a sua infância. Brincou, brigou, quebrou, machucou, riu e se divertiu muito. Fica chocada com violência contra a criança e começa a ver o sol chorando vermelho também. Não vai deixar de denunciar nunca.
DISQUE DENUNCIA NACIONAL DE ABUSO E EXPLORAÇÃO SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES - 100
http://brasilcontraapedofilia.wordpress.com/sobre/


7 comentários:

Aline Bahiense disse...

Este é o assunto que mais me dói, que quase posso sentir o coração sangrando quando se toca nele. É tamanha covardia, que é difícil acreditar...Ainda mais agora que vejo meus pequenos e penso o quanto (mas como?) devo defendê-los. Mas é real e às vezes pode estar acontecendo ao nosso lado. Parabéns para quem tem peito e enfrenta os corruptos, encara as ameaças e acaba com esse bando podre. Só assim podemos imaginar o dia em que todas nossas crianças terão o que comer, o que brincar, o que ler, o que sonhar...

Vivian disse...

Oi Laeticia,

Gostei muito do seu texto... é realmente incrível como as coisas mudam: há alguns anos atrás era dito sempre: NÃO DEVEMOS TRATAR AS CRIANÇAS COMO ANIMAIS e agora temos visto o quanto ela seriam mais felizes se fossem sim tratadas como muitos animais. A coisa mais rara no mundo é ser ver (ou se ter noticia) de uma mãe (animal) que rejeita seu filhote, geralmente elas cuidam e protegem. Outro dia ví um documentário da mãe leoa na selva que pegou um de seus filhotinhos e levou pela boca, porque ele ficava muito para trás na fila do passeio com seus "bebes". No entanto, estou alarmada com a quantidade de notícias que tenho visto de mães que jogaram seus bebês no lixo, na lagoa, no rio de esgoto... acho que só nas ultimas semanas ví uns 5 casos desses. Fico pensando, como uma criatura assim pode ser chamada de mãe?!? Ou melhor, de gente?!? Fico pensando onde vamos parar... Bjs

Colher de Pau disse...

O mais triste é que as pessoas se esquecem que essas crianças um dia vão crescer, e se tornarão adultos traumatizados, tristes e insanos, por tanta violência sofrida. E que a violência é um ciclo, e uma pessoa agredida tende a procurar outra mais fraca para agredir no futuro.
Algumas mães tentam justificar a violência de seus atos dizendo "não ter condições". É repugnante qualquer ato violento contra uma pessoa que não pode se defender, seja ela criança, deficiente ou idoso.

Sisa disse...

Violência já é terrível demais. Violência contra quem não pode se defender é pior ainda. Mas mesmo que você defenda uma e apareçam 200 casos novos, lembre-se que você não pode resolver 200 problemas. Mas já fez diferença praquela que você ajudou.
Bjs

Angel disse...

Nesse final de semana conheci um caso de um garoto que a Justiça o tirou do convívio dos pais porque ele chegou a ser internado duas vezes por espancamento. E que garoto lindo! Está para ser adotado, espero que, por alguém que contribua para a felicidade dele. Infelizmente essas barbaridades acontecem todos os dias. Denunciar é mesmo a melhor forma de combatê-las.
Bjos

vanandram disse...

Seu texto, Laeticia, maravilhoso por sinal, não deixa de ser um tapa na cara de muita gente COVARDE. A violência é gratuita, cada vez mais banal. Trabalho em escolas diferentes, com realidades bem diferentes, mas a violência está sempre presente, em maior ou menor grau. Há ainda aquela violência velada, que invalida o ser humano, destruindo sua auto-estima. Nas escolas percebemos muitas vezes o chamado "bullyng" que consiste em um comportamento de zombaria, deboche, críticas destrutivas entre os próprios alunos, levando muitos deles, principalmente meninas de 8ª série ao suicídio.Triste. Também tenho visto o sol chorando vermelho... dá vontade de chorar também.

Paula disse...

Sabe o que é pior de tudo isso, Laeticia? É saber que o ser humano é uma espécie que, além de ser predadora, é do pior tipo, porque ataca seus iguais... Isso acontece no restante do reino animal? Sim, acontece, mas com uma diferença: lá a resposta é instintiva; aqui, existe o bendito raciocínio que deveria nos diferenciar e não nos rebaixar. Mas a falta de sensatez do bicho homem é algo difícil de digerir.
Difícil aceitar que alguém pode maltratar crianças, oferecê-las como objetos sexuais e até usá-las como tal.
Eu sempre choro vermelho quando escuto as atrocidades que fazem com as crianças! Dói muito mesmo.

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