terça-feira, 9 de outubro de 2007

Terapia do palavrão

Lá em casa a gente foi criada sabendo que falar palavrão sempre atrai tapa na boca, puxão de orelha, ou, no mínimo, um olhar daqueles, vindo geralmente de cima pra baixo. A gente embaixo, obviamente. Daí que ir ao Mineirão sempre foi um momento de catarse já que lá era território livre, onde o palavrão era, digamos, tolerável. Evidentemente, mamãe não estava nestas ocasiões, ou o território deixava de ser neutro em termos de livre manifestação do pensamento. Mas o fato é que sempre achei meio libertador poder gritar com todo o ar dos pulmões: JUIZ FILHA (com “a” mesmo) DA *UTA!!! LADRÃO SAFADO!!! VAI TOMAR NO C*, DESGRAÇADO!!! Até porque meu Galo é o time mais roubado da história futebolística deste país. E embora há muitos anos realmente não seja mais aquele, quem já foi Rei nunca perde a majestade.

Devaneios à parte, verdade é que, com o passar do tempo, a lei do palavrão-atrai-o-tapa foi perdendo a força, sabe, mas aí a gente já estava crescida o suficiente pra saber que não é bacana de cada dez palavras que a gente fala seis serem gíria e duas serem palavrão. Então toda aquela vontade infantil e pré-adolescente de transgredir passou da mesma forma como passou a vontade de falar nome feio.

Mas cá entre nós, você está lá toda poderosa, de terno risca de giz feito sob medida por um alfaiate, scarpin de verniz salto 15 (Deus não te deu altura, mas te deu condições de comprar!!), um lindo coque bem feito e bem preso, maquiagem digna de capa de revista, unhas impecáveis, brincos de pérola do tamanho exato, do jeito que faria sua mãe e Coco (sim, a opinião de Coco faz A diferença) morrerem de orgulho. Como nada é assim tão perfeito, você está carregando váááários processos pra entregar nas secretarias porque já que você está indo fazer audiência mesmo, não custa nada devolver os processos pros estagiários, coitados, e poupar a caminhada deles. Afinal, não é porque você é bonita e inteligente que também não pode ser gente boa!

Enquanto você caminha pelos corredores do fórum quase como se estivesse num comercial de xampu (naquela hora em que a modelo tira o palitinho do coque e o cabelo cai maravilhosamente nos ombros, sem escova e sem chapinha ou com cachos naturalmente perfeitos) passa um apressado sem um pinguinho sequer de educação, tromba em você, derruba todos os seus processos, que se espalham por quase todo o andar, e nem se abala, continua andando apressado sem olhar pra trás. Você civilizada e elegantemente, pois é superior a tudo isso, se abaixa, apanha cada um dos processos (e a bolsa que também caiu na trombada) e sai praticamente correndo até o elevador, pois faltam exatos 5 minutos para a sua audiência começar.

Infelizmente, o tempo só é suficiente pra você ver que aquele mesmo sem educação que trombou em você, derrubou todos os seus processos no chão e foi embora sem falar gato também não foi educado o suficiente para segurar o elevador até você chegar, apesar de ter te visto correndo, atrasada por culpa dele. Mas não tem problema, você respira fundo, relembra que você é um espírito elevado e que deve ter pena destas pobres almas degeneradas que não passaram por tantas vidas quanto você e que demorarão muito mais a atingir o mesmo nível de evolução espiritual. Pacientemente, você aguarda o elevador, mantendo a elegância, apesar do olho não despregar do relógio.

Quando finalmente você, linda e elegante, chega, encontra seu cliente, desesperado, de celular em punho pra te achar e entra na sala de audiências, quem está sentado na cadeira do juiz EXATAMENTE PORQUE É O JUIZ? O SEM EDUCAÇÃO!!! Numa situação hipotética (mas não improvável) destas, um PUTA QUE O PARIU sonoro, mesmo que em pensamento, te salva da insanidade, minha amiga!!!


Laeticia baseou-se em fatos reais e é fã incondicional de Chanel. Embora não tenha dinheiro pra satisfazer suas extravagâncias fashion, tem certeza que a terapia do palavrão, mesmo que somente mentalizada, pode sim te salvar de um ataque de nervos.


7 comentários:

Vivian disse...

Laeticia, achei seu texto super divertido!! E sim, concordo com vc que as vezes, um palavrão falado com a alma nos faz sentir bem mais leves...rs

Andréa disse...

Laeticia,

Que hilário isso! Eu fico imaginando a enorme e profunda sensação de alívio que você teve quando viu quem era o juiz, e saber que tinha se controlado pra segurar o puta que o pariu que não saiu! Ufa!!! Não quero nem pensar no estrago que seria se vc tivesse xingado...

Aliás, se vc tivesse xingado, quando o juiz visse você chegar, ía dar aquele sorriso irônico, vingativo, dizendo: "Ah, pode deixar que agora vc vai ver quem é que vai pra puta que o pariu..."

Às vezes é melhor que o palavrão, beeeeem sonoro, seja só em pensamento mesmo... hehehe

Paula disse...

Laeticia, muito bom seu texto!
Consegui visualizar a cena toda! Desde a advogada chiquérrima à Chanel até a advogada possessa com o mal-educado rsrs!
Educação vem de berço, não é? Pobre juiz; se considera um ser superior provavelmente... E como você é chique até no espírito (Chanel é um estilo mesmo), só um palavrão bem silencioso mesmo; afinal, você tem berço!
Ei, vou confessar, sou super fã da Coco Chanel também; embora o mais perto que tenha chegado dela tenha sido a peça da Marília Pêra e os meus sapatos modelo chanel rsrs!
Beijos.

Angel disse...

Ilário Maria!
E como um palavrão, mesmo mentalizado, alivia a alma...Chanel aprovaria essa todo o seu comportamento.
Beijos

Sisa disse...

Bom, eu não tenho pudores de xingar todos os palavrões. Sou desbocada mesmo. E aposto que de infarto eu não morro, rs...

Gisele Lins disse...

Muito bom, Laeticia, muito bom mesmo!
Sorte sua que segurou a boca, vira e mexe me vejo em situação parecida (levemente parecida, nunca tão grave) e acabo morrendo pela boca!
"Terapia do palavrão"... Posso pegar emprestado esta expressão?
Um abraõ!

Patrícia Gresta disse...

Ei, Maria!

Sou totalmente adepta da terapia do Palavrão e também cresci com a mesma referência de que quando se pronunciava palavrão, chumbo grosso vinha. Outro dia mesmo estava comentando com minha mãe como é prazeroso hoje soltar um put* que pari* bem sonoro e não ser xingada por ela... hahaha

Quanto ao Mineirão, lugar sagrados dos palavrões bem empregados. E aja xingamento nos jogos do nosso Glorioso.

E no mais?

Bjo,

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