terça-feira, 16 de outubro de 2007

Tempos Modernos

Impossível me lembrar quando foi a primeira vez que estive em Viçosa. Uma tia e dois tios se formaram lá, sendo que um deles acabou nunca mais indo embora. Os Pereira de Souza começaram a desbravar a Zona da Mata mineira muito antes que eu ou a minha irmã tivéssemos condição de nos dar por gente. Ir estudar lá nos parecia algo natural. Acabei não indo, mas minha irmã foi. Mas férias, passamos várias por lá.

Assim, Viçosa acabou se transformando em um dos muitos palcos de minhas artes de infância e, depois que minha irmã foi pra lá de mala e cuia estudar, acabou virando palco da minha pós-adolescência recente também. A menina se formou em Física; se bem que, ao final do curso, poderia também ser garota propaganda de tudo que é marca de cerveja vendida por aquelas bandas desde os idos dos anos 90. Um verdadeiro orgulho de fraternidade! Estive presente em vários momentos que podiam muito bem fazer parte destes comerciais de cerveja, o que sempre me fez agradecer aos céus por pedras, cercas e pilastras não poderem falar. E apesar de Viçosa não ter pra mim o mesmo intenso significado que tem pra minha irmã, sempre terá um lugarzinho guardado no meu coração.

Tinha muito tempo que eu não ia a Viçosa; fui lá há coisa e um ano, mas fui, fiz meu trabalho e voltei no mesmo dia. Queria ter ficado mais, mas não deu nem pra pensar nisso. Voltei correndo. Neste fim de semana pude voltar à Viçosa com calma pro casamento de uma amiga que tem nome de praça na cidade. Aproveitei pra andar a pé do calçadão até a universidade e pra mostrar pro meu marido aqueles lugares bacanas por onde passei. Levei um choque.

Primeiro porque logo que saí do hotel e pisei na faixa de pedestres quase fui atropelada! E não foi por bicicleta não, foi carro mesmo. Gente, mas não era justamente uma das maravilhas da cidade poder atravessar a rua sem medo? Eu achava lindo os carros parando assim que eu pusesse os pés na faixa pra eu poder atravessar a rua. Quanta civilidade! Acabou. Que pena.

Recuperado o susto, achei que tinha grudado alguma coisa nos meus óculos. Tirei, limpei, mas a imagem estava só mais nítida. Aquele bar onde bebi Bohemia a um real, onde dancei salsa com um africano desconhecido, onde uma amizade bacana se estreitou e se faz forte até hoje, virou sacolão...

Outro, onde me dei conta pela primeira vez que definitivamente não era mais uma menina, agora vende e conserta coleira eletrônica, ou telefone celular, pra ser politicamente correta (não que eu também não seja escrava do celular, mas isso não faz com que ele deixe de ser uma coleira eletrônica).

A lanchonete que vendia maxi-sandubas saradores de qualquer fogo eu não achei. Até porque eu confundi os nomes e procurei pelo lugar errado. Mas dizem que ainda está lá com os mega-maxi-sandubas.

A cerca de arame farpado onde fiquei grudada uma vez depois de um tombo catastrófico até que minha amiga me tirou virou muro; parece que era um muro branco, mas pixaram um monte de nome feio lá. Aliás, pixaram foi a cidade toda, só que dão o nome de propaganda. Eu prefiro chamar de poluição visual.

As capivaras que ficavam soltas pelo campus desde quando eu ia lá andar de bicicleta enquanto minha tia aprendia a dirigir foram recolhidas porque deram tanto carrapato que o povo tava sendo devorado vivo pelos carrapatos. Fora que andavam atacando até pit bull, segundo minha irmã. Mas estão lá na universidade, guardadinhas e sem carrapato agora.

Procurei a loja de biscoito caseiro e não achei. Sumiu. Ninguém soube me dizer aonde foi parar. Pelo menos achei minhas latas de doce de leite, delicioso fruto de anos e anos de dedicada pesquisa e investimento tecnológico. Maravilhas da ciência!

Mas definitivamente Viçosa não é mais a mesma. Fiquei pensando se não seria sinal dos tempos modernos. Pode ser e talvez até seja mesmo. Na volta pra casa fiquei com a sensação de que realmente muita coisa mudou. Já não desejo mais que a cerca de arame farpado, nem as pedras e pilastras, permaneçam mudas. Gostaria que elas pudessem falar e me dizer na cara que eu também mudei e porque é que eu também já não sou mais a mesma. Vou adiante e volto atrás. Tenho medo de ouvir que também virei sinal dos tempos modernos. E isso pode não ser muito bom.


Laeticia começou a escrever este texto à mão em Araxá e terminou em algum lugar do céu entre as terras de Dona Beja e as de Hilda Furacão. Até agora está imaginando o que estas mulheres marcantes pensariam das mudanças ocorridas desde a época em que causaram polêmica por ser elas mesmas, a primeira no início do século XIX e a última na década de cinqüenta.

6 comentários:

Gisele Lins disse...

Lindo texto Laetícia!
Estou há pouco mais de um ano novamente longe "de casa" o lugar onde me criei e cresci e, desta última vez que estive lá já me senti um pouco como você descreveu? Onde está isso ou aquilo? Mas eu concordo que o que mais nos choca é quando perguntamos "onde está aquela eu"?
Um abraço!

Paula disse...

As mudanças são inevitáveis, isto é fato! Talvez caiba a nós não deixá-las correrem tão soltas, para não perdermos nosso verdadeiro "eu" no caminho, para que tudo o que era bom e bonito não vire apenas lembrança. A história de nossa vida é a estrada que nos traz ao momento atual e não pode ser negligenciada.
Mas que é horrível chegar em Guaratinguetá (terra em que cresci e vivi até me casar) e ver que as rotatórias deram lugar a semáforos e motoristas descontrolados, isso é rsrs!
Beijos.

Angel disse...

É, o tempo passa Maria. E com ele coisas boas vão e vem. E coisas ruins também. E somos parte dessas "coisas". Também mudamos e não nos damos conta. É mais fácil enxergar fora do que dentro. Ótimo texto, pra variar...
Bjos!

vanandram disse...

Tudo passa... coisas ruins, coisas boas, tudo passa...
Falo de Nova Lima com o mesmo carinho que você fala de Viçosa e é inevitável não falar das montanhas daqui,hoje concreto armado. Há lugares que também não reconheço mais, não encontro mais. E olha que eu sou Nova Lima desde pequenininha!!!
Lindo texto!
Bjs,
Vanessa.

Sisa disse...

Imagina o que eu senti lendo essa história, me vendo entre arames farpados e capivaras, sanduíches e biscoitos caseiros, Bar do Jarbinhas que virou sacolão, os melhores anos da minha vida passando em mini flash back, com direito a câmera lenta na parte da visita de Laeticia e Carla (a amizade que ela cita foi da Carla, essa história foi tão engraçada que talvez um dia mereça um post só pra ela). Amo Viçosa. E amo saber que esta cidade também mora no coração de uma das pessoas que mais amo na vida.

Louise disse...

Fui à Viçosa em julho desse ano e senti exatamente a mesma coisa que você descreveu no seu texto, fiquei arrasada quando vi que o Lanches Lu foi demolido, e cada lugar que você citou me fez lembrar de coisas maravilhosas, engraçadas, que acho que só acontecem nos anos de faculdade...rs
Morro de saudades daquele lugar, mas ele não existe mais do jeito que eu me lembro!!!
Bjs!

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