sábado, 8 de dezembro de 2007

Os meus silêncios

Sou uma pessoa esquisita. Encosto a língua no nariz, sei fechar perfeitamente a pálpebra de um olho só sem fazer careta ou colocar a língua para fora, consigo mexer as orelhas e morro de rir no dentista, de tantas cócegas que eu sinto na gengiva. Um dos sintomas mais fortes de um esquisito é que ele gosta de ser esquisito, ou de suas esquisitices. Uma das minhas esquisitices maiores é a minha relação com o Silêncio, e o tanto que eu gosto e aprendo desta relação. O tipo de silêncio que tenho com uma pessoa define muito da relação que existe entre eu e ela.

Tem o Silêncio Ausente, ou seja, o que não vem com aquelas pessoas que acham que nosso ouvido é pinico. Deste existem três tipos: o Silêncio Ausente dos que falam demais por quererem agradar, o dos que falam demais por não saberem escutar e o dos que falam demais achando que assim nos impedem de ver através de suas máscaras. Família chata essa, viu?

Tem o Silêncio Irritante, daquelas pessoas que juram que é óbvio o que se passa na cabeça delas e que acham que se você não adivinhou ainda, não merece saber.

Já o Silêncio Intrigante vem no instante seguinte ao despejarmos uma matraca de besteiras homéricas que só nos prejudicam. Ele nos é presenteado por aqueles que nos querem bem e sabem que este silêncio nos fará perceber o quanto estamos sendo tolos, de forma muito mais eficaz do que meia hora de “não, não é assim, querida”.

É claro que tem o Silêncio Nervoso, antes de uma entrevista, de apresentar um projeto, de saber o resultado de um exame, de esperar um telefonema, mas esse é só nosso e não representa uma relação. Serve apenas para tornar eterno um segundo muito chato.

Tem os Silêncio-Killers por aí, os piás, que falam como se fossem dois e mesmo de boca fechada fazem um barulho enorme. Mas estes valem a pena, há se valem.

Tem o Silêncio Doído, que machuca fundo e devagar. É aquele que surge quando há algo que não queremos de forma alguma ouvir de alguém, mas que sabemos que não temos como evitar. Ele pode durar muito tempo, andando ao nosso lado por toda a antecipação, a espera, da confirmação de uma dor. E pode durar mais tempo ainda depois que ela se confirma.

Tem o Silêncio Tapar-O-Sol-Com-A-Peneira, dos que escolhem não falar o que pensam, ou sentem, quando acham que é errado e acreditam que assim deixarão de ser responsáveis por pensar ou sentir o erro.

Tem o Silêncio Dúvida, que nos abraça tão forte quando já sabemos nossa escolha em uma decisão difícil de tomar, que não nos deixa fazer nada.

Há, tem o Silêncio Cúmplice. Esse é muito bom, e só os verdadeiros amigos podem nos dar. Ele pode chegar ao meio da tarde, quando fazemos as unhas enquanto uma amiga não faz nada, ou dorme na rede ao lado. Pode vir depois que um amigo nos defendeu arduamente, mesmo sabendo que estávamos errados em uma situação, ou pode vir quando alguém querido fecha os olhos para uma burrada que a gente fez.

Agora o supra-sumo, o que eu busco, desejo, almejo, quero, ensejo é o Silêncio Supremo. O único onde pessoas que se amam, quando em silêncio, estão à vontade, íntegras e sendo elas mesmas. Onde jamais existirá o desconforto do que o outro está pensando. É com ele que podemos passar uma tarde ao lado de alguém, embaixo de uma árvore lendo. Ele está conosco quando percebemos que “o” alguém não precisa estar olhando para nós, mas sim para o mesmo lugar que a gente. Este silêncio é a “terceira pessoa” que queremos na nossa cama e é o que vai sussurrar em nosso ouvido o nome do nosso filho. Ele será a trilha sonora dos nosso melhores momentos, que têm que acontecer atônitos, sem palavras, em Silêncio.


Gisele Lins, como não poderia deixar de ser, acaba sempre gostando de gente esquisita (afinal, Deus cria, o diabo separa e eles por si sós se juntam). Este texto é para todos os silêncios que seus queridos esquisitos a proporcionam. Escreve aqui aos sábados.


4 comentários:

Rharry Belloti disse...

Ótimo post, como os que tenho visto por aqui, hein...
O Silêncio Supremo...não há comparação, nada pode ser melhor que esse silêncio, nem mesmo ouvir um Eu Te Amo pode ser melhor que esse silêncio, porque nele descobrimos o que os outros são, o que os outros querem ou esperam. E esse silêncio só existe entre as pessoas que se amam. Beijo.

Fafá disse...

Oi Gisele!

Achei o seu texto tão lindo! Você conseguiu, em palavras, descrever o que não tem palavras: o silêncio! :)

Muito lindo mesmo!

Milena disse...

Perfeito. Como sempre.
Bjo

Bel Méo disse...

Adorei. Não vou nem falar mais nada...

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